Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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FEITOS & DESFEITAS >

Uma seqüência de erros

Por Vanderson Freizer, J.R. Reicinaer e Steve Von Sher em 28/10/2008 na edição 509

Mais de 100 horas, este foi o tempo de desespero de duas jovens que os brasileiros acompanharam pelos meios de informação. Lindemberg Alves manteve a ex-namorada Eloá Pimentel e amiga dela Nayara Rodrigues, sob mira de dois revólveres, demonstrando agir com violência em muitos momentos em que manteve as duas em cárcere privado, o mais longo da história deste país.

O seqüestro começou após crises de ciúme de Lindemberg, que dizia amar a ex-namorada, de apenas 15 anos de idade. Armado, ele invadiu o apartamento da vítima, que se encontrava no local com amiga Nayara e mais dois colegas. O drama começou e não tinha previsão para terminar.

Nas primeiras horas de cárcere, a visão que o Brasil teve de Lindemberg foi a de um rapaz apaixonado, com ciúmes da ex-namorada e que possivelmente queria tentar reatar o namoro. Um rapaz trabalhador, com dois empregos, honesto atencioso e divertido, este era o futuro assassino que, após o crime, se tornou, segundo informações dos familiares de Eloá, em uma pessoa fria, agressiva e extremamente ciumenta. Lindemberg passou de mocinho a bandido em questão de horas; até os psicólogos que manifestaram suas opiniões, mudaram os rumos de suas análises, psicólogos esses que estavam mais interessados na repercussão do caso e em ‘vender’ suas imagens através da mídia, que explorou o caso com sensacionalismo.

Erro de omissão

Todos os meios de comunicação que abordaram o caso, e até a maioria dos profissionais que opinaram a respeito do acontecimento, isentaram o erro grave dos familiares de Eloá, que deixaram uma menina de 12 anos começar um namoro com rapaz de 19. Permitiram que uma menina em idade para brincadeiras e estudo intenso mantivesse uma relação com um homem, o que possivelmente não iria dar a lugar algum.

Um relacionamento sem futuro, de uma criança com um adulto, que na maioria dos casos não passa de uma simples brincadeira para um, e algo extremamente sério para o outro; duas partes e duas fases da vida que vêem o mundo com outros olhos e de maneiras diferentes.

A família da garota permaneceu no erro ao afirmar que Lindemberg era um rapaz violento, ciumento ao extremo e manipulador, e mesmo assim não tomaram uma atitude perante um namoro que aparentemente não tinha muitas chances de terminar bem. Erro que deveria ter sido corrigido o quanto antes, para evitar problemas futuros.

Envolvimento emocional

O caso do seqüestro em Santo André mostrou mais uma vez que a imprensa brasileira ainda continua refém do sensacionalismo, uns apelando para a emoção, outros com o intuito de marcar alguns pontos de audiência e manipular a opinião das pessoas.

Mais uma vez, muitos programas de TV exploraram o caso, como se o assassinato de Eloá fosse um fato isolado, dando a impressão de que o Brasil é um país pacifico, em que muito raramente acontece um assassinato brutal.

A maioria das reportagens produzidas por jornalistas tinha claramente o interesse comercial, tirando proveito de uma situação de dor e desespero. As emissoras que mantiveram suas programações quase que inteiramente voltada ao caso contavam com altos índices de audiência, a intuito de informar sem ‘segundas intenções’ foram praticados por poucos.

A Rede Record de televisão mais uma vez mostrou incompetência em fazer um jornalismo imparcial. Seus repórteres exploram o emocional das pessoas, transformando o seqüestrador num bandido sem precedentes, as seqüestradas em mocinhas que jamais cometeram erros na vida. O Jornal da Record, quase que por duas edições falou unicamente do caso; foram horas de reportagem que não agregaram informação relevante ao caso – queriam fazer com que as pessoas se emocionassem com o acontecimento, não importando de que forma.

Mídia encorajou bandido

Talvez o principal erro da polícia tenha sido se deixar levar pela imprensa, que mostrava Lindemberg como uma pessoa pacata e trabalhadora. Deveriam, desde o princípio, tê-lo considerado como bandido, já que mantinha apontadas para as vítimas duas armas de fogo.

Houve também outras séries de erros que favoreceram o fim trágico do cárcere de mais de 100 horas, o mais longo da história, erros como as negociações com o criminoso, falhas ao entrar no apartamento e ao condizerem os trabalhos no local do crime.

Deixar o acusado falar com a imprensa e manter por todo o tempo as equipes de reportagens próximas do local também são erros que devem ser atribuídos à polícia. Com o assédio da imprensa, o seqüestrador passou de um simples rapaz de 22 anos que mantinha a ex-namorada e sua amiga como reféns a ‘príncipe do gueto’, segundo palavras do próprio Lindemberg.

Os meios de comunicação, que deram maior importância que o caso merecia, encorajaram o bandido e fizeram com que a situação ganhasse ainda mais tensão que já existia. Lindemberg passou de ‘um apaixonado enciumado’ para controlador dos fatos envolvendo as mais de 100 horas de cárcere.

Hora de rever conceitos

Mais uma vez criaram uma imagem inexistente dos acontecimentos, fizeram deste fato um grande meio de obter bons índices de audiência e lucros com o sofrimento, manipulando as pessoas e atentando para o emocional.

Quem acompanhou as coberturas de alguns programas de televisão ficou com a idéia de que o Brasil é um país pacato, onde crimes como estes são de difícil acontecimento. Uma imagem errada de uma nação afundada em problemas de segurança pública, sociais e de tráfico de drogas que favorecem o aumento da criminalidade.

Esqueceram de mostrar que o bairro onde Eloá residia é um dos mais violentos da cidade de Santo André. Com inúmeras pessoas viciadas em drogas, onde existe um grande número de pessoas envolvidas no tráfico de drogas e até bandidos fugitivos da policia, como é o caso do pai de Eloá, Everaldo Pereira dos Santos, que é acusado de dois assassinatos no estado de Alagoas e de integrar uma quadrilha responsável por diversos crimes no fim dos anos 90. O acusado nega os crimes.

Fizeram do caso algo extraordinário, esqueceram que no Brasil acontecem 127 homicídios por dia, uns até em piores circunstâncias que o de Eloá.

Precisamos rever nossos conceitos, começarmos a agir em defesa da vida e enfrentarmos a realidade de forma consciente e eficaz.

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Jornalistas, Santo Antonio do Aracanguá, SP

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