Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Uma mulher latina na Suprema Corte

Por Ligia Martins de Almeida em 02/06/2009 na edição 540

O primeiro presidente negro dos Estados Unidos indicou a primeira latina para a Suprema Corte do país, no que a mídia americana taxou de ‘History making History’, ou seja, a História fazendo História.

A imprensa sabia que a indicada seria uma mulher – por si só um fato extraordinário, já que será (se aprovada pelo Senado) a terceira mulher a ocupar um posto na Suprema Corte. Mas o fato da escolhida ser uma latina, filha de imigrantes de Porto Rico (pai operário e mãe enfermeira), criada no Bronx, bairro nova-iorquino de residentes negros e latinos, foi a grande sensação.

Segundo Veja (01/06/2009), a primeira mulher só foi nomeada para a Suprema Corte em 1981, mas, ao contrário de Sonia Sotomayor, ‘suas preocupações eram conservadoras em quase todos os campos, exceto no que dizia respeito às mulheres’. A primeira indicada de origem latina preocupa os senadores, até por declarações dela, como esta, de 2001: ‘Nossas experiências como mulheres e pessoas de cor afetam nossas decisões como juízes’ (New York Times, 27/05/2009).

Um preconceito mal disfarçado

A declaração de Sotomayor serviu de tema para vários segmentos dos noticiários das TVs CNN, ABC e Fox, alegando que os senadores conservadores iam se pegar nessa frase para rejeitar a indicação presidencial. A acusação de ‘preconceito às avessas’ pode ser uma pedra no caminho da nomeação. Mas, segundo os comentaristas da TV americana, os senadores terão que aceitar a porto-riquenha se quiserem manter os votos latinos, de grande importância nas eleições americanas. Veja deu os números: ‘Os hispânicos correspondem a 15% da população dos Estados Unidos. Há mais hispânicos (47 milhões) do que negros (40 milhões). O presidente Obama escolheu Sotomayor por tudo o que ela representa: é hispânica, é mulher e percorreu, nas palavras de Obama, uma `jornada extraordinária´, que ecoa a do próprio presidente.’

O que as TVs não discutiram foi o fato de a escolhida ser mulher, deixando entrever que o fato de mulheres ocuparem cargos de relevância já é considerado normal na política americana. Nem discutiram o fato de Sotomayor falar de si mesma como ‘pessoa de cor’. Para nós, brasileiros, Sonia Sotomayor é apenas uma branca de cabelos pretos. Mas, para os americanos, os latinos ou hispânicos não são considerados brancos, mesmo os de clara origem européia, sem miscigenação. A imprensa americana não discutiu a cor de Sotomayor, mas insistiu no fato da escolhida ser latina, o suficiente para os espectadores entenderem que não se trata da uma branca americana.

Os conservadores entrevistados prometeram um questionamento estritamente legal, o que certamente vai implicar em discutir com Sotomayor suas posições sobre situação dos imigrantes, aborto e a grande questão do momento: o casamento gay. Sendo mulher, de origem pobre, eles temem que ela favoreça todas as minorias. O que a escolha de Sotomayor deixou claro – pelo debate na mídia – foi que, tão forte quanto o preconceito contra mulheres e negros, os americanos alimentam também um mal disfarçado preconceito contra os imigrantes latinos.

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