Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > CRÍTICAS IDEOLÓGICAS

Uma reedição do Samba do Crioulo Doido

Por Celso Lungaretti em 06/11/2007 na edição 458

O samba do Olavo doido

Em 1968, o grande Sérgio Porto não suportava mais os sambas-enredos sobre figuras históricas, que passaram a predominar a partir da turistização do carnaval carioca. Tratava-se de uma opção esperta para se agradar aos gringos e evitar atritos com a ditadura, mas que resultou catastrófica do ponto-de-vista artístico: os episódios eram narrados de forma simplista, oficialesca e, muitas vezes, equivocada.

A resposta de Sérgio Porto foi o genial Samba do Crioulo Doido, que, dizia a introdução, ‘tinha sido criado’ por um compositor de escola-de-samba cuja cuca fundira de tanto lidar com os eventos da História, levando-o a fazer uma salada de épocas, fatos e personagens: ‘Joaquim José / que também é / da Silva Xavier / queria ser dono do mundo / e se elegeu Pedro II. / Das estradas de Minas / seguiu para São Paulo / e falou com Anchieta. / O vigário dos índios / aliou-se a D. Pedro / e acabou com a falseta. / Da união deles dois / ficou resolvida a questão / e foi proclamada a escravidão…’

Olavo de Carvalho, que se apresenta como ‘jornalista, ensaísta e professor de filosofia’, também compõe seus sambas do crioulo doido. E o pior é que não se trata de sátira: ele acredita nas bobagens que escreve.

Rigor ausente

Assim, pretendendo me agredir (artigo ‘Inutilidade Confessa’, Diário do Comércio, 24/10/2007), ele já começa viajando na maionese: ‘Celso Lungaretti, que entrou para os anais da História Universal como prefeito de Pariquera-Açu, SP…’

Repetindo a mesma ladainha num programa radiofônico, ele deixou ainda mais evidenciado seu desprezo por esse município, ao acrescentar que sua população se limitava a três pessoas: eu, meu pai e minha mãe.

Mas, da mesma forma que o Tiradentes nunca falou com Anchieta, eu também jamais fui prefeito de Pariquera-Açu ou de qualquer outra cidade. Nunca disputei eleições para o Executivo ou o Legislativo. Sou paulistano e – com exceção do período em que participei da resistência à ditadura militar – sempre residi na Capital.

Parece que o rigor factual anda meio ausente das aulas do professor OC.

Provas de delitos

OC, em seguida, se refere a mim como ‘dono da Geração Editorial’. E diz que eu tenho ‘prosperado muito no ramo da propaganda comunista, a indústria mais pujante deste país’.

Uma passada de olhos pelo site da Geração seria suficiente para ele ficar sabendo que o dono da editora é o respeitado jornalista e escritor Fernando Emediato. E que eu sou apenas um entre dezenas de autores que compõem o cast da Geração.

Será que as aulas de filosofia de OC incluem o ensino da responsabilidade ética? Dificilmente. Afinal, ele me acusa de infidelidade aos princípios da democracia e da livre-expressão por exigir o fechamento judicial ‘dos sites conservadores na internet’.

E qual foi, realmente, minha proposta? ‘Reunir provas dos delitos que estão sendo cometidos (exortação à rebelião contra os Poderes da Nação, calúnia e difamação, principalmente), encaminhando-as às autoridades (a equipe que o Ministério Público Federal criou para combater os crimes virtuais ou, nas cidades menores, a Polícia Federal), à imprensa e às entidades de defesa dos direitos humanos’.

Novela de James Bond

Ou seja, defendi e defendo a tomada de providências judiciais contra os sites extremistas de direita (não os meramente conservadores) que estejam pregando a derrubada do governo constitucionalmente eleito ou cometendo os crimes de calúnia e difamação, entre outros.

O que há de errado em pedir que as autoridades apurem crimes virtuais? O que as pregações golpistas e o uso de mentiras para satanizar cidadãos respeitáveis têm a ver com a democracia e a liberdade de expressão?

O principal motivo desse tiro que OC tentou dar em mim (e saiu pela culatra) foi a crítica que eu fiz, no meu artigo ‘Goebbels Inspira Direita e Esquerda na internet’, à seguinte afirmação dele, OC, referindo-se ao Foro de São Paulo, em artigo de 15/01/2007: ‘… A entidade, que já domina os governos de nove países, não admite, não suporta, não tolera que parcela alguma de poder, por mais mínima que seja, esteja fora de suas mãos… O Foro de São Paulo, com a aprovação risonha do nosso partido governante, reivindica o poder ditatorial sobre todo o continente’.

Eu esclareci que o Foro consiste ‘apenas de um encontro bianual de partidos políticos e organizações sociais contrárias às políticas neoliberais’. E comentei que OC, com suas teorias conspiratórias, mais parecia ‘Ian Fleming introduzindo a Spectre numa novela de James Bond’.

Companheiros de ideais

A isso responde agora OC: ‘Fique pois o leitor sabendo que os partidos de Lula, Kirschner, Chávez, Morales e tutti quanti não governam nada ou então não pertencem ao Foro de São Paulo, embora eles próprios digam o contrário em ambos os casos’.

Qualquer cidadão sensato percebe quão delirante é a hipótese de que Brasil e Argentina, juntamente com cinco nações não especificadas, a Venezuela e a Bolívia, participem de uma tramóia para implantar ditaduras de esquerda em todo o continente americano (o que incluiria os Estados Unidos).

Quem crê ou tenta fazer os outros crerem que o populismo autoritário de Chávez determinará o destino de grandes nações como o Brasil e a Argentina, já foi além até das fantasias de 007. Isso está mais para O Rato Que Ruge, aquela ótima comédia com Peter Sellers…

Como o rigor geográfico também passa longe do pomposo professor de filosofia, ficamos sem saber exatamente quais os países em risco de se tornarem ditaduras. Mas, com toda certeza, a verdadeira ameaça é representada por quem já transformou a América Latina numa constelação de ditaduras e generalizou a prática de assassinatos e torturas nas décadas de 1960 e 1970: os companheiros de ideais de OC.

Os iguais podem julgar

De resto, ele também nada tem a ensinar em termos de comportamento. No texto escrito, diz que ‘o que quer que um tipo como Lungaretti diga ou faça é inócuo como um pum de mosquito’. No falado, apela para grosserias ainda mais explícitas e palavras de baixo calão, atingindo inclusive minha mãe octogenária. A isso darei a resposta cabível de um homem civilizado, não a dos becos em que se originaram o nazismo e o fascismo.

Como não reconheço a mínima autoridade moral de OC para julgar meu comportamento, não perderei muito tempo com seus devaneios sobre episódios já esclarecidos.

Acusa-me de oportunista por, após 65 dias de incomunicabilidade e torturas, logo depois de sofrer uma lesão permanente e sob ameaça de morte, haver aceitado participar de uma farsa de arrependimento forçado, articulada pela inteligência do Exército.

Quem pode avaliar uma atitude tomada em situação tão extrema são os outros combatentes, que também assumiram o risco de enfrentar a tirania, apesar da enorme disparidade de forças. Os iguais podem me julgar. Os carrascos, seus defensores e seus discípulos, não.

Lixo da História

OC falta novamente com a verdade ao dizer que mudei de posição agora, por ser mais vantajoso para mim. Desde a primeira vez que fui procurado pela imprensa – entrevista concedida à IstoÉ em 1978 – sempre relatei as torturas sofridas e as circunstâncias dramáticas em que se deu aquele episódio.

Reiterei isso, na década seguinte, em entrevistas ao jornal Zero Hora e à revista Veja. E voltei a falar sobre as torturas durante a polêmica com Marcelo Paiva, em 1994. Além de haver travado uma luta dramática para salvar da morte quatro militantes que faziam greve de fome em 1986.

Felizmente, minhas palavras e atitudes estão registradas de diversas formas, tornando inócuas essas tentativas de desmerecer uma vida inteira dedicada à defesa da liberdade e da justiça social. Os leitores poderão facilmente encontrar elementos para decidirem de que lado está a verdade.

Finalizando: o samba do crioulo doido de OC toma ao pé da letra uma afirmação que o saudoso Lalau fez como blague. Quer que seja proclamada a escravidão e voltemos todos a viver debaixo das botas. Mas, o amadurecimento do povo brasileiro é bem maior do que supõe sua vã filosofia.

Ditaduras – todas as ditaduras – foram para a lata de lixo da História. E dela não sairão, por mais que suas viúvas esperneiem.

******

Jornalista e escritor

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/11/2007 Thiago Conceição

    Ricardo Camargo, eu não teria problema algum em servir o meu país caso se fizesse necessário, como na eventualidade de uma guerra. Os Nazistas não eram marxistas, mas isso não significa que eram pró-capitalismo. Na verdade eles estão mais próximos do Comunismo com o seu modus operandi e idéias, pois acreditavam que o capitalismo deveria estar submetido a vontade do estado e servir o povo. Tanto o capitalismo voraz e quando o Marxismo eram vistos por eles como ameaças do judaísmo internacional. Em um discurso proferido no dia 14 de Setembro de 1936, Hitler disse: ‘Tivesse o comunismo realmente pretendido nada além de uma certa purificação eliminando certos elementos podres de nossas fileiras dos 10000 da classe mais alta, ou os nossos igualmente inúteis filisteus, poderia-se sentar tranqüilamente e observar por um tempo’. Ou seja, até eles acreditavam que os Marxistas tinham a sua utilidade. O próprio Hitler criou a imagem de ‘trabalhador’ pois tinha origens humildes, e tanto ele quanto o Mussolini vendiam a idéia de serem ‘homens do povo’ igual aos mais humildes dentre eles cujos votos os ajudaram a chegar ao poder. Isso é muito diferente do mito que a esquerda inventou. Sempre que ouvirem um esquerdista acusar alguém de ‘fascismo’ saibam que ele não faz a mínima idéia do que está falando e apenas repete o que doutrinado na nossa deseducação esquerdista.

  2. Comentou em 11/11/2007 Ricardo Camargo

    Paulo Bandarra, todas as vezes em que debatemos, não houve a ultrapassagem do que permitido pela elegância, pela cortesia – e raramente estamos de acordo, por sinal -. Mesmo em relação ao SD Thiago, mesmo perdendo a paciência, procuro não ser descortês. Mas vamos esclarecer: pelo estilo fancamente belicista que ele tem adotado em seus comentarios, que parece auto-investir-se numa condição de uma Joana D Arc masculina do Anti-Comunismo, seria lícito inferir que o seu maior desejo seja a convocação de reservistas para ‘combaterem o Mal’ (e todos sabem quando são convocados os reservistas). Se ao SD Thiago é difícil aceitar o fundamento de que se deve ser educado com todas as pessoas, mesmo as que dele discordam, pelo simples fato de integrarem o gênero humano, quanto mais não seja pelo fato de que, algum dia, poderia ele estar na condição de subordinado de alguma delas. Quem já esteve na caserna sabe muito bem o que significa, eventualmente, levar uma ‘chave de galão’. Não as dei quando tive oportunidade, porque isto nunca foi do meu feitio, mas não posso responder por todos.

  3. Comentou em 11/11/2007 Ricardo Camargo

    Paulo Bandarra, todas as vezes em que debatemos, não houve a ultrapassagem do que permitido pela elegância, pela cortesia – e raramente estamos de acordo, por sinal -. Mesmo em relação ao SD Thiago, mesmo perdendo a paciência, procuro não ser descortês. Mas vamos esclarecer: pelo estilo fancamente belicista que ele tem adotado em seus comentarios, que parece auto-investir-se numa condição de uma Joana D Arc masculina do Anti-Comunismo, seria lícito inferir que o seu maior desejo seja a convocação de reservistas para ‘combaterem o Mal’ (e todos sabem quando são convocados os reservistas). Se ao SD Thiago é difícil aceitar o fundamento de que se deve ser educado com todas as pessoas, mesmo as que dele discordam, pelo simples fato de integrarem o gênero humano, quanto mais não seja pelo fato de que, algum dia, poderia ele estar na condição de subordinado de alguma delas. Quem já esteve na caserna sabe muito bem o que significa, eventualmente, levar uma ‘chave de galão’. Não as dei quando tive oportunidade, porque isto nunca foi do meu feitio, mas não posso responder por todos.

  4. Comentou em 11/11/2007 Ricardo Camargo

    A lógica aberta vai além do dualismo consistente na crença do ‘quem não está alinhado comigo está automaticamente alinhado com os meus inimigos’. Mesmo as xilogravuras em preto e branco de Albrecht Dürer têm matizes de cinza para poderem ser vistas. As passagens transcritas apenas indicam que tanto o autor do artigo comentado quanto o autor do comentário já foram apedrejados, e só isto e nada mais do que isto. Agora, acho bom o caro SD Thiago moderar o tom de seus comentários e aprender a se comportar como a nobreza que tanto admira, embora aja como um plebeu: quando desaparece a paciência com o debate – e, diante da grosseria, é difícil manter tal paciência -, pode surgir a paciência com a demora e os gastos de um processo judicial. Sem contar com o fato de que pode aqui haver reservistasperante os quais, no caso de convocação, pode o SD Thiago ter de assumir posição de sentido para se dirigir a eles e prestar-lhes continência.

  5. Comentou em 11/11/2007 Ricardo Camargo

    A lógica aberta vai além do dualismo consistente na crença do ‘quem não está alinhado comigo está automaticamente alinhado com os meus inimigos’. Mesmo as xilogravuras em preto e branco de Albrecht Dürer têm matizes de cinza para poderem ser vistas. As passagens transcritas apenas indicam que tanto o autor do artigo comentado quanto o autor do comentário já foram apedrejados, e só isto e nada mais do que isto. Agora, acho bom o caro SD Thiago moderar o tom de seus comentários e aprender a se comportar como a nobreza que tanto admira, embora aja como um plebeu: quando desaparece a paciência com o debate – e, diante da grosseria, é difícil manter tal paciência -, pode surgir a paciência com a demora e os gastos de um processo judicial. Sem contar com o fato de que pode aqui haver reservistasperante os quais, no caso de convocação, pode o SD Thiago ter de assumir posição de sentido para se dirigir a eles e prestar-lhes continência.

  6. Comentou em 10/11/2007 Thiago Conceição

    Ivo Lucchesi: ‘Prezado Celso’, isto é, o autor deste artigo, ‘, na condição de também articulista’, e o articulista Celso defendeu o Lamarca, notório terrorista, ‘conheço bem a experiência do que significa não ser compreendido (ou ser deturpado) por aquilo que se publica. Assim, sem nenhum tom de conselho, mas apenas de sentimento solidário, aceite a terrível idéia de que somos’, prestem muita atenção no NÓS somos , ‘ condenados pela estreiteza da ‘lógica fechada’, a lógica ‘aberta’ por uma caso inclui ditaduras do proletariado? ‘, irmã-gêmea da razão dogmática que, por sua vez, tem horror a qualquer exercício …’ Aqui você se posicionou ao lado do Celso Lungaretti. Pronto, o texto está reproduzido. Passar bem.

  7. Comentou em 10/11/2007 Ricardo Camargo

    Realmente, há alguns que julgam que quem milita nalguma das extremidades do radicalismo está autorizado a inventar fatos desairosos a seus adversários e, como Deus manifestado na terra, nada do que invente, será falso. O Prof. Ivo Lucchesi já foi injustamente apedrejado por ambos os lados. Eu me havia proposto a não desperdiçar meu precioso tempo argumentando contra o macartismo fanático do SD Thiago (que já me chamou comuna, vigarista, sofista e outros adjetivos plebeus, nenhum deles retribuído), mas a imputação que foi feita ao Prof. Ivo Lucchesi só pode ser respondida de uma forma: por que, ao invés de distribuir insultos e imputações levianas contra pessoas de bem que só não o processaram por não desejarem, não vai tentar se inteirar sobre o que, realmente, elas dizem? Mas é perda de tempo argumentar contra um sedizente programador que, quando o sr. Marcelo Ramos disse presumir que ele entendesse de computação, respondeu que não haveria nada que levasse à conclusão de que entendesse mesmo do seu ‘métier’. Muito feliz a sentença quanto à inviabilidade do argumento contra a muralha do dogma. Só me resta dizer como um personagem de Lorenzo Da Ponte: ‘Cherubino alla vittoria, alla gloria militar!’

  8. Comentou em 09/11/2007 Paulo Bandarra

    O sr Jules Anders parece que anda pilotado um espelho: “A retórica raivosa deles, cheia de recalques psicóticos e clichês, …” Que profundidade!!!!

  9. Comentou em 07/11/2007 Thiago Conceição

    Cid Elias, não adianta tentar desconversar, você fez uma acusação muito séria e eu desafiei você a provar: ‘ ‘diga-se de passagem folha de pagamento dum meio de comunicação de Washington’ Prove. ‘ Esquerdistas são mentirosos. A mentira faz parte do modus operandi esquerdista.

  10. Comentou em 06/11/2007 Celso Lungaretti

    (final) Também divulgadíssima no circuito virtual dos radicais de direita, a “Carta Aberta aos Militares” do Partido Vergonha na Cara conclamava as Forças Armadas a cumprirem ‘o seu papel histórico e constitucional de proteger o Brasil de comunistas e assaltantes e criminosos que ameaçam o nosso país”, concluindo com um enfático “Militares no poder já!”.

    Que cada um julgue se é admissível isso tudo ir ao ar sem a responsabilização judicial dos autores e divulgadores.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem