Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CRISE NO LIBÉRATION

Urgência para salvar um ícone da esquerda

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 17/11/2006 na edição 407

Nesta semana, a queda de braço entre o principal acionista do jornal Libération e a redação do diário teve mais um emocionante capítulo.


De um lado, os jornalistas de Libé e o plano que defendem para recuperar o jornal, apresentado por um dos maiores jornalistas franceses, o ex-diretor de redação do Le Monde, Edwy Plenel. Do outro, um Rothschild e seu escudeiro, o jornalista Laurent Joffrin, que pediu demissão da direção de redação da revista Nouvel Observateur para apresentar sua candidatura ao posto de diretor do Libération.


Ambos os postulantes à função de salvador do jornal mítico, defensor de todas as batalhas da esquerda francesa, divulgaram um ideário, ou algo parecido, para explicar aos leitores de Libé e aos franceses em geral o que pretendem fazer para afastar o jornal da beira do abismo onde se encontra há alguns meses.


Rotschild prefere Joffrin e vai fazer tudo para impor seu favorito a uma redação que prefere Plenel, e ainda detém o poder de veto. Até quando? O acionista majoritário pretende modificar o estatuto do jornal e tirar esse poder dos jornalistas. Quem vai ganhar a queda de braço?


Votação decisiva


Laurent Joffrin, de 54 anos, trabalhou no Libération de 1981 a 1988 e, depois, de 1996 a 1999. Deixou o jornal por divergências com Serge July para voltar ao Nouvel Observateur, de onde já tinha sido diretor de redação. Para Joffrin, o fechamento do jornal causaria uma ‘ferida na democracia francesa’ e excluiria de fato a esquerda da imprensa matutina. Ele propõe aos jornalistas do Libé um projeto que visa a transformar o jornal em ‘empresa multimídia’. Essa empresa, segundo ele, ‘seria o porta-voz da sociedade diante dos poderes, a morada de uma esquerda aberta e o instrumento de informação de todos os que aspiram a compreender o mundo e a transformá-lo’.


Segundo Joffrin, é o peso do que está em jogo do ponto de vista político e social que motiva sua candidatura à direção de um jornal que ele conhece bem, e no qual aprendeu o métier de jornalista.


‘Salvar Libération e encontrar novos parceiros econômicos é um desafio político e econômico, democrático e profissional’, escreveu Edwy Plenel no domingo (12/11), num texto intitulado ‘Salvar Libération‘. ‘A imprensa francesa tem necessidade de uma voz livre, independente e diferente: esse é o lugar do Libération.’


Plenel não deixou de lembrar os 20 milhões de euros que Rothschild investiu e perdeu no Libération no ano de 2005. Mas sugere que em vez de culpar os assalariados Rothschild assuma a responsabilidade dessas perdas. Edwy Plenel defende, ainda, o engajamento da imprensa como um pilar da democracia. Disse:




‘Toda revolução industrial constrói novas relações de força, na incerteza e na improvisação. Mas a que vivemos no nosso métier tem essa particularidade de pôr em risco um valor não-mercantil: a democracia. Não resistir à irresistível ascensão de uma imprensa industrial que mostra seus laços de dependência omitindo-se quando uma notícia incomoda um poder econômico, resignar-se com jornais sem jornalismo, com diários descartáveis e de conteúdos uniformes, aceitar o rebaixamento e a precarização da profissão de jornalista, sob pretexto que esse métier não seria mais uma competência, é recusar-se a investir nesse bem comum: o espaço público responsável pela existência da democracia.’


O jornalista diz estar ciente de que Edouard de Rothschild é completamente contrário ao seu projeto e nem se dignou a examiná-lo.


Na segunda-feira (20/11), quando haverá uma nova reunião do conselho de administração do jornal, Edouard de Rothschild vai propor a nomeação de Joffrin como presidente do diretório do Libération, um cargo que não existe no atual organograma do jornal. Ele proporá justamente mudanças no estatuto. Com essas mudanças, os jornalistas que formam a Sociedade Civil do Pessoal de Libération – que detém 18% do capital do jornal – perderiam o atual direito de vetar o nome do diretor de redação (que será chamado ‘presidente do diretório’ e, ao que tudo indica, atuará como um preposto de Rothschild).


Os jornalistas deverão votar aprovando ou não o projeto editorial de Joffrin, que prevê a demissão de cem pessoas, das quais noventa somente na redação. O jornal tem atualmente 276 empregados e o plano de Plenel, menos drástico, pretende limitar as demissões a 66 pessoas.

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