Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Vaticano, os Beatles e a ministra Dilma

Por Deonisio da Silva em 25/11/2008 na edição 513

L´Osservatore Romano, o conhecido jornal do Vaticano, deu grande destaque à notícia, que logo repercutiu no mundo: a Santa Sé perdoou os Beatles.

Em 1966, dois anos antes do lançamento do Álbum Branco, John Lennon deu a polêmica declaração: os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. E acrescentou que não sabia o que iria terminar primeiro, o cristianismo ou o rock.

Celebrando os 40 anos das conhecidas canções do Álbum Branco, ouvido no mundo inteiro e com toda certeza em muitos aposentos do Vaticano nessas quatro décadas, o artigo põe a famosa banda nas nuvens, enaltece John Lennon e perdoa a boutade do rapaz talentoso e pobre, nascido e criado em Liverpool, uma espécie de São Bernardo do Campo da Inglaterra.

O Vaticano demora a fazer certas coisas. Agora perdoou um artista. No pontificado de João Paulo II perdoou o cientista Galileu Galilei. Lento, mas eficiente, o Vaticano tem um poder cortejado no mundo inteiro. Os estadistas já não são broncos como Stálin, que perguntou quantas divisões tinha o papa. Todos os dias lá estão poderosos do mundo inteiro visitando a Santa Sé para obter os efeitos resplandecentes daquelas luzes, que alcançam o universo, urbi et orbi, Roma e o mundo, como no caso da bênção.

‘Estranha alquimia’

Há poucos dias, também o presidente Lula esteve lá, acompanhado da candidata à sua sucessão, a ministra Dilma Rousseff. Entre outros objetivos, a presença ao lado do papa buscava visibilidade para as negociações entre o Vaticano e o Brasil. Um editor brasileiro mais atrevido repercutiu a notícia em manchete: ‘Candidatura abençoada’.

Dilma Rousseff é dessas mulheres que têm história. Foi ela quem planejou o que aconteceu na tarde de 18 de julho de 1969: o assalto ao cofre do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Usando três veículos, 11 homens e duas mulheres, todos da VAR Palmares, invadiram a casa do de Ana Capriglioni, amante de Adhemar, no bairro de Santa Teresa, no Rio. Quatro guerrilheiros ficaram em frente à casa. Nove entraram, dominaram os empregados, cortaram os dois telefones e trouxeram um cofre de 350 quilos recheado de dólares.

A ação durou 28 minutos e foi coordenada por Dilma Rousseff e Carlos Franklin Paixão de Araújo, pai da única filha da atual ministra. O casal planejou e coordenou a ação, mas Dilma não teve participação. ‘Se tivesse tido, não teria nenhum problema em admitir’, diz a ministra, com orgulho de seu passado de combatente, quando comenta o episódio.

Nada roubou para si. Empenhava-se na luta contra a ditadura militar. Presa, torturada barbaramente, agora é punida pela segunda vez por aqueles que redistribuem na internet a ficha que dela fez a repressão. E cadê a ficha dos que a torturaram?

Talvez o Vaticano a perdoe um dia também. E então o papa encontrará outras palavras para a remissão. Para absolver John Lennon, as palavras foram estas: ‘Foi exibicionismo, gabolice de um jovem músico inglês pertencente às classes trabalhadoras, que havia crescido na era de Elvis Presley e do rock and roll, e tinha alcançado um sucesso inesperado’.

O artigo, ilustrado, tem só meia página e diz ainda que os Beatles conseguiram ‘uma única e estranha alquimia de sons e palavras’, e que Álbum Branco perpetuou-se no tempo por ser ‘uma antologia musical mágica’.

Plural indispensável

David Wiley, correspondente da BBC em Roma, escreveu que o perdão deve-se a que L´Osservatore Romano tem um novo diretor, que está pautando o mundo do entretenimento e os assuntos de política internacional, indo muito além da cobertura das atividades diárias do papa e da publicação de seus discursos.

Na mesma página em que John Lennon é ‘perdoado’ e os Beatles são elogiadíssimos, aparece uma outra matéria, sobre cinema, intitulada ‘O crepúsculo dos deuses’, em que L´Osservatore Romano lamenta que a ‘idade de ouro’, substituída pelo culto a pseudocelebridades, seja só uma recordação.

John Lennon, em seu primeiro disco solo, de 1970, diz na canção God: ‘Deus é um conceito que usamos para medir nossa própria dor’. E quando turbas reacionárias, manipuladas pela direita americana, começaram a quebrar os discos dos Beatles, o baterista Ringo Starr tocou onde mais doía: ‘Podem quebrar quantos discos quiserem, porque antes tiveram que comprá-los’.

Para muitos, a função da mídia é apenas esta: vender. Produtos ou idéias, mas vender. Tendo nascido idealista, a imprensa logo ensinou que escrevemos no verso de anúncios publicitários, rodeados de políticos, artistas músicos, celebridades verdadeiras e perenes ou falsas e efêmeras. Repartidos, leitores aprovam ou desaprovam, pois o plural é indispensável nesse singular em que a mídia se tornou.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século); www.deonisio.com.br

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