Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
Menu

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & CULTURA

Vêm aí a primavera e as eleições

Por Deonisio da Silva em 19/08/2008 na edição 499

Em setembro virá a primavera. Em outubro, as eleições municipais. Que as cidades se mirem no exemplo da estação e refloresçam e reverdejem em todo o esplendor. Evitemos o pessimismo do Barão de Itararé: ‘De onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada’.


O problema solar da crise por que passam as cidades não é econômico, é cultural. Com educação e cultura, a saúde iria melhor e até a segurança e o trânsito seriam melhores.


A criança que é bem educada tem outros desejos, quando criança e quando cresce. Ela aprende a desfrutar a alegria de ouvir um trecho de música clássica, ou de outra música que seja de sua preferência, gostos que lhe são transmitidos na escola, na igreja, na família. Aprende a ter o gosto de ler e delicia-se com a leitura de livros escritos por autores sobre os quais aprendeu em casa, na escola e em outros lugares que freqüenta, por serem lidos por seus pais, por seus professores, parentes, amigos, vizinhos etc.


Sinos de lata


Ao ler uma coluna de jornal, o leitor gosta de comentar com outros o que leu. Sei de casos em que o pai ou a mãe chama os filhos para apreciarem o pequeno trecho que acabaram de degustar. E isso pode no futuro diminuir problemas sociais e atenuar até a violência urbana. Que lado bonito tem a minha profissão, não tinha pensado nisso!


E por que trecho de jornal ou de revista? Porque escrevo no Primeira Página, aos domingos e às terças-feiras, um jornal cuja tiragem é de 10 mil exemplares; semanalmente, na revista Caras, cuja tiragem está sempre acima de 300 mil exemplares. Este Observatório da Imprensa me causa um arrepio quando me informa ter enviado ementa de meu artigo para mais de 25 mil pessoas! E algumas colunas são repetidas em vários lugares da internet. Machado de Assis talvez tenha sido um dos primeiros a entender que, com público tão reduzido para seus livros, ele precisava dos jornais! E deles foi colunista, deixando uma obra interessantíssima no batente desta outra profissão.


Nos cem anos da morte de nosso maior escritor, os livros ainda não estão nas livrarias e custam caro. Por isso, a tiragem média de 2.000 exemplares por edição atinge muito pouca gente. Os livros não estão também nas bibliotecas!


Várias cidades são sinos de lata para seus autores! Alguns deles obtiveram reconhecimentos importantes, são constantemente reeditados, mas não são encontrados em sua própria terra. Venceram por méritos próprios, a cidade nada fez por eles, e nem agora lhes dá atenção, quando a qualidade do que produziram já foi comprovada.


Famoso por quinze minutos


Não é assim em todos os lugares. Whisner Fraga, de Ribeirão Preto, nascido em 1971, meu ex-aluno de Letras na UFSCar e doutor em Engenharia Mecânica pela USP, tirou o primeiro lugar no 17º Concurso de Contos de Ituiutaba (MG), em 2008. O prêmio homenageia Luiz Vilela, escritor de daquela cidade mineira. Vilela, de 65 anos, dá nome a um prestigioso prêmio literário de seu município há 18 anos! Lembro da alegria dele, contando isso a outros colegas da delegação brasileira de escritores que foi à Alemanha, em 1994. Ou terá sido 1993?


Iniciativas culturais têm muitos benefícios, alguns dos quais nem sequer podemos supor, pois operam na cabeça de cada pessoa. Mas, vejam vocês, é muito importante um adolescente ser ensinado a compreender que um parágrafo de Machado Assis ou uma canção vale mais do que um par de tênis.


Vocês já ouviram falar em algum delinqüente juvenil que foi preso por furtar livros? Que foi que a mídia enfiou na cabeça do pobre rapaz para ele achar que, com um tênis daqueles que aparecem na televisão, ele obteria o reconhecimento social de que tanto precisa?


E por que tanta menina querendo aparecer? Já assistiram certamente, nem que tenha sido por uma zapeada, o programa da Luciana Gimenez, na TV Record? ‘In the future everyone will be famous for fifteen minutes’ (no futuro, todo mundo será famoso por quinze minutos), foi a profecia de Andy Warhol, o cineasta e pintor norte-americano, conhecido por desenhar latas de Coca-Cola, de sopa Campbell’s e símbolos como a atriz Marilyn Monroe. Morreu aos 59 anos, em 1987, depois de uma operação na vesícula. Pois aqueles entrevistados expõem intimidades com um descontrole que só é comparável em seu aluvião à voracidade do público que se delicia com as desconcertantes amostras de tantas coisas que têm o seu lugar no mundo, certamente, mas em ambiente privado. Não há mais privacidade para quem quer ser famoso por quinze minutos.


Sonho com surpresas


Fiquem com Shakespeare: ‘The spring puts a spirit of youth in everything’ (a primavera põe um sentido de juventude em tudo).


A primavera nos ensina que tudo pode mudar de repente, não mais que Vinicius de Morais. De repente, quem sabe, o eleitor brasileiro nos haverá de ensinar que aprendeu a votar. Que, mesmo com o STF postando-se ao lado de quem não podia pleitear cargo público, ele, o eleitor, tem melhor discernimento que os ilustres onze membros daquela corte, pródigos em livrar a cara de candidatos para cujo exame de seus abomináveis prontuários teríamos que acrescentar um requisito: a cara dos brutos. Pois há muitos candidatos dos quais se pode dizer, com certeza: ‘De onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada’. E no município o eleitor tem acesso a muitos olhares, infelizmente ocultos à última instância à qual podemos apelar.


Demora a florescer a primavera que tanto desejamos. Talvez ela chegue com atraso de um mês, em outubro próximo. Sonho com grandes surpresas em todo o Brasil. O povo brasileiro está, em muitas questões, à frente de gente culta e bem pensante. Aguardemos!

******

Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Novo Século); www.deonisio.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/08/2008 Arnaldo Mandel

    Não sei onde Shakespeare escreveu a tal frase, mas ela tem toda a cara de uma versão do português para (mau) inglês. Digna de aprecer no ‘The cow went to the swamp’ do Millôr.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem