Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MERCADO

Venda do ‘WP’ para a gigante digital é simbólica

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 06/08/2013 na edição 758

Reproduzido da Folha de S.Paulo, 6/8/2013; título original “Venda do jornal para a gigante do varejo digital é simbólica”, intertítulo do OI

Na reunião mundial de ombudsmans em Washington em 2009, em um debate no Museu da Notícia, a publisher do Washington Post, Katharine Weymouth, então com 42 anos, entrou numa velada competição com Ben Bradlee, o ex-editor-chefe de seu jornal, então com 88, pela atenção dos participantes.

Ela estava na mesa, ele, na plateia. Mas, quando alguém dirigiu a Bradlee uma pergunta, ele se tornou a atração, para evidente desagrado da neta de Katharine Graham, sua avó, que em parceria com o jornalista levou o diário a seus momentos de maior glória.

Weymouth foi a quinta e última pessoa da família a ocupar a função de publisher. Seu bisavô Eugene Meyer comprou o título em 1933, perdeu muito dinheiro com ele por 20 anos, mas, quando o entregou ao genro Phil Graham, acertou em cheio.

Graham era amigo de John Kennedy e Lyndon Johnson. No governo de ambos, o Post surfou nas ondas do poder. Comprou a revista Newsweek e diversas emissoras de TV. Bipolar, matou-se em 1963. A viúva, Katharine, o sucedeu.

A aliança de Katharine com Bradlee, que assumiu a Redação em 1968, era perfeita. O respeito mútuo e a confiança recíproca permitiram que o Post se consagrasse em dois dos mais importantes casos do jornalismo do século 20: Watergate e Documentos do Pentágono.

Conversas pagas

A matriarca foi sucedida pelo filho, Don, em 1993, e com ele começaram os problemas. Era o início da internet, o Post, como a maioria de seus concorrentes, parecia não enxergar o tamanho da ameaça e foi incapaz de arrumar saídas eficazes para enfrentar o desafio.

A única boa aposta empresarial do Post nestes anos difíceis foi a compra da Kaplan, que oferecia cursos à distância e material pedagógico impresso. Em 2010, a Kaplan respondia por 62% do faturamento do grupo. Mas uma série de problemas legais a atingiu a partir de 2011.

É provavelmente injusto atribuir a Weymouth, que assumiu o poder em 2008, a débâcle do Post. Mas ela não ajudou nada, quando achou que seria uma boa ideia para levantar dinheiro vender a empresários, políticos e lobistas por preços que variavam de US$ 25 mil a US$ 250 mil assentos à sua mesa de jantar em casa para desfrutar da companhia e da conversa com ela própria e seus principais repórteres e editores.

É simbólico que o Post, ícone do jornalismo impresso, acabe nas mãos da Amazon, que ajudou a tirar do mercado milhares de livrarias dos Estados Unidos.

 

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Carlos Eduardo Lins da Silva é editor da revista Política Externa

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