Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

Vida longa ao Estadão

Por Ivan Berger em 23/12/2008 na edição 517

Nas águas do recente fechamento, quase na surdina, da tradicional Tribuna da Imprensa, não é de hoje que se comenta que o jornal O Estado de S.Paulo, o glorioso Estadão, também está em situação periclitante, entre fechar as portas ou encontrar quem assuma uma dívida que teria se agigantado ainda mais com a disparada do dólar. Sei que é meio temerário escrever sobre hipóteses, mas como o assunto não chega a ser nenhum segredo no meio jornalístico, como indica o próprio gradativo afastamento da família Mesquita do comando do jornal, o que sempre foi uma espécie de marca registrada da casa, fico imaginando que desastre não seria o possível desaparecimento de outro esteio de nossa imprensa.

Desastre não só para a imprensa brasileira e toda uma categoria já tão carente de opções de trabalho, mas, principalmente, para o cidadão em geral, passível de perder talvez a referência mais importante de nosso jornalismo. Ou pelo menos a mais tradicional, já que nas duas últimas décadas o jornal indubitavelmente perdeu seu antigo viço. Refez-se um pouco a partir de uma reestruturação traumática que vem permitindo uma sobrevida que agora, no entanto, segundo se comenta, parece chegar à encruzilhada extrema, se bem que a hipótese de fechamento ainda pareça impensável.

Credibilidade da imprensa

Desconheço a real situação financeira da empresa e nem vem ao caso especular a respeito, mesmo porque essa parte só diz respeito aos donos e seus credores. O que interessa ao público é o patrimônio que está em jogo, é o risco de perder um aliado poderoso na luta pelas instituições democráticas, pelos direitos civis e de acesso à informação. Um jornal cuja reputação, como se sabe, foi forjada em meio às maiores crises, mormente no período da ditadura, em que foi uma espécie de trincheira de resistência que honrou nosso jornalismo.

É claro que de contrafações também é feita a vida de um grande jornal e não faltará quem aponte deslizes e equívocos em sua trajetória centenária, ônus de resto inerente ao papel da imprensa. Ainda mais que, como estamos fartos de saber, nunca, jamais, em tempo algum, houve ou haverá algum veículo de informação capaz de satisfazer aos anseios e expectativas da heterogênea natureza humana. Notadamente quando se trata de política, que é o setor nevrálgico, o ponto G, a quintessência da atividade jornalística.

Neste mesmo Observatório, carradas de acusações são postadas a cada edição, entre articulistas e leitores, sem que ninguém seja poupado, muito menos a chamada grande imprensa, que o lulo-petismo vem se encarregando de demonizar. Campanha que, no entanto, não tem encontrado eco junto à sociedade, na medida em que a aceitação e a credibilidade da imprensa continuam em alta conta, segundo a última pesquisa sobre nossas instituições e na qual a mídia impressa figurou como a segunda mais confiável para a população, abaixo apenas do Ministério Público.

Tupiniquins e tupinambás irmanados

Pode-se discordar, é claro, ou mesmo dar de ombros em relação ao futuro do jornalão que durante tanto tempo foi um referencial para nosso jornalismo, mas a verdade é uma só: todos perdem com o seu ocaso. Mesmo os que estão do lado oposto e que se refestelam com sua iminente ruína não se dão conta que uma imprensa independente é sempre melhor que uma imprensa submissa e comprometida com causas dúbias. Como é o caso do jornalismo atrelado ao governo e a serviço de ideologias retrógradas e amorais, cuja subserviência e sabujice saltam tanto à vista que sua audiência não decola nem a reboque do inoxidável prestígio de Lula. A exemplo, por sinal, da candidatura à sucessão presidencial de Dilma Roussef, que o grosso do eleitorado de Lula até o momento rejeita solenemente, para se ver que o povão nem sempre come enrolado.

Mas voltando ao contencioso, ou seja, às perspectivas sombrias que se delineiam não só para o Estadão como para a própria imprensa em geral, na esteira da crise mundial que convulsiona a economia de todo planeta. Crise que promete fazer de 2009 um ano difícil e ao mesmo tempo crucial, em função das mudanças profundas que devem ocorrer por conta da necessidade de reestruturação dos mercados e reacomodação das economias, processo em que muitas marcas e instituições de peso sucumbirão, como já está ocorrendo.

Veículos de informação obviamente não são exceção à regra, muito pelo contrário – se a situação já não era boa antes da crise, as coisas só tendem a piorar com a aparentemente inevitável retração do mercado. Por aqui, não deixará de ser irônico ver tupiniquins e tupinambás enfim irmanados na torcida para que nossa economia agüente o repuxo, para que as defecções não aumentem no ano que se avizinha.

Ideais democráticos

De minha parte, não só torço pela sobrevivência do Estadão como entendo que a própria imprensa marrom tem lá sua utilidade, não só pela contraposição ao nem sempre confiável establishment, como para tornar as discussões e os questionamentos mais abrangentes, razão do ibope a provocadores por excelência, como Reinaldo Azevedo e Diego Mainardi. A salvação da lavoura hoje em dia é que mesmo com a imprensa tradicional capengando, o espaço até se ampliou, graças à blogosfera, ainda que isso exija um esforço ainda maior para separar o joio do trigo.

O que confere a um veículo como o Estadão um valor estimável, pois ainda que não se concorde com sua linha editorial e com o que publica, ninguém pode ser contra a exaltação dos ideais democráticos, dos valores cívicos, da defesa da ordem e da liberdade, causas em que, quer queiram ou não seus detratores, o vetusto jornalão sempre esteve engajado.

Um brinde a isso e vida longa ao Estadão.

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Jornalista, Santos, SP

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