Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Vidas e datas

Por Alberto Dines em 16/11/2013 na edição 772

Empolgados com a telenovela sobre a proibição de biografias, esquecemos um enorme acervo com outros ingredientes e condimentos para animar o debate nacional. O direito de remexer na existência das celebridades, heróis e velhacos é uma questão palpitante, mas convém reconhecer que nesta mesma esfera palpitam demandas de maior transcendência.

Vidas não existem soltas no tempo, espetadas em episódios e coladas ao calendário compõem efemérides que – ao contrário do que sugere o senso comum – nada têm de efêmeras ou momentâneas. São fragmentos de muitas vidas e cujo inevitável encadeamento compõe a caprichosa artífice conhecida com o nome de História.

Esbarramos em efemérides em cada notícia ou página de jornal, mas o exercício de lembrá-las não chega a ser um esporte nacional. São complicadas, rebeldes, difíceis de explicar e, geralmente, mais demoradas do que a data designada para lembrá-las. Quanto mais vivemos mais efemérides se acumulam e, tal como no “Chão de Estrelas”, de Orestes Barbosa, nelas pisamos distraídos, desatentos ao seu significado e advertências.

Construção demorada

O feriado de 15 de novembro, destinado a lembrar os 124 anos da proclamação da República, deveria ao menos sugerir reflexões sobre nossa incrível sedução pelos uniformes militares: o avanço institucional foi na realidade um retrocesso, uma quartelada – a primeira da nossa história – e desembocou numa ditadura como soe acontecer.

O 11 de novembro da segunda-feira tem muito a ver com a linhagem castrense da nossa república. Ostenta, além disso, um desdobramento internacional: a apressada assinatura do armistício que encerrou a Primeira Guerra Mundial não foi uma Festa da Paz – dos escombros do poderoso império alemão nasceu uma república envolta em sonhos, porém sacudida por pesadelos já no seu primeiro dia de vida. Apenas 22 anos depois (junho de 1940), o ex-cabo Adolf Hitler humilhava os arrogantes marechais franceses obrigando-os a assinar uma capitulação incondicional no mesmo vagão onde em 1918 impuseram implacáveis condições. Ambígua como todas, essa efeméride pede mais do que uma data para ser digerida e avaliada.

Tal como o 11 de novembro de 1955, o golpe militar dado pelo então ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, para garantir a posse da dupla recém-eleita JK-Jango, acabou derrubando dois presidentes – um interino, Carlos Luz, e outro eleito, mas licenciado, Café Filho. Putsch clássico, contragolpe primorosamente planejado e executado, com amplo apoio da imprensa, da classe política e amplos setores da sociedade.

Sem vítimas: uma única salva de canhões foi disparada – dos fortes que circundam a baía de Guanabara contra o cruzador Tamandaré,onde se abrigavam o presidente derrubado Carlos Luz e o xará, deputado udenista Carlos Lacerda, contrários à posse de JK. Os últimos disparos ouvidos aos pés do Pão de Açúcar não impediram o 31 de março (de 1964), o 13 de dezembro (de 1968) e os gritos dos torturados, dos presos e das famílias dos desaparecidos durante os 21 anos de chumbo.

Efemérides são como monumentos: demoradas para construir, mais ainda para conservar e entender.

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