Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > REDE GLOBO

Violência em horário impróprio

Por Flávia Péret em 29/03/2011 na edição 635

Uma indignação profunda me motiva a escrever este texto. Nos últimos 15 dias assisti na TV (precisamente Rede Globo, Jornal Nacional e Jornal da Globo) a matérias sobre tentativas de assalto seguidas de assassinato que foram gravadas por circuitos de segurança interna e, posteriormente, exibidas. Cenas de execuções sumárias, imagens violentas, veiculadas em horário impróprio para crianças e adolescentes.

Na primeira matéria, um rapaz universitário, em São Paulo, é abordado por dois homens ao chegar em casa à noite. Depois de uma confusão que não entendi totalmente, os assaltantes vão embora, o rapaz volta para fechar o portão, um dos bandidos reaparece e atira na cabeça dele. Na imagem, vemos o corpo caindo, o sangue e, minutos ou segundos depois, os pais apavorados que vêm ao encontro do filho morto. Toda a cena foi filmada pela câmera particular da família e reproduzida (com autorização de quem?) pelas redes de TV.

Nas imagens de hoje (23/3), outro jovem é a vítima, agora de policiais militares (acho que de Bélem). O jovem é abordado, levado para um canto na rua e, de repente, um policial dispara em direção ao corpo do rapaz, ele balança e o tiro parece atingir a barriga. Nesse momento, decido que não vou continuar vendo as imagens e mudo de canal.

Imagens assustadoras

Legalmente, a mídia pode exibir essas imagens? Existe um código de ética que trata da questão? Por que a mídia exibe e reproduz essas imagens? Por que é preciso mostrar a morte? Por que precisamos conviver com essas imagens? Conviver, sim, porque enquanto faço minha aula de ginástica uma TV ligada mostra o assassinato do rapaz em São Paulo. Não tenho o direito de desligar a TV, como fiz hoje em casa. Mostrar a morte, além de desrespeito com os familiares, é uma banalização da violência. Acho que esse assunto merece uma discussão mais profunda, cuidadosa e ética.

Quais são os limites – limite não é censura – do jornalismo televisivo? Qual o futuro do telejornalismo num contexto cada vez mais fotografado, vigiado, filmado? A lógica do furo? Da ‘melhor’ imagem? Da informação ‘completa’? Do direito à informação? E quando os cinegrafistas são ‘substituídos’ por câmeras que funcionam 24 horas e gravam tudo? É preciso mostrar tudo? Não mostrar a morte é esconder que vivemos num país cada dia mais violento? Mostrar reiteradamente assassinatos tem alguma função, além de criar paranoia e medo na população? Precisamos ver assassinatos como esses para acreditar que eles existem?

Peço desculpa pelos erros e informações incompletas, escrevi no calor da hora, uma espécie de desabafo, espero que vocês de alguma forma possam reverberar essas questão. Por que o cinema (um certo tipo de cinema) discute tanto essas questões e o jornalismo não? As implicações éticas de uma imagem, as representações e ideologias que as imagens engendram e reproduzem, as construções parciais e frágeis de mundo que sustentam, o modo como jornalismo tem lidado com essas imagens me assusta profundamente.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/04/2011 Flávia Péret

    Eu citei a TV Globo porque foi lá que vi as matérias, mas sei que foram exibidas em outros canais. Estou bastante chocada, um dos comentários diz que ‘ a imagem em si’ não tem problema. O que seria uma imagem em si? O que vi foi um adolescente de 14 anos ser assassinado, a queima roupas, por vários policiais. ‘A imagem em si’ é um problema porque banaliza a morte, banaliza a violência, banaliza a violência policial e o abuso de poder. Acredito que toda banalização é uma forma de entorpecimento.

  2. Comentou em 31/03/2011 Emanuelle Najjar

    Francamente? A imagem em si não me causa problemas, mas sim a forma como o assunto é tratado no telejornal ou programa. Programas como Brasil Urgente e afins exploram ao máximo a desgraça alheia, mas outros ainda tratam o tema de forma mais delicada. Questão de bom senso.

  3. Comentou em 31/03/2011 dea C

    parece que os escrevem apenas assistem a tv globo. E as outras emissoras? O programa da sonia abrao, que ante era sobre subcelebridades agora se tornou policial, todas as tardes descreve o mundo cão, as mazelas do Brasil. O do datena entao nem se fala, e todos sao em horarios da tarde.
    Esse papo de controlador de conteúdo da tv é papo de quem quer a censura de volta. Gente rídicula. O único CONTROLE que deveria interessar ao telespectador é o CONTROLE REMOTO.
    Se as pessoas não tem capacidade de impedir um filho menor, nao é culpa da tv globo, Há tantas coisas a fazer, ler um livro, jogar chadrês, jogar conversa fora. Sem essa de CENSURA. Nós não estamos na Venezuel.a

  4. Comentou em 29/03/2011 antonio souza

    Não apenas a Globo, mas a grande maioria das emissoras comerciais. A Record, por exemplo. No caso do Jornal da Record, a maior parte do tempo mostra tragérias, violência, desgraça. E no final do programa sempre aparece uma ‘Boa notícia’. Que coisa mais hipócrita e ridícula.
    E nas reportagens que abordam assassinatos, pra quê colocar a foto da pessoa morta? Isso é muito constrangedor.
    Outra, dá nojo de ver jornalistas tentando filmar os familiares num velório e tentando entrevistar os familiares.
    O telejornalismo brasileiro é patético.

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