Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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FóRUM DE DEBATES > Diversidade

Com quantas mídias se faz uma democracia?

Por Érica Daiane Costa em 14/05/2019 na edição 1037

Sede da TV São Francisco na cidade de Juazeiro. (Foto:Divulgação)

Um assunto foi motivo de muitos comentários em determinados espaços profissionais, políticos e de difusão de informação em Juazeiro (BA). A TV São Francisco, afiliada da Rede Bahia/Grupo Globo, demitiu 15 pessoas, o que acarreta no desemprego de profissionais da comunicação e, principalmente, na perda de dois telejornais com notícias locais: o Jornal da Manhã e o BATV.

A empresa, que já mantinha suas equipes sobrecarregadas e com pouca estrutura para a produção de notícias, sobretudo fora da cidade, agora deixa a região sem uma programação local, podendo contar apenas com matérias pontuais nos telejornais da Rede Bahia.

O fato representa um retrocesso. No Brasil, a produção de conteúdo regional é escassa. Assistimos jornais, novelas, programas musicais baseados na cultura de poucas cidades, com forte predominância das regiões Sul e Sudeste. O modo de vida das pessoas que vivem nas cinco regiões do país, espalhadas em mais de cinco mil municípios, não é representado pelos grandes canais de televisão que operam com autorização do governo federal. Ou seja, a comunicação é um serviço público; na prática, porém, quem comanda é a iniciativa privada, os chamados “donos da mídia”.

A perda de telejornais como o BATV e o Jornal da Manhã aniquilam o espaço, que já era pouco, para veiculação de notícias sobre a realidade do povo, sobre os problemas coletivos, a ausência de alguns direitos. Isso só reafirma o que já sabemos: o grupo Globo não tem nenhum compromisso com a democracia brasileira.

Sabemos que a Rede Globo não é neutra; ela tem lado, apesar de forjar-se sobre um discurso de imparcialidade. Também sonega impostos e mantém uma diversidade de veículos sob seu comando (tv, rádio, portal, revista, jornal), violando a Lei das Comunicações, que proíbe essa prática, a chamada propriedade cruzada. Usa ainda a lógica das afiliadas para burlar outro item da legislação que proíbe uma única empresa ou grupo de ser dona de uma infinidade de canais. Como se não bastasse, o grupo mantém políticos de mandato dando a linha no veículo, a exemplo do prefeito de Salvador, ACM Neto, que é um dos donos da TV Bahia. Podemos dizer que ACM Neto é um coronel da mídia.

A televisão no Brasil chegou na década de 1950 e rapidamente se popularizou como um veículo de comunicação de massa, ou seja, transmite informação para um grande número de pessoas. No Vale do São Francisco, a cada década ela chegava mais longe, sendo hoje um aparelho presente na maioria das residências, pontos comerciais, estabelecimentos públicos etc. No campo ou na cidade, em todas as classes sociais, através do aparelho as pessoas se informam, se entretêm, se alienam, se tornam mais consumistas, formam opiniões etc.

A maior parte da população não sabe que comunicação é um direito humano. Esse direito consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos e no, Brasil, está no Capítulo V da Constituição Federal, proclamada em 1988. A negação desse direito afeta outros. Se o direito à expressão não for permitido, como denunciar, por exemplo, a violação dos direitos a água, alimentação, saúde, moradia, educação?

Pois bem, as mudanças sociais, políticas e econômicas da atualidade estão dando o tom também nas comunicações. Já é comum encontrar a TV ligada na sala, gerando audiência contabilizada pelas empresas, mas com seus/suas espectadores/as com a atenção voltada para a tela do celular, fascinados/as com o mundo todo que a internet lhes oferece e a TV muitas vezes oculta, silencia, distorce. O poder das redes de televisão ainda é gigante, com forte destaque para a mais citada aqui neste texto. Contudo, outras vozes já começam a serem ouvidas. E não podemos deixar esse bonde passar. Escutem bem, minha gente, não podemos!

É hora de fortalecer uma outra comunicação. Somos tantas mulheres e homens com inúmeras formas de nos comunicar. Devemos ocupar espaços midiáticos, fazendo-nos representar. É hora de mostrar nosso sotaque no YouTube ao invés de ver nossos/as conterrâneos/as mudarem os seus para ocupar a bancada do jornal. É hora de fazer uma transmissão ao vivo direto do interior do município sem esperar que a equipe de TV se desloque até lá ou cancele a pauta porque não surgiu algo mais perto e mais urgente. É hora de usar o celular como um editor de vídeo e denunciar o esgoto estourado na sua rua. É hora de fazer zuada. Vem, que a hora é essa!

Por fim, vale lembrar que aqui falamos de uma comunicação popular, do povo e para o povo. Não adianta nos alegrarmos com um presidente que declarou guerra à Rede Globo mas está colocando outra emissora como favorita. Isso é apenas uma troca de lugar, em nada favorece a democratização da comunicação.

Nossas mídias precisam ser diversas, cheias de cores, de cheiros, denunciando as injustiças e reconhecendo nossas potencialidades. Nossas mídias precisam ser muitas – inúmeras, na verdade -, em todas as plataformas, construindo a democracia a partir das falas do povo, que deve ter voz ativa antes que o silêncio da censura chegue e tire nossa vez.

***

Érica Daiane Costa é jornalista, professora, militante social e criou, recentemente, o canal “E aí minha gente?!”, com vídeos temáticos no YouTube e no Facebook.

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