Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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FóRUM DOS ESTUDANTES > BuzzFeed

A reconfiguração do jornalismo pela notícia “viral”

Por Mariana Yole em 02/12/2015 na edição 879

Você, jornalista ou não, já foi afetado pela web, certo? A palavra compartilhamento está muito famosa, mas outras palavras do cibermundo já passaram pela vida de todos nós. O jornalismo está sendo reconfigurado e uma coisa que o mudou muito foi a internet. Hoje, o mundo consome informação como nunca consumiu antes e isso faz com que os jornalistas precisem multiplicar suas habilidades para produzir notícias. Além disso, atualmente existem os conteúdos virais que, segundo Edgard Matsuki (2012), jornalista da Empresa Brasil de Comunicação, surgiram com o crescimento de usuários das redes sociais.

O termo “viral” é muito usado para explicar uma notícia que se espalha com facilidade pela internet e tem características de comportamento idênticas à de um vírus que espalha uma doença. No caso do conteúdo, a “mensagem” é divulgada por vários canais de comunicação, mas principalmente por redes sociais, sites menos formais e blogs.

Matsuki (idem) entende que as pessoas compartilham conteúdos quase de maneira inconsciente. É difícil imaginar como um conteúdo se torna viral, mas alguns têm mais facilidade para isso, como mensagens que envolvem humor, serviços, dicas, brindes e promoções.

Página de entrada do BuzzFeed / reprodução

Página de entrada do BuzzFeed / reprodução

Com o propósito de ser viral, surgiu em 2006 o BuzzFeed. Jonah Peretti criou o site como uma plataforma para conteúdos virais e hoje vem sendo motivo de uma das grandes discussões sobre o futuro do jornalismo na internet. Diante dessas questões poderíamos nos perguntar: será que um conteúdo viral pode mudar o jornalismo?

A homepage

Algumas teorias do jornalismo podem nos ajudar a responder a isso. Para a teoria do newsmaking, por exemplo, o jornalismo é produto de vários elementos culturais e organizacionais do trabalho da imprensa e da rotina industrial de produção. Felipe Pena comenta sobre essa teoria:

“Em outras palavras, com base em Tuchman quer dizer que o processo de produção da notícia é planejado como uma rotina industrial. Tem procedimentos próprios e limites organizacionais. Portanto, embora o jornalista seja participante ativo na construção da realidade, não há uma autonomia incondicional em sua prática profissional, mas sim a submissão a um planejamento produtivo. O que diminui a pertinência de alguns enfoques conspiratórios na teoria do jornalismo, como, por exemplo, o paradigma da ‘manipulação da notícia’. Assim, uma suposta intenção manipuladora por parte do jornalista seria superada pelas imposições da produção jornalística. Ou seja, as normas ocupacionais teriam maior importância do que as preferencias pessoais na seleção e filtragem das notícias” (PENA: 2005, 129 e 130).

O fato é que o BuzzFeed inova o newsmaking do jornalismo. O site não possui uma página de entrada tradicional, como outras plataformas jornalísticas. Em vez disso, suas páginas são apenas um “depósito” dos links das matérias com foco nas redes sociais para se tornar um viral. Para eles, pouco importa se o conteúdo produzido está ou não com destaque na homepage; o mais importante é que as pessoas compartilhem sem moderação. As listas criadas por jornalistas que trabalham no site são os conteúdos que mais se tornam virais.

Modelo de negócio

Outra teoria que ajuda a responder à mudança que o BuzzFeed pode trazer para o jornalismo é a teoria organizacional, na qual as empresas jornalísticas se apresentam atreladas ao lucro econômico que elas geram. Pena explica essa teoria:

“O jornalismo é um negócio. E, como tal, busca o lucro. Por isso, a organização está fundamentalmente voltada para o balanço contábil. As receitas devem superar as despesas. Do contrario, haverá falência da empresa e seus funcionários ficarão desempregados. Então, qual será o setor mais importante de uma empresa jornalística? Fácil: é o comercial. Esse setor é o responsável pela captação de anúncios para sustentar o jornal. Eles interferem diretamente na produção das notícias. Para começar, o espaço para a publicidade é reservado na página antes das notícias. Os jornalistas só preenchem o que ficou vazio. E se vier um anúncio de última hora, qualquer matéria pode cair, ou seja, deixar de ser publicada” (idem, 135-136).

O BuzzFeed cria um novo modelo de negócio. Não querendo ser reconhecido apenas como um site que produz um conteúdo viral, eles resolveram dividir o conteúdo editorial do comercial, como uma separação de Estado e Igreja. O modelo de negócio é baseado na publicidade nativa, onde a propaganda não prejudica a experiência do leitor no site. Nesse novo modelo, a publicidade anda junto com o jornalista na produção do conteúdo. Porém, os conteúdos que são patrocinados e os que são produzidos não apresentam diferenças claras.

Os textos apresentam conteúdos que fazem com que o leitor depare com os serviços de publicidade. Uma matéria patrocinada pela Microsoft, intitulada “O comercial da Microsoft a favor do casamento igualitário” [disponível em: http://www.buzzfeed.com/alexandreorrico/comercial-da-microsoft-a-favor-do-casamento-lgbt-e-de-2013#.kuDVNdRK6], recebeu mais de três mil compartilhamentos e isso mostra para a equipe do BuzzFeed que o engajamento do público com esse conteúdo é bem maior do que qualquer banner que publicidade poderia trazer.

As teorias citadas acima e o site BuzzFeed conseguem mostrar que um conteúdo viral pode mudar o jornalismo atual, pois estes conteúdos estão crescendo cada vez mais e se tornando importantes, os que mais geram lucro e são os que as pessoas de hoje em dia querem ler. Além disso, o jornalismo pós-industrial mostra que a internet por si própria paga o jornalismo nos espaços digitais e que o jornalista não está mais sozinho na produção de informação como em outros tempos.

Referências

MATSUKI, Edgard . “Saiba o que é viral na internet”. São Paulo Portal EBC. 2012. Disponível em: http://www.ebc.com.br/tecnologia/2012/11/o-que-e-viral. Acesso em: 04 de novembro de 2015

PENA, Felipe. Teorias do Jornalismo. São Paulo. Editora Contexto. 2005

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Mariana Yole é estudante de Jornalismo

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