Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Do fato à notícia

Por Luiza Capella em 04/12/2015 na edição 879

As notícias surgem a partir dos acontecimentos do dia-a-dia. Como forma de transmitir esses acontecimentos para as pessoas, os jornalistas usam técnicas que organizam os fatos para facilitar a compreensão do público. Essa organização para a construção da notícia começa na pauta. Nela define-se o que será transmitido, de que forma e para quem. São pensados o tema, a angulação e as informações preliminares que irão guiar a construção da notícia.

Se a pauta é que determina o começo da produção da notícia, por que e como um fato se torna notícia? Um fator determinante para essa questão é o interesse público. O jornalista escreve para ser lido; então, alguém tem que ter o interesse por tal notícia e ela tem que ter um sentido na sua vida cotidiana.

Uma teoria que ajuda a entender esse conceito é a teoria do agenda-setting. Essa teoria discute a hipótese de que a mídia determina os temas que o público falará ou discutirá. No entanto, o agendamento da mídia engloba também os acontecimentos da realidade, por isso, ao serem transformados em fatos jornalísticos, passam a fazer parte do cotidiano midiático.

“Desse modo, os relatos da mídia a respeito de assaltos e assassinatos servem não apenas para divulgá-los e levar a público, mas também para investigar por que aumenta a criminalidade, tratando, por exemplo, do desemprego” (KARAM, 2004: 49).

Dessa forma, a mídia não diz o que deve se pensar, mas sobre o que pensar. E, a partir dela, podem surgir novas interpretações, pautas e outras notícias. Felipe Pena (2005) reflete que a mídia, a partir dos acontecimentos da realidade, forma a cultura da sociedade e age sobre ela. Com base nos estudos de Noelle Neumann, ele aponta três características básicas para essa ação da mídia: a acumulação, a capacidade de criar e manter a relevância de um tema; a consonância, as semelhanças dos processos produtivos de informação; e a onipresença, que é o fato de a mídia estar em todos os lugares a consentimento do público.

“A hipótese da agenda setting não defende que a imprensa pretende persuadir. A influência da mídia nas conversas dos cidadãos advém da dinâmica organizacional das empresas de comunicação, com sua cultura própria e critérios de noticiabilidade” (idem: 144).

Uma rotina de produção jornalística

Outros fatores importantes para a questão são a atualidade e o ineditismo. Essas características estão presentes nos critérios de noticiabilidade jornalística. Ou seja, estão presentes no dia a dia do fazer jornalístico. Nesse sentido, uma teoria que pode ajudar a compreender a questão é a teoria do newsmaking.

Para ser uma notícia, a informação tem que ser atual. Não haverá interesse em uma notícia “velha”. Pena (idem) aponta três obrigações para a produção da notícia, de acordo com a socióloga Gaye Tuchman: reconhecer um fato até então desconhecido e torná-lo notável; relatar esses acontecimentos de forma clara, a fim de que todos compreendam; organizar, no tempo e no espaço, o vai ser retratado de forma coesa.

A teoria do newsmaking diz que as notícias são fruto de uma rotina de produção. Essa rotina vai definir a forma como se faz o jornalismo. No entanto, nem sempre é possível trabalhar dentro de um planejamento preciso.

“Diante da imprevisibilidade dos acontecimentos, as empresas jornalísticas precisam colocar ordem do tempo e no espaço. Para isso, estabelecem determinadas práticas unificadas na produção de notícias. É dessas práticas que se ocupa a teoria do newsmaking” (idem: 130).

A organização é essencial para que tudo corra bem e para que os imprevistos não atrapalhem o processo de produção jornalística. Afinal, os acontecimentos não param. Portanto, para que os acontecimentos se tornem notícia, a sistematização do trabalho na redação é primordial.

“Os valores notícia são usados para sistematizar o trabalho na redação. Eles são contextualizados no processo produtivo, adquirem significado e função, e tornam-se dados evidentes para os profissionais envolvidos no processo: o chamado senso comum das redações. Ou seja, qualquer jornalista sabe o que é notícia e o que não é de acordo com esse senso comum” (idem: 131).

Assim, é possível considerar que esse senso comum relatado por Pena (idem) seja guiado pela mídia, pelo interesse do público e pelos critérios de noticiabilidade, formados por uma rotina de produção jornalística.

Atentado terrorista

“A civilização contra o terror”, manchete da revista Veja do dia 25 de novembro, traz uma reportagem especial sobre os atentados. A revista utilizou-se do agendamento para rechear suas páginas de novas perspectivas do acontecimento. Para caracterizar seu conteúdo, utilizou informações trazidas da mídia francesa e também das coberturas dos telejornais brasileiros.

O fato de ter se tornado o assunto mais comentado a partir da fatídica sexta-feira, 13 de novembro, fez com que a imprensa corresse atrás das informações para passar para o público que clamava por isso. Assim como a Veja e tantas outras, a revista Época também se preocupou por esse agendamento da mídia, com a frase “Terror sem rosto” estampada na capa.

Em seu conteúdo, as revistas trazem novas informações, já que foram publicadas mais de uma semana após o ocorrido. Como dispõe a teoria do newsmaking, a produção jornalística é guiada pelo inédito e atual, conforme foi discutido acima.

Com essa perspectiva, Veja traz o comportamento de defesa da população parisiense como um de seus principais conteúdos, além de entrevistas com parentes e amigos de pessoas que presenciaram as cenas. Época adota como diferencial um panorama de atentados do Estado Islâmico, com infográficos e ilustrações. Essas diferenças destacam o processo de construção da notícia a partir do fato como uma das características do fazer jornalístico. E no começo de tudo isso está a pauta.

Referências

Época. São Paulo: Editora Globo, número 911. 23 de novembro de 2015.

KARAM, Francisco. Ética Jornalística e o Interesse Público. São Paulo: Summus Editorial, 2004.

MENDES, Marcília Luiza; COSTA, Maria. O Discurso Midiático e a Construção da Notícia. S.l. S.d. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/mendes-costa-o-discurso-midiatico-e-a-construcao-da-noticia.pdf Acesso em: 16 de novembro de 2015.

PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Editora Contexto, 2005.

Veja. São Paulo: Editora Abril, edição 2453, ano 48, número 47. 25 de novembro de 2015.

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Luiza Capella é estudante de Jornalismo

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