Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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FóRUM DOS ESTUDANTES >

Eduardo Cunha e a mídia como joguete

Por Fernanda Sá em 25/11/2015 na edição 878

Eduardo Cosentino da Cunha é um economista, radialista e político brasileiro. Evangélico, é membro da igreja neopentecostal Sara Nossa Terra. Atualmente é deputado federal pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) pelo Rio de Janeiro e, desde 1º de fevereiro de 2015, é presidente da Câmara dos Deputados. É assim que descreve o perfil de Eduardo Cunha a página da Wikipédia, na internet.

É possível acrescentar à sua biografia que atualmente o deputado é acusado de ser o inimigo número um dos direitos humanos. Foi alvo de manifestações em todo Brasil na última semana por causa do assustador projeto de sua própria autoria (PL 5069/13), que modifica a Lei de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual.

Segundo Cunha, o PL criminaliza a propaganda, o fornecimento e a indução ao aborto e a métodos abortivos e estabelece que a mulher vítima de estupro procure uma delegacia e passe por um exame de corpo de delito antes de ser atendida pelo sistema público de saúde. Essa é uma política clara contra a liberdade feminina de seus corpos e, principalmente, uma ordem que reforça a cultura do estupro no Brasil e responsabilização da vítima. Essa pauta foi uma das inúmeras discussões conservadoras debatidas pelo deputado, que é muito conhecido pelo noticiário como quem manda, articula, alerta, ameaça e tem poder sobre o que está sendo colocado diante dos olhos dos brasileiros.

Com um aparato de blindagem fiel, Cunha hoje lida e ganha apoio do público movido pela sua religião e por um radical grupo de extrema-direita. O atual presidente da Câmara faz oposição ferrenha ao governo petista da presidente Dilma e tem nas mãos protocolado um pedido de impeachment, motivado por grupos oposicionistas.

Em março deste ano, Cunha prestou um depoimento à CPI da Petrobrás no qual afirmou não ter nenhum tipo de conta bancária no exterior. Na ocasião, o presidente foi muito aplaudido e com uma avalanche de elogios, suas palavras ficaram como pedras, imutáveis e seguras.

O nosso vilão do Batman

No alto do seu estrelato, entre suas perversas arquiteturas de poder, no calor do vapor de suas votações, a maior investigação de corrupção do país o fez como refém em outubro. A Operação Lava Jato (for dummies, a maior investigação sobre corrupção no Brasil), em parceria com a Procuradoria Geral da República (PGR) e a Procuradoria Geral da Suíça, comprovou a existência de quatro contas do presidente, não declaradas e, segundo as denúncias, Cunha fez parte da lavagem de dinheiro da Petrobras.

Todos os sites de notícias, impressos e mídias televisivas anunciaram o envolvimento. Foi uma semana inteira de provas, documentos e assinaturas, comprovando as contas do deputado. Quatro delatores – o doleiro Alberto Youssef e os lobistas Júlio Camargo, Fernando Baiano e João Augusto Henriques – o acusam de receber propina do esquema. A blindagem VIP do deputado, por uma semana caiu por terra. O site G1 teve acesso com exclusividade aos documentos e disponibilizou cópias para o Brasil e o mundo ver que aquela figura de poder supremo tinha seu calcanhar de Aquiles. Estava mais que explícito que seu conservadorismo era seletivo. Seus planos de “dominar o mundo”, tinham que dar uma pausa porque foi descoberto que, além de conservadorismo, falso moralismo e crueldade, nele também habitava a sujeira. A sujeira do dinheiro público, enriquecendo seus cofres num paraíso fiscal.

Por uma semana intensa, o presidente da Câmara se esquivou, nada se votou no parlamento e assim ficou, sob o silêncio, e todos dançaram conforme a música de Eduardo Cunha. Quando resolveu falar, negou. Inventou. Caluniou. E até hoje, mesmo com a descoberta da senha da sua conta – sendo “Elza”, nome da sua própria mãe – Cunha nega.

Como disse Eliane Brum em seu artigo “Eduardo Cunha, nosso vilão do Batman”, ele parece ser perverso, aquele que denega: vê mas finge que não viu, é mas finge que não é.

A mídia como joguete

Passado todo resumo da ópera, é preciso dar luz aos detentores do holofote: a mídia.

Traçar um comportamento midiático perante tais acontecimentos é fundamental para entender e dar seguimento aos processos. Se está impregnado na própria linguagem política que daqui a pouco, adiante, virá uma pauta mais importante e mais noticiosa, que as pessoas esquecerão do que aconteceu por exemplo, com Cunha, é papel jornalístico repensar e tentar entender como isso acontece. É comum esse pensamento da dispersão dos jornais e automaticamente entende-se a dispersão do povo. E nesse caso não foi diferente.

Enquanto o Brasil passava por uma batalha no campo político e toda a agenda noticiosa se voltava para isso, aconteceu a tragédia das barragens da mineradora Samarco em Mariana (MG), seguida pelos atentados terroristas na capital francesa, Paris. Acontecimentos importantes e com grau máximo de prioridade na rotina jornalística e que ainda renderão desdobramentos. Em contrapartida, com tantos desastres ocupando a mídia, isso se tornou um prato cheio e um balão de oxigênio para defesa do então presidente da Câmara, ganhando tempo e menos holofotes.

O jornalismo “coelho atrás da cenoura” é sinônimo das regras dos critérios de noticiabilidade ou valor-notícia. Nos meios de comunicação, a forma mercadológica de funcionamento é operacionalizada, criou-se um roteiro e um formato para produzir notícias, um processo tão fabril e telegrafado que possibilita qualquer um entender como funciona e, principalmente, utilizar-se da sua maneira. A teoria do newsmaking, que coloca o jornalista como editor de todo o processo, aparentemente mostra um protagonismo do profissional e possibilita a objetivação de todo exercício, mas é necessário pensar que esse objetivo tem um preço caro, o de não interpretar subjetividades de avaliação, o de mirar num alvo e ali permanecer. O protagonismo objetivo é falseado por critérios que – por vezes – nada têm a ver nem com liberdade, muito menos com objetividade e talvez se distancie da chamada autonomia. De maneira mais simples, podemos dizer que todo esse aparato formado, permite um jornalismo ingênuo ou disperso, mas justificado.

Lugar de Cunha é na prisão

Nos anos 60, surgiu a teoria da agenda-setting no jornalismo, que colocava a hipótese de que a imprensa direcionaria o olhar da opinião pública, traçando o que deveria ser pautado. É como se a mídia pudesse escolher de acordo com o seu entendimento o que deve ou não ser dito, aquilo que eles julgavam importante para o público. A frase lançada em 1963 pelo pesquisador Bernard Cohen, clareia essa ideia; “Na maior parte do tempo, [a imprensa] pode não ter êxito em dizer aos leitores como pensar, mas é espantosamente exitosa em dizer aos leitores sobre o que pensar.” Parafraseando a teoria, é possível observar como o caso está confortável para nosso personagem, no qual participa desse jogo político e sabe usar muito instrumentalmente bem os critérios de noticiabilidade a seu favor. Ora chama toda a atenção e faz alardes e motins no seu jogo político oposicionista, que faz uso das suas artimanhas do poder para traçar suas próprias pautas, e ora, quando denunciado, acha o perfeito o silêncio sobre sua pessoa pública, lidando com o ostracismo.

Outro fator importante de ser analisado é o fato da mídia tradicional brasileira estar no status de oposição do atual governo, o que descaradamente facilita colocar panos frios nos casos de corrupção de Eduardo Cunha e consequentemente deixar seguir a política suja e conservadora que acompanha o caminho do deputado. Ele, que já afirmou abertamente que barraria e engavetaria qualquer projeto de democratização da mídia e que se coloca como aliado dos oligarcas hegemônicos, entre tantos outros planos ou vetos maléficos. Perverso ou cruel, uma coisa é fato, Eduardo Cunha trata o ingênuo jornalismo brasileiro com bastante malícia.

É preciso acompanhar quais são os próximos agendamentos da mídia e ver até onde isso tudo pode chegar. Independente do poder midiático, infelizmente vale lembrar que existem outras hierarquias de poder, como a Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal e Ministério Público para lembrar que o lugar de Eduardo Cunha, não é como presidente da Câmara, mas na prisão.

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Fernanda Sá é estudante de Jornalismo

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