Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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FUTEBOL > Coberturas jornalísticas

Repórteres radiofônicos “enjaulados”

Por Bruno Henrique de Moura em 06/06/2016 na edição 906

Abrem-se as cortinas do espetáculo; Mas o que que é iiiiiissoooo? O tempo passa; teeeeeempo e placaaaarr no maaaiooorrr do muuuuundoooo!!! Hoje este juiz vai comer carne de pescoço; cochilou, o cachimbo caiu. Bola para o mato porque o jogo é de campeonato; ripa na chulipa e pimba na gorduchinha; o visual é bom! Tem bala na agulha o Roberto Dinamite! IIIIIIIII QUUUEEEEE GOOOLLLLLLL!!!!! É fabuloso este futebol brasileiro. Quantas vitórias consegue pelos gramados do mundo.

O futebol brasileiro, como é fabuloso o nosso futebol. Desde a vitória da seleção de São Paulo por 6×4 sobre a seleção do Paraná, no Campo da Floresta, na capital paulistana, no distante dia de 19 de julho de 1931, que um companheiro fiel, amigo e sempre presente cunha e ajuda o futebol brasileiro a receber o adjetivo de fabuloso. Naquele fatídico dia, que não sei se fazia sol ou chuva, estava quente ou frio, se teve neblina ou céu aberto, que o mais fiel dos amigos do futebol se faz presente à beira do campo, nos vestiários, mostrando o pós e o pré da partida, comentando-a, analisando-a, elevando-a e dando-lhe status de evento mais importante do mundo. Uma final, um clássico, ou uma mera partida de 4ª rodada do campeonato rondonense da segunda divisão ganham outro sabor e outra importância pela lembrança que sua, quase secular, companheira promove nas manhãs, nas tardes e nas noites de sua existência.

Passaram-se alguns anos, 84 para ser mais exato. O andar do tempo faz com que as relações evoluem, modifiquem-se, atualizam-se e cresçam, até porque os entes desta relação, constantemente também se modificam. Outro companheiro apareceu, mais altivo, “elegante”, bem vestido e endinheirado. Quis dar as mãos ao antigo amigo e colocá-lo do seu lado. Consegui. A primeira amizade não se desfez, o novo amigo não se mostrou tão egoísta, manteve a outra relação existindo, seja por desejo próprio ou por não possuir força o suficiente para terminá-la. Mas vem enfraquecendo paulatinamente aquela relação antiga, inicial, primordial, que tanto contribuiu para nosso futebol ser tão, tão fabuloso.

Os mais atentos já devem ter percebido quem são os amigos a que me refiro. Desde que Nicolau Tuma, naquele distante 19 de julho de 1931 narrou uma partida de futebol pelas ondas da Rádio Educadora Paulista que o futebol e o rádio se amam. É quase um casamento, feito de amor, cumplicidade e muita devoção e valoração. O rádio levou as Copas do Mundo, as emoções das torcidas, o espírito do nosso esporte, a força da nossa seleção e trabalhou como ninguém a imaginação e a criação da ideia de País do Futebol. A crônica esportiva, os trepidantes, os grandes nomes que passavam horas a fio nas cabines, nos treinos, que entrevistavam jogador na banheira, no restaurante, que faziam as mesas redondas famosas e que criaram a forma de se fazer futebol na “amante” da relação entre rádio e futebol.

O protocolo da CBF para a imprensa

A televisão revolucionou a forma de se ver e fazer futebol. Ela possuía imagem. Contudo, a áurea da transmissão no rádio nunca foi superada pelas cores e replays de uma voz marcante e sedutora que lhe faz fechar os olhos e criar através dos neurônios aquele fantástico ambiente e a cena que move a imaginação da jogada, do passe, do escanteio e do momento de glória de quem joga futebol, de quem transmite futebol e de quem ouve futebol: o gol.

Mas a televisão trouxe algo que o rádio não consegue superar. Os milionários valores por direitos de transmissão e as cotas publicitárias galopantes. Eis o grande problema dessa relação, as finanças. O fabuloso mundo do futebol encantou-se pelos luxos e valores astronômicos que hoje são pagos para um atleta, para um diretor, para um técnico. O jogador do sub-15 recebe mais dinheiro por mês do que este humilde jornalista esportivo ganha num ano. O futebol encareceu. 200 milhões de direitos de transmissão por uma temporada, por 12 meses, para um clube.

Quem paga, leva para jantar, dá flores, champanhes, bombons, se sente no direito de pedir algumas regalias da sua companheira de mesa, que acaba, por desejo e necessidade, por perder as regalias do amante. É penoso, doloroso e difícil de aceitar, acaba por acatar.

No dia 20/05/2016 a CBF publicou no seu site oficial o protocolo de imprensa e acesso ao gramado das séries A e B do campeonato brasileiro de 2016. Entre as diversas regras colocadas, algumas dizem respeito diretamente ao trabalho dos antigos “maridos” do futebol, os jornalistas de rádio. As famosas entrevistas à beira do gramado no pré-jogo e no intervalo não poderão ser mais feitas pelos repórteres de rádio. Apenas a televisão detentora dos direitos terá tal direito. No único momento permitido para entrevistas de rádio, o final da partida, os repórteres, como mostra o artigo 49 combinado com o inciso II do artigo 47, devem aguardar na aconchegante zona mista com grades, expediente adotado em muitos estádios também durante o jogo, em que os repórteres ficam “enjaulados”. Agora ficarão enjaulados gritando pela benevolência do atleta para que ele vá se dirigir até os repórteres, repito, enjaulados, e lá converse com os mesmos.

O modelo inglês e o brasileiro

Não irei adentrar-me nos outros artigos pois este já me basta para a reflexão que faço. É claro que a CBF impôs esta regra como forma de limitar ainda mais o trabalho dos jornalistas esportivos de rádio. É uma forma de esconder os mesmos e limitar as já parcas chances que têm de conversar com um jogador ao vivo. Um dos motivos alegados era que os treinadores reclamavam do tempo perdido nas entrevistas de intervalo, consumindo em torno de cinco minutos do já rápido período entre tempos. Ora, oriente seus jogadores a não darem entrevistas, não proibir os que querem de falar com os jornalistas de rádio, já que a TV continua podendo realizar as mesmas.

Colocar jornalistas em grades, como ouvi em um congresso de cronistas desportivos no mês passado, seria uma maneira de impedir que eles cortassem ou pulassem formas mais “humanizadas” de barreira, como fitas. Fiquei pensando, viramos animais que precisam ser enjaulados para não descumprir uma determinação?

No ano passado escrevi no Observatório um artigo sobre comercialização de direitos de transmissão e o aumento dos valores pelos jogos, comparando o modelo inglês e o espanhol, que por sinal, assim como na Europa, não deixam os repórteres entrarem no gramado e que tem regras semelhantes na essência às que estamos adotando segundo recomendação/imposição da CBF. É a tentativa de colocar cá o modelo de lá. Mas são situações completamente diferentes. A história do futebol aqui é oposta à de lá. O papel e a forma de se fazer rádio aqui é oposta à de lá. Eles não têm José Silvério, Haroldo de Souza, José Carlos Araújo, Aroldo Costa, Mário Henrique. Não tiveram Fiori Gigliotti, Pedro Luiz, Waldir Amaral, Jorge Cury, Willy Gonser nem Osmar Santos. O futebol brasileiro depende do rádio e o rádio brasileiro depende do futebol. Tentar reduzir essa relação, a cada ano, com uma nova regulamentação e um protocolo mais fechado, mais redutor de possibilidades de trabalho, é uma forma de sangrar ainda mais o rádio esportivo, que sofre com redução de despesas, off tubes aos montes, patrocinadores que somem etc.

A CBF quer deixar cada dia mais o futebol escravo do dinheiro, e da TV. Cortando as relações e as tradições que se fizeram entre o rádio e o futebol, como já faz a dona Fifa, que faz de tudo para impedir as rádios. Mas, acima de tudo isso o rádio vive e viverá. Ao menos enquanto tivermos ouvintes que se lembrem das frases que postei no primeiro parágrafo deste texto/desabafo, e dos monstros, eles sim, que comandaram a criação da ideia do fabuloso futebol do Brasil, nos nossos corações. Espero e torço para que nossa relação, a do rádio e do futebol não chegue ao crepúsculo de jogo, mas como diria o gênio Gigliotti, continuem abrindo cortinas para mais espetáculos. Já diria o mesmo Fiori, e que cabe muito à CBF neste momento, que deve recebê-los e refleti-lo, para o bem do futebol: um beijo no seu coração.

***

Bruno Henrique de Moura é jornalista e estudante de Direito

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