Pequenos veículos são parte da realidade que retratam | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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GRANDE PEQUENA IMPRENSA > JORNALISMO COMUNITÁRIO

Pequenos veículos são parte da realidade que retratam

Por Rafael Souza em 21/10/2014 na edição 821

A principal diferenciação do jornal comunitário de outros veículos de comunicação impressos é o seu objeto de interesse jornalístico. Voltado a uma comunidade específica, atende à demanda de comunicação de seu grupo pertencente. Não se constrange ao conversar diretamente com seu grupo ou ao focar-se em seus limites geográficos ou ideológicos.

Diferentemente dos meios de comunicação tradicionais e de maior porte, não se considera isento da realidade que retrata. É pautado justamente pela realidade a que pertence. Suas escolhas editoriais são guiadas não pela simples necessidade de informar imparcialmente um fato, mas pela urgência de entender e explicar o mundo a sua volta os fatos que norteiam seus conterrâneos.

Esta é a característica mais importante do jornal comunitário: a proximidade com seu objeto de reportagem e com seu público. Supre as expectativas de uma comunidade estabelecida e reconhecida como tal. Além de voltar suas pautas à comunidade, é integrante da mesma. Por desenvolver papel de aglutinador de opiniões, o jornal comunitário passa a ser o recorte estético da comunidade onde está inserido, sendo agente mediador de suas discussões. Apresentando a cidade a ela mesma, direciona o pensamento dos integrantes do grupo social a uma consciência de unidade comunitária. O pertencimento de um jornal comunitário à sua comunidade é, segundo Marques de Melo, sua principal característica. “Uma imprensa só pode ser considerada comunitária, quando se estrutura e funciona como meio de comunicação autêntico de uma comunidade. Isso significa dizer: produzido pela e para a comunidade”.

O simples foco geográfico ou segmentação ideológica não define um jornal comunitário. Um jornal comunitário só pode ser considerado como tal se reconhecido pela sua comunidade. Isso não apenas define o veículo, como define também sua postura e sua pauta. Essa definição é imprescindível para o entendimento claro do papel de um jornal comunitário.

Referência

Por reportar, com foco qualitativo, a sua comunidade, o jornal comunitário é referência comunicacional de seu público. É mediador das opiniões e vetor dos acontecimentos daquele grupo social. Por propor-se a ser este instrumento, passa também a ser importante agente na formação da identidade do mesmo grupo social. Como controla parte do fluxo sociocultural, acaba por exercer importante papel político na formação da opinião coletiva. Por pertencer ao seu objeto de retrato, a imparcialidade erroneamente atribuída ao jornalismo torna-se mais distante. A tendência de um veículo de comunicação extremamente ligado ao assunto que reporta é a de intervir para ressaltar os interesses que representa, ainda que exponha os outros aspectos da notícia. Como define Paulo Freire, “toda neutralidade proclamada é sempre uma escolha escondida, à medida que os temas, sendo históricos, envolvem orientações valorativas dos homens na sua experiência existencial”. Um jornal comunitário consolidado não é apenas responsável pela indexação do pensamento coletivo, mas também por dar forma final a este. A centralidade social do veículo de comunicação comunitário é a mesma que garante o protagonismo do emissor na comunicação.

Ao assumir a posição de portador da concepção ideológica de uma comunidade, o jornal comunitário assume a responsabilidade da criação de uma hegemonia de pensamento, mesmo que efêmera e mutável, como consequência de sua atividade principal. É justamente esta proximidade com seus personagens que faz do jornal comunitário propriedade coletiva.

Mesmo sendo veículo privado e controlado por seus criadores, o jornal comunitário tem tamanho compromisso com seu público que passa a ser instrumento deste, distanciando-o do controle de grandes grupos e interesses políticos e econômicos, quando estes estão desalinhados com o pensamento coletivo. Torna-se difícil o controle externo de um jornal comunitário para atender a interesses particulares, já que o público que o legitima é também o povo que o pauta e fiscaliza. Diferentemente dos grandes veículos de comunicação de massa, a mesma proximidade com o público que define a comunicação comunitária é a que molda seu conteúdo e discurso.

Enquanto os grandes veículos têm a comunicação em si como fim, ou seja, tem como principal atividade a transmissão de informações ao seu público, os veículos comunitários têm neste processo apenas um meio. O ato de transmitir a informação é utilizado também como ato de transformação social. Para Mauro Wolf, autor do livro Teorias da Comunicação de Massa, “os meios de comunicação comunitários têm assim o potencial de ser, ao mesmo tempo, parte de um processo de organização popular e canais carregados de conteúdos informacionais e culturais, além de possibilitarem a prática da participação direta nos mecanismos de planejamento, produção e gestão. Contribuem, portanto, duplamente para a construção da cidadania”.

Neste processo específico de comunicação, a troca de informação não se resume à emissão e à recepção. Aqui, o meio congrega um fórum cíclico e perene. Como a periodicidade do veículo, os assuntos abordados estabelecem um diálogo entre os integrantes da comunidade, sendo o jornal comunitário o meio desta discussão, ainda que não se resuma a um vetor passivo.

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Rafael Souza é jornalista brasiliense e escreve no Jornal do Guará e na Folha de Águas Claras, veículos comunitários do Distrito Federal. 

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