Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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GRANDE PEQUENA IMPRENSA > VOZES DA FILADÉLFIA

Por que insistimos que o jornalismo local tem espaço para crescer?

Por Simon Owens em 21/10/2014 na edição 821
Reproduzido do blog do autor, 29/9/2014, tradução de Celestino Vivian (acréscimos e explicações em itálico); intertítulo do OI

A revista “Philadelphia” publicou recentemente um longo perfil de Jim Brady e de sua nova startup (empresa ponto.com em desenvolvimento) de jornalismo local. (A nova criação – razão de sua mudança do Distrito de Colúmbia, onde fica a capital dos EUA, Washington, para Filadélfia – é um site chamado “Billy Penn”, apresentado em meados de setembro e que ele pretende transformar em “centro nervoso de mídia”. Está colocando US$ 500 mil no negócio. Ele aposta que, desta vez, vai fazer dinheiro e atrair investidores). Ex-editor executivo do website do “The Washington Post”, Brady ficou conhecido e ganhou celebridade quando, ao lado do editor Erik Wemple, comandou o TBD, um website do Distrito de Colúmbia aclamado como uma das mais ambiciosas experiências de jornalismo local.

No TBD.com, Bradycontratou uma equipe de nativos digitais, em estreita colaboração com blogueiros independentes já estabelecidos na região metropolitana de Washington. (o site, lançado em agosto de 2010, adotou uma abordagem não tradicional para notícias locais. Começou com cerca de 50 funcionários, incluindo em torno de 20 repórteres, e cresceu rapidamente. Chegou a ter 1,5 milhão de visitantes únicos em janeiro de 2011). Masa empresa Allbritton Communications, que abraçara o projeto e que já controlava o site Politico(além de outras propriedades de mídia em Washington, como o WJLA-TV), tirou o pé do acelerador alguns meses depois, muito antes que Brady tivesse qualquer chance de provar o seu modelo (diante da baixa rentabilidade, oTBD foi fechado em agosto de 2012). Como ex-funcionário do site, Steve Buttry disse à revista “Philadelphia” que “o TBD não falhou. Se eles tivessem executado a estratégia, e não deixado de operar, a história seria outra. Essa foi a falha. Não foi dada a Bradly uma chance de sucesso”.

Ao avaliar as perspectivasde Brady, Simon Van Zuylen-Wood, colaborador da revista “Philadelphia”, compartilha a posição da muitas pessoas que adotaram o pressuposto inquestionável de que uma agência de notícias local só pode ser considerada bem-sucedida se conseguir crescer. Ou seja, ele ignora as centenas de exemplos de nicho, blogueiros locais que descobriram maneiras de sustentar-se financeiramente. A análise de Simon se concentra apenas em pessoas jurídicas, financiadas por capital de risco ou empreendedor, que tentam imitar instituições de grande porte.

Até agora, o site Axis Philly foi a única iniciativa online que conseguiu responder aos anseios dos moradores de Filadélfia, com notícias de grande utilidade. Mas a operação também fracassou. Sem fins lucrativos, o site foi criado em 2012 pelo Centro para Jornalismo de Interesse Público, da Universidade Temple, com uma doação de US$ 2,4 milhões da Fundação William Penn. O Axis foi comandado por um CEO chamado Neil Budde, que, apesar de ganhar US$ 225.000 por ano, pouco conseguiu, de acordo com as contas consolidadas. (O cargo foi oferecido a Jim Brady, mas ele o recusou.) “Neil tinha talento para os gastos, e ele realmente gastou”, diz Tom Ferrick, ex-colunista do “The Philadelphia Inquirer” e editor do “Philadelphia Metropolis”, que dirigiu o Axis depois de Budde. “Ele atingiu o mais alto nível em quase tudo. Eu, literalmente, sentia meu meu queixo cair ao ouvir de diferentes pessoas afirmações do tipo: ‘Devemos a essa pessoa esta quantidade de dinheiro ganho’”. Quando perguntado sobre emque exatamente seu antecessor contribuiu, Ferrick respondeu: “Ninguém realmente entendeu isso”. Budde, por sua vez, disse “aceitar algumas reações como críticas justas”, mas enfatizou que foi levado a acreditar que o Axis deveria ter recebido mais dinheiro como subsídio.

Desafiando gigantes

O problema commuitas dessas fracassadas startups de jornalismo é que elas replicaram estruturas herdadas de meios de comunicação tradicionais. Ao fazer isso, ficaram premidas por custos exorbitantes, umlegado ao qual as organizações de notícias devem resistir. Muitas delas alugam escritórios e contratam funcionários em tempo integral para a redação e venda de publicidade. Mas, por serem de propriedade de uma empresa ou financiadas por capital de risco de investidores, devem gerar receita suficiente não somente para pagar a equipe, mas também para ter um lucro saudável, a fim dejustificar o investimento. A rede Patch (de sites locais) da AOL, por exemplo, foi um empreendimento nobre, mas que não conseguiu manter as margens de lucro esperadas pelos acionistas da AOL.

Muitas dashistórias de sucesso de jornalismo local são frequentemente ignoradas por repórteres que gostam de descrevê-las como um fracasso. São em geral operações tocadas por uma ou duas pessoas, muitas vezes trabalhando fora de seus apartamentos, usando o padrão WordPress (aplicativo de sistema de gerenciamento de conteúdo para web)como CMSe pagando oito dólares por mês pela hospedagem do site.

Se você busca um perfil de jornalismo local bem-sucedido, pode entrevistar o blogueiro que está por trás do Prince of Petworth ou embarcar na história da equipe demarido e mulher que lançou o Homicide Watch, no Distrito de Colúmbia. Ou, ainda, pode conferiros milhares de blogs de alimentação baseados em cidades e que se tornaram poderosos mecanismos de recomendação para quem busca um determinado restaurante ou comida de rua (food trucks).Na maioria dos casos, você não vai encontrar um negócio de milhões de dólares, com margens de lucro de 10%, mas você vai ter uma visão sobre o futuro do jornalismo local como um negócio sustentável. Pense neles como pequenas lojas familiares, mas que estão se levantando para desafiar os gigantes corporativos que até agora têm dominado o panorama da mídia.

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