Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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GRANDE PEQUENA IMPRENSA >

Cinco previsões sobre o futuro dos jornais

Por Eduardo Tessler em 28/10/2014 na edição 822

Nada de apocalipse, nada de assustar o mercado e os leitores. Os jornais em papel têm vida longa, desde que entendam que os tempos mudaram e que não se deve mais pensar como no século passado

Apesar da resistência dos três maiores jornais brasileiros – Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo – seguem cinco previsões com enormes chances de se tornarem realidade até, digamos, 2020.

1. Formato compacto

Quem acha que é mais agradável ler um standard do que um tabloide que compre ingresso para o Museu do Ipiranga e não saia de lá tão cedo. Experimente ler em um banco de praça, em dia de ventania. Esqueça.

A mania dos jornais em formato standard (cerca de 56cm de altura e 30,5cm de largura) nasce na Inglaterra, há 200 anos. O governo britânico cobrava impostos pela quantidade de páginas, mas não pelo tamanho. Uma folha de um metro pagava o mesmo que 10cm. Logo os donos de jornais foram aumentando o tamanho das páginas, até que se padronizou o standard, depois eternizado pela largura dos rolos de bobinas das rotativas.

Hoje não há mais sentido. As mesas de bar são mais curtas, os assentos nos aviões estão grudados, nos transportes públicos é impossível folhear um standard. Os compactos ganharam espaço. Em quase todos os mercados onde eles apareceram o jogo virou. Resistir aos compactos, hoje, é coisa de quem não entende a audiência.

Só um alerta: o comercial precisa acabar com a praga de vender terreno (a estratégia de centímetro x coluna). O que se vende hoje é página ou módulo. Ou quem sabe o McDonald’s paga mais para seu vídeo de 30 segundos estar em uma TV de 52 polegadas do que em uma de 14? É bastante lógico, só no Brasil a resistência é enorme. A desculpa é sempre a mesma: o mercado não quer (que desculpa esfarrapada).

2. Menos páginas

Quem tem tempo de ler enormes textos que poderiam estar resumidos em um parágrafo? Ou, pior ainda, em um gráfico? A mania de escrever muito e não dizer nada é fruto de redações mal organizadas, que pensam em páginas (e como recheá-las) e não na informação. Jornal vende conteúdo de qualidade. Foi-se o tempo em que se comparava o número de páginas dos concorrentes nas bancas para decidir a compra.

É evidente que pesquisa nenhuma irá indicar essa tendência. Sempre que se perguntar a um leitor “você quer mais isso ou menos aquilo” a resposta será automática. Mas o dia a dia é que faz o hábito, ainda que conscientemente ninguém se dê conta. Jornais devem ter o tamanho da necessidade informativa, dependendo exclusivamente do tempo disponível do leitor. Nem mais, nem menos.

3. Novas seções

Por que os jornalões ainda seguem a clássica divisão, imortalizada nos anos 70, de Política/ Economia/ Cidades/ Região/ País/ Internacional/ Esportes/ Cultura/ Espetáculos/ Justiça/ Ciência/ Educação/ Tecnologia/ etc.?

Por pura preguiça de redefinir o esquema. O leitor não pensa mais assim. Mas os jornais seguem em enormes divisões internas, permitindo a criação de guetos dentro das redações. É preciso dinamitar esse modelo antes que ele mate o jornal.

4. Planejamento e fechamento escalonado

A máxima de que é preciso fechar o jornal tarde para publicar as notícias mais “frescas” é balela, puro vício de quem tem medo de correr riscos, de bancar uma ideia. Um bom jornal hoje é aquele que é planejado, pensado, decidido cedo – e que por isso mesmo influencia decisivamente na qualidade de sua presença digital. Páginas devem ser fechadas aos poucos, desde cedo. Editores editam, fechadores fecham. Editores são estratégicos, decisivos. Fechadores são mecânicos, cumpridores.

Notícias devem ser transmitidas pelas mídias digitais. Jornais em papel tratam de suas consequências.

5. Mais caros e mais bonitos

Se um livro infantil é bem acabado, com ilustrações de primeira, como querer que um jornal entre na vida das novas gerações com impressões borradas, fotos que não dizem nada e design de péssima qualidade? Jornais estão virando produtos quase exclusivos, não para todos. De nichos. Devem custar mais caro e apresentar um desenho de primeira.

A leitura precisa ser agradável. E a sexta previsão, que já está ficando velha: é fundamental tratar da vida local. Olho nas esquinas e muito respeito com o leitor.

Vamos deixar de perder tempo e mudar antes de 2020?

******

Eduardo Tessler é jornalista e consultor de empresas de comunicação

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