Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

GRANDE PEQUENA IMPRENSA > REDES SOCIAIS

Facebook muda a forma como os seus usuários consomem jornalismo

Por Ravi Somaiya em 04/11/2014 na edição 823

Reproduzido do New York Times, 26/10/2014, tradução de Celestino Vivian, intertítulos do OI

Muitas das pessoas que estão lendo este artigo estão fazendo isso porque Greg Marra, 26, um engenheiro do Facebook, calculou primeiro que este éo tipo informação de que se pode desfrutar.

A equipe de Marra projetou o código que impulsiona o Feed de Notícias do Facebook, ou seja, o fluxo de atualizações, fotos, vídeos e histórias que os usuários vêem (as histórias que aparecem no Feed de Notícias são influenciadas pelas conexões e atividades do usuário no Face). Por isso, oengenheiro tambémestá se tornando rapidamente uma das pessoas mais influentes do setor de notícias.

O Facebook atinge hoje um quinto da população mundial – cerca de 1,3 bilhão de pessoas se logando pelo menos uma vez por mês nessa rede social. Controla 20% do tráfego para sites de notícias, de acordo com dados da empresa SimpleReach. Em dispositivos móveis, onde mais cresce como fonte de leitores, o percentual é ainda maior, diz a SimpleReach, e continua a aumentar.

A empresa está para o negócio das notícias, e cada vez mais, o que a Amazon é para o mercado de livros, ou seja, um gigante que fornece acesso a centenas de milhões de consumidores e exerce um poder enorme. Cerca de 30% dos adultos nos Estados Unidos buscam suas notícias no Facebook, de acordo com um estudo do Centro de Pesquisa Pew. A sorte de um site de notícias, em suma, pode avançar ou despencar dependendo de como é sua performance no Feed de Notícias do Facebook.

Apesar de outros serviços, como Twitter e Google News, também poderem exercer grande influência, o Facebook está na vanguarda de uma mudança fundamental na forma como as pessoas consomem jornalismo. A maioria dos leitores já não chega ao noticiário por meio das edições impressas de jornais e revistas ou por suas home pages on-line, mas por meio de mídias sociais e ferramentas de busca alimentadas por um algoritmo, uma fórmula matemática que prevê o que os usuários podem querer ler.

Desagregação

É um cenário fragmentado, no qual os textos são filtrados por código e entregues sob demanda. Para as organizações noticiosas, a mudança representa “a grande desagregação” do jornalismo, disse Cory Haik, editora sênior de notícias digitais no “Washington Post”. Assim como a indústria da música mudou em grande parte com a venda de álbuns de músicas compradas on-line, instantaneamente, as editoras estão cada vez mais atingindo os leitores através de peças individuais em vez de edições completas de jornais ou revistas. A home page dessas publicações em breve será importante mais como uma propaganda da marca da editora do que como um destino para os leitores, disse Edward Kim, co-fundador da SimpleReach.

A mudança levanta questões sobre a capacidade dos computadores para a curadoria de notícias, um papel tradicionalmente desempenhado pelos editores. Essa transformaçãotambém tem implicações mais amplas namaneira como as pessoas consomem informação e como elas vêem o mundo.

Em entrevista concedida na ampla sede do Facebook, em Menlo Park, na Califórnia, onde um carrinho de golfe gigante e automáticot ransporta os trabalhadores entre os diversos prédios, Greg Marra disse não pensar muito sobre o impacto de sua criação no jornalismo. “Nós tentamos nos ver explicitamente como não editores”, afirmou. “Não queremos fazer juízo editorial sobre o conteúdo que está em seu feed. Você fez seus amigos, você se conectou às páginas que desejava e é você quem define as coisas de que gosta.” Em relação ao trabalho do Facebook sobre o Feed de Notícias de seus usuários, Marra foi taxativo. “Estamos dizendo que entre todas as postagens às quais você se conectou, este é o material que você estaria mais interessado em ler.”

Em geral uma vez por semana, ele e sua equipe de cerca de 16 pessoas ajustam o complexo código de computador que decide o que mostrar a um usuário quando ele faz seu login no Facebook. O código é baseado em “milhares e milhares” de métricas, disse Marra, incluindo o dispositivo com o qual o usuário estiver logado, quantos comentários ou histórias de que gosta recebeu e quanto tempo os leitores gastam em um determinado artigo.

O objetivo é identificar o conteúdo de que os usuários mais gostam. Os resultados variam ao redor do mundo. Na Índia, segundo ele, as pessoas tendem a compartilhar o que a empresa chama de os ABCDs: astrologia, Bollywood (nome dado à indústria de cinema de língua hindi, a maior indústria de cinema indiana), críquete e divindade.

Se o algoritmo do Facebook “sorrir” ao conferir o conteúdo ou postagem de determinada editora, as recompensas em termos de tráfego podem ser enormes. Mas se Marra e sua equipe decidirem que os usuários não gostam de certas coisas, como manchetes provocantes, sobre as quais os leitores ficam clicandopara obter todas as informações, isso pode significar a ruína. Quando o Facebook fez mudanças em seu algoritmo, em dezembro de 2013, para enfatizar o conteúdo de maior qualidade, vários dos assim chamados sites virais, que haviam prosperado no Face, incluindo Upworthy, Distractify e Elite Daily,enfrentaram grandes declínios em seu tráfego.

Compromisso

Executivos do Facebook consideram o relacionamento da empresa com editoras como mutuamente benéfico: quando os editores promovem o seu conteúdo no Facebook, os usuários têm material mais atraente para ler. E os editores obtêm maior tráfego para seus sites. Numerosas publicações, incluindo “The New York Times”, reuniram-se com funcionários do Facebook para discutir como melhorar o seu tráfego de referência. O aumento do tráfego pode potencialmente significar que o editor tem espaço para aumentar suas taxas de publicidade ou para converter alguns desses novos leitores em assinantes.

Empresas de mídia social como Facebook, Twitter e LinkedIn querem que seus usuários passem mais tempo em seus serviços ou fazendo maior uso deles – um conceito conhecido como compromisso, disse Sean Munson, professor assistente na Universidade de Washington e que estuda a intersecção de tecnologia e comportamento.

Funcionários do Facebook disseram que quanto mais tempo os usuários gastarem no seu site, maior será a probabilidade de troca de pontos de vista e compartilhamento de ideias online. Outros temem que os usuários criem suas próprias ‘câmaras de eco’ e filtrem a cobertura com a qual não concordarem. “É isso”, disse Munson, “é quando você começa teorias de conspiração”.

Ben Smith, editor-chefe do BuzzFeed, um site de notícias e entretenimento, disse que sua regra para a escrita e comunicação nesta era tão fragmentada é simples: “nada de enchimento”. Ou seja, as organizações de notícias que ainda publicam uma edição impressa tem espaços determinados para preencher com textos – seja no papel, seja na home page da versão on-line. Isso leva à publicação de histórias que não são necessariamente as mais interessantes ou oportunas. Estão ali apenas para preencher o espaço. Foi em parte para desencorajar tais “enchimentos” que o BuzzFeed não se concentrou em sua home page quando começou, disse Smith. 

Novo jornalismo

Edward Kim, da SimpleReach, disse que seu conselho para as empresas de mídia já estabelecidas é que “é perigoso começar correndo atrás das mídias sociais. Você vai acabar como todo mundo e vai perder o seu diferencial”. A pergunta à qual as publicações mais antigas, que não são “nativas digitais”, devem responder – como fez o BuzzFeed – é: “ Você está criando conteúdo na forma como este conteúdo é consumido (por sua audiência) neste ambiente?”

Cory Haik, editora digital do “Washington Post”, está liderando uma equipe, formada neste ano, que tem como objetivo oferecer diferentes versões do jornalismo do “Post” para diferentes pessoas, com base em informações sobre como elas chegaram a determinado artigo, sobre o dispositivo utilizado para a leitura e até mesmo, no caso de ser um telefone, de que lado elas o estão segurando. “Nós estamos perguntando se há um jeito diferente de contar histórias, não se trata apenas de uma apresentação ideal”, disse Cory. Por exemplo, acrescentou ela, uma pessoa que está lendo o “Post” em um telefone celular durante o dia provavelmente vai querer um tipo de experiência diferente daquela experimentada pelas pessoas que, à noite, em sua casa, estão lendo através de uma conexão Wi-Fi.

O “Post”está colocando tempo e energia em tais esforços, afirmou Cory. Isso porque,“em última análise, se trata de manter o nosso negócio e fazer crescer nossa audiência”. Mais de a metade dos leitores móveis do jornal, segundo ela, envolve os chamados “millennials” (geração Y), que consomem notícias digitalmente e em grande parte através de sites de mídia social, como o Facebook.

Algumas publicações, no entanto, têm encontrado seu nicho fazendo o caminho inverso. É o caso do The Browser, editado porRobert Cottrell, um ex-jornalista do “Financial Times” e “The Economist”. Cottrell recebe cerca de mil artigos por dia e publica os cinco ou seis que ele acha interessantes para cerca de 7 mil assinantes, que pagam US$ 20 por ano. Uma seleção recente incluiu a vida de um pedreiro americano do início do século 20 e um estudo sobre grandes filósofos orientais. “A idéia geral é oferecer algumas peças a cada dia, que achamos serem agradáveis e de valor duradouro”, disse Cottrell. “Estamos, certamente, na outra extremidade do processo a partir dos algoritmos.”

Para Cottrell, a inteligência artificial pode, eventualmente, ser capaz de encontrar um pedaço de texto, com algum sentido, e querer compartilhá-lo. Mas, por enquanto, os computadores dependem de informações coletadas on-line, “e isso leva aum conjunto de dados muito, muito pobre em comparação com o que pode fazer um ser humano”. Marra, o engenheiro do Facebook, concorda que o ideal seria um editor humano paracada indivíduo. “Mas não é realista fazer isso em escala para cada pessoa no planeta. Por isso, acho que sempre vão existir sistemas híbridos como o Feed de Notícias, que estão ajudando você a encontrar as coisas de que gosta.” É simplesmente “um jornal personalizado”, concluiu.

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Ravi Somaiya, do New York Times

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