Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

GRANDE PEQUENA IMPRENSA > Mapas ou bússolas

Como explorar o futuro do jornalismo local

Por Josh Stearns e Molly de Aguiar em 25/09/2015 na edição 869
Reproduzido de How to Navigate theFuture of News, tradução de Jô Amado

Nosso trabalho em jornalismo e sustentabilidade, na Fundação Geraldine R. Dodge, baseia-se na ideia de que não existe um modelo único para as notícias locais. Acreditamos que criar um noticiário local mais sustentável irá exigir que re-imaginemos o jornalismo como um serviço às comunidades. Para fazê-lo, os jornalistas têm que ouvir e reagir às forças e desafios dos ambientes onde trabalham quando definem sua cobertura jornalística e desenvolvem seus modelos de negócios.

Nada disso significa que não se possam tirar lições importantes das experiências de editores de publicações locais pelo país afora. Mas há uma diferença entre tentar disseminar ideias e tentar replicar modelos. Se quisermos construir um jornalismo local mais forte a partir de zero, não podemos impor modelos – mesmo aqueles que deram certo em outros lugares – de cima para baixo.

Ao invés disso, estamos sempre à procura de um “conhecimento replicável” – ideias que provaram dar certo, ou ideias promissoras que podem ser adaptadas ao contexto local. Entretanto, não se trata de simplesmente entregar a alguém uma caixa de ferramentas e ir embora. A adaptação de lições inovadoras de outros setores e de outras comunidades leva tempo e disposição para experimentar e revisar a experiência.

Bússolas, e não mapas

Foi assim que tentamos ser específicos, dando aos jornalistas uma bússola, e não um mapa. A metáfora da bússola/mapa é de Joi Ito, diretor do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology, que escreveu: “A ideia é de que num mundo de complexidade, velocidade e diversidade maciças, os custos de desenhar um mapa e planejar os detalhes muitas vezes sai mais caro do que simplesmente fazê-lo – e os mapas estão frequentemente errados. Além do mais, os mapas são aparentemente fáceis – e Ito diria que olhar em frente nem sempre é a direção para onde devemos ir.

Quando começamos este trabalho, esperávamos fazer mapas – caixas de ferramentas das melhores práticas e modelos para sustentabilidade de uma redação – mas logo compreendemos que o que deveríamos estar fazendo era das às pessoas uma bússola. Porém, aprender a usar uma bússola leva tempo. Ao falar sobre uma viagem a Detroit, Ito escreve: “Antes de inovarmos qualquer coisa, precisávamos ouvir e conquistar confiança. Compreendemos imediatamente que, para fazê-lo, teríamos que pensar no longo prazo e de uma maneira sustentável, além de trabalhar de maneira bem próxima com as pessoas que ali estavam.”

Outro benefício da metáfora da bússola/mapa é o de que as bússolas são um lembrete de que devemos checar nossas suposições, ou fazer nosso trabalho permanente a partir de uma “verdade básica”. O escritor Terry Tempest Williams descreve essa verdade básica como “o uso da topografia para confirmar achados de imagens aéreas, ou para calibrar observações aéreas quantitativas; as técnicas de validação e verificação usadas no terreno para apoiar mapas; caminhar pelo solo para ver se aquilo que foi dito é verdade; descobertas ao nível do chão”. Para os que trabalham com jornalismo, a verdade básica que buscamos não é o contorno do terreno, e sim, o contorno das comunidades a que procuramos servir.

Navegando juntos

Este trabalho exige treino, tempo e, muitas vezes, uma guinada cultural na direção da exploração e aventura. Na maioria das redações, a realidade significa que o suprimento dessas coisas é exíguo.

Tentamos enfrentar alguns desses desafios dando às redações locais bolsas experimentais e acesso a cursos de treinamento em andamento para ajudá-los a achar seu caminho. Também demos nosso apoio ao NJ News Commons at the Center for Collaborative Media, da Universidade Estadual de Montclair, para ajudá-lo a criar novas redes e colaborações vinculadas ao treinamento e às inovações. E financiamos uma pesquisa em profundidade das necessidades de informação da comunidade e do retorno dos usuários em relação aos sites locais. Por fim, também começamos a pesquisar de que maneira poderíamos introduzir partículas criativas e inspiração no ecossistema de forma a comemorar o acontecimento de um bom trabalho no nível local e oferecer às pessoas uma visão de para onde podem ir a partir daqui.

Não estamos financiando campi universitários para ajudar a apoiar o jornalismo local, pois também estamos aprendendo com eles. Iniciativas como o Journalism+Design program, da New School, a Faculdade Cronkite, na Universidade Estadual do Arizona, o mestrado em Jornalismo Social na Faculdade de Jornalismo CUNY ou o Laboratório de Notícias Reese, na Universidade da Carolina do Norte, são abordagens inovadoras pioneiras ao prepararem os estudantes para um futuro imprevisível. Heather Chaplin, diretora do programa Jornalismo+Design da New School, disse recentemente: “Não estou tão interessada nos talentos específicos quanto nas mentalidades. Estamos ajudando as pessoas a serem capazes de aprender rapidamente, de forma a que, quando as coisas realmente mudarem, elas possam seguir em frente sem entrarem em pânico?” À medida que esses programas de jornalismo preparam a próxima geração de jornalistas com bússolas, precisamos fazer o mesmo nas redações.

O jornalismo numa escala humana

O programa Patch[1] era, de muitas maneiras, um mapa de abordagem às notícias locais. Desenhava um caminho em frente, dando aos outros um trajeto livre a ser seguido. Os mapas permitem que as pessoas dupliquem seus movimentos e, portanto, são bons para pessoas que tentam estabelecer metas escalonadas para seu trabalho. Porém, como o próprio remendo comprova, esse não é o caso das notícias locais.

Abordando os perigos de buscar essas escalas, Laurenellen McCann, que trabalha para o desenvolvimento de projetos tecnológicos cívicos para comunidades, escreveu recentemente: “Acho que a resposta tem menos a ver com a distribuição de A Mesma Coisa Ao Mesmo Tempo, e muito mais com aquilo que eu chamo ‘padrões’… Basicamente, lições e práticas que as comunidades podem ensinar e compartilhar umas com as outras e adaptá-las da melhor forma possível às suas vidas. Aqui, a meta escalonada torna-se uma medida de proliferação que busca a profundidade, a simbiose e a relevância, e não uma medida de proliferação baseada na velocidade e quantidade.”

Este modelo de escala enfatiza a relevância e as relações, e não a repetição e o retorno do investimento. Ao invés de perguntar quanto tempo leva para crescer e quanto é possível crescer, esta versão de escala pergunta qual é o tamanho adequado para manter relações que tornam você forte e resistente.

Se a nossa ferramenta é uma bússola, então a comunidade é o nosso norte, a nossa estrela polar[2].

Independentemente da imprevisibilidade do jornalismo e da tecnologia, nossas comunidades irão permanecer onde estão. O que não significa que a comunidade propriamente dita seja algo estático. As comunidades também mudam, como mudam seus hábitos, suas preocupações e seus sonhos. Porém, em última instância, nosso trabalho deve ser para elas e, portanto, devemos ouvi-las e trabalhar para elas. E se o fizermos da maneira certa, elas nos ajudarão a navegar por esses panoramas que mudam e descobrir novos caminhos que nunca imaginamos que existissem.

***

Josh Stearns é diretor de Jornalismo e Sustentabilidade da Fundação Geraldine R. Dodge; Molly de Aguiar é diretora do programa para Mídia e Comunicação da mesma fundação

[1] O Patch Media é uma plataforma para publicação de noticias locais utilizada em aproximadamente 900 projetos jornalísticos locais e hiperlocais nos Estados Unidos. A empresa já passou por vários donos e seu modelo de negócios é questionado por muitos especialistas em administração empresarial.

[2] N.T. A Estrela Polar tem, no hemisfério norte, um papel similar ao do Cruzeiro do Sul, como referência na orientação dos antigos navegadores.

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