Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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GRANDE REPORTAGEM > Na estrada

A reinvenção do repórter

Por Carlos Wagner em 05/02/2019 na edição 1023

Publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas.

Nas lidas reporteiras passei dezenas de vezes pela placa rumando para as terras ao norte do Rio Uruguai em busca de histórias para contar. É bom ver ela continua lá indicando que as histórias não acabaram. (Foto: arquivo pessoal)

Poucas coisas são mais revigorantes para um repórter do que uma longa viagem pelas estradas. Uma oportunidade de rever pessoas e conhecer gente nova. Foi isso que fiz na segunda quinzena de janeiro: rodei uns 5 mil quilômetros pelo norte do Rio Grande do Sul, pelo oeste catarinense e paranaense e no Meio Oeste por Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Acompanhando pelo fotógrafo Emílio Pedroso. Fui tratar de um tema que particularmente gosto muito, que é migração. No caso, fui coletar material para um livro-reportagem em que estou trabalhando, chamado de “Pai para filho”.

Saímos de Porto Alegre e rodamos até Primavera do Leste, em Mato Grosso. Foi a minha primeira grande viagem desde que sai da redação de Zero Hora, em 2014. Na primeira entrevista que fiz, eu ouvi a seguinte frase de um colono: “sabia que o leite vai subir diariamente?” Respondi que não e acrescentei a pergunta: “aconteceu o mesmo que houve com os preços dos combustíveis, que foram ajustados aos mercados internacionais, que oscilam diariamente? Ele respondeu que não e disse: “o governador eleito chama-se Eduardo Leite e vai subir todos os dias as escadas do Piratini”. Imagine eu, um velho repórter de 68 anos e muitos quilômetros rodados, pagando mico. Coisas da vida. Na verdade, a piada serviu para esconder o maior problema que eu pensava que teria. Uma coisa é chegar para entrevistar uma pessoa com um carro com logotipo do jornal e sendo o repórter da Zero Hora, ou qualquer outro grande meio de comunicação. Outra coisa é ter que explicar quem é, no meu caso repórter da CW Jornal, nome fantasia de uma empresa que criei e registrei para ter cartão de visita e o meu blogue carloswagner.jorn.br — Histórias mal contadas. Mais ainda: o carro alugado tinha placas de Minas Gerais. Era muita coisa para explicar.

No meio da explicação, eu disse para o entrevistado que era o autor do livro ‘Brasil de Bombachas’ (duas edições, uma 1995 e outra em 2011). Logo que falei o nome do livro, o entrevistado disse que já tinha ouvido falar e lembrou da música dos Monarcas, Brasil de Bombachas, que surgiu logo depois que lancei o primeiro livro, em 1995. Respondi: “sou eu mesmo”. Foi um alívio. A partir dessa conversa, comecei a me apresentar para os entrevistados como repórter Carlos Wagner, o autor do livro ‘Brasil de Bombachas’. Aqui lembro o seguinte. Em 1979, quando comecei a trabalhar em redação, recebi um conselho do repórter André Pereira, um dos profissionais mais completos que conheço, sobre a importância de publicar livros. Publiquei 17 livros, um deles foi em parceria com o seu Pereira: ‘Monges Barbudos & O Massacre do Fundão’.

Dali para a frente, a conversa com os entrevistados ficou mais “leve”. Inclusive ficou mais fácil de explicar que estava fazendo um livro-reportagem. E que já havia estado lá em 1995 e 2011 e, com isso, envolver a pessoa na conversa sobre o que mudou nesse tempo. Ter informações desse tipo dá mais segurança para o repórter fazer entrevistas e mais consistência na hora de redigir a matéria. Uma surpresa agradável que tive. Emílio chamou a atenção que, na rodovia que corta Mato Grosso do Sul e Mato Grosso ao meio, o sinal de celular e internet pega o tempo todo. O mesmo não acontece no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Uma explicação para o funcionamento do sinal de celular e de internet é que as rodovias são pedagiadas e tem mecanismo de controle de velocidade operado por câmera de vigilância. Na época em que trabalhei em redação (1979 a 2014), era comum o repórter ficar na mesma empresa por alguns bons anos. E, com isso, acabar ficar conhecido como o fulano de tal da empresa xis. Claro, isso facilita a vida do entrevistado por saber com quem está falando. Mas dificulta a vida do repórter quando ele sai e vai para o mundo em busca de boas histórias para contar. A minha próxima grande viagem já tem destino: fronteira do Brasil com o Paraguai. Vou como o repórter que escreveu o livro País — Bandido publicado em 2003. As histórias continuam soltas por aí a nossa espera. Uma delas é o caso da contadora Sandra Trentin desaparecida no início do ano em Palmeira das Missões e encontrada enterra em uma cova rasa é uma história que precisa ser esclarecida e contada.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — UFRGS.

 

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