Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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HOMENAGEM A ALBERTO DINES > Príncipe do jornalismo

Meu caro Dines

Por Xikito Affonso Ferreira em 05/06/2018 na edição 990

Morreu aos 86 anos, em São Paulo, onde morava, o jornalista Alberto Dines. Ele vinha há 10 dias internado no Einstein Um episódio que relato adiante adubou minha afinidade com o jornalista em quem eu muito admirei o fair play, a serenidade nas avaliações mesmo de adversários, o senso de humor e a finesse d’esprit. Nesses últimos dois anos através de um sobrinho meu militante na imprensa eu tentava saber do andamento da saúde de Dines, sem conseguir a informação precisa, mas já sabendo que ele não andava bem.

Sou muito grato àquele que Tristão de Athayde (1893-1982) chamou de “príncipe do jornalismo brasileiro”. A afinidade dos dois intelectuais foi intensificada por um episódio no Jornal do Brasil em 1979, cuja redação Dines chefiara até ser afastado por ordem da direção do matutino, em 1973. Alceu guardou a impressão de que tal se deu porque o redator semita já não agradava à direção de um jornal dependente de crédito nos bancos oficiais em país dirigido por militares que tentavam atrair petrodólares dos árabes. Houve ainda que em 79, na época da eleição do General Figueiredo, por via indireta, Dines saiu-se com um artigo intitulado “E por que não eu?” sobre um sujeito que põe na cabeça que vai ser presidente da República. O artigo da Status foi expandido, virou livro na edição da Editora Codecri.

Tristão escreveu em 79 na Folha uma resenha altamente elogiosa ao texto que Dines chamou de brincadeira, mas que sem deixar de ser bem humorada é densa reflexão sobre os governos militares no Brasil, algo inspirado na leitura de Brave New World, de Aldous Huxley. Esta matéria apareceria também na coluna semanal de Alceu no JB, mas foi barrada pelo dr. Nascimento Brito. O embargo não havia sido levantado. Pois Tristão comunicou ao JB que não mandaria mais artigos enquanto durasse a censura a Dines. Várias semanas mais tarde “Telefonou-me o dr. Barbosa Lima Sobrinho, presidente da ABI e pediu que eu liberasse o dr. Alceu desta solidariedade. Prontamente liguei para ele, demos boas risadas quando eu lhe disse que a razão da censura certamente fora o despeito do Nascimento Brito porque o dr. Alceu designou-me no texto como “príncipe do jornalismo” (email de Dines ao autor, 25jun2004).

Dines enxergou longe o alcance da Internet, desde sua concepção e criação, faz 22 anos, o site Observatório da Imprensa só teve versão virtual. A facilidade de interação com leitores promoveu animados fóruns de discussão. O Observatório teve também versão semanal na TV Educativa, nele Dines reunia 2/3 convidados para conversar sobre temas de interesse público. Era gente decente e interessante.

O episódio que me tornou grato a Dines foi ele me ter franqueado espaço de publicação de meus escritos no Observatório da Imprensa. Largou essa possibilidade num email que trocamos, a concessão me animou, eu não trazia escolaridade apropriada, era um simples cidadão com ganas de me expressar. Os artigos tinham que estar de véspera no endereço eletrônico da redação e no sábado de manhã eu revirava a edição para encontrar texto meu.

Uma única vez estive pessoalmente com Dines, no escritório dele no Sumaré. Ali me levava a curiosidade de sentir de perto a presença do homem acumulando 80 anos de vivências extraordinárias, cuja curiosidade sobre a condição humana não se esgotava. Ele tinha compulsão da escrita, era sua forma de reflexão sobre a realidade e o semelhante. Recebeu-me no portão, fez-me aguardar sentado junto a prateleiras de livros mais de meia hora enquanto teclava com velocidade no computador, certamente não queria cortar seu fluxo de ideias. Desafogado seu buffer passou a receber seu visitante, perguntou-lhe o que fazia, ouviu-o com sincera atenção. Senti o calor da afetividade semita.

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Xikito Affonso Ferreira é jornalista aposentado.

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