Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA E SAúDE > Curadoria de notícias

Um salva vidas para a hipocondria informativa

Por Roxana Tabakman em 14/12/2015 na edição 880

As informações médicas que são divulgadas todo dia deixam ao público confuso. A proliferação de fontes de noticias e o fato das pessoas estarem utilizando referências não tradicionais em matéria de informação sobre saúde geram ansiedade crescente e, na sequência, a sensação de que estamos nos afogando em informação. Em alguns casos, pela própria natureza do assunto, as pessoas acabam desenvolvendo uma espécie de hipocondria informativa.

São os tempos atuais e não há mais volta possível para o passado. Neste contexto, a curadoria de conteúdos é vista como um dos possíveis remédios para o tratamento desta prolongada situação de mal-estar informativo que ameaça se transformar num problema crônico contemporâneo.

Informação médica foto  jfcherry creative

Foto jfcherry sob licença Creative Commons

O curador seria, basicamente, alguém que monitore a informação que se divulga no mundo digital, selecione o essencial, edite e contextualize as histórias, e finalmente as deixe disponíveis para o usuário. Idealmente, uma pessoa que se informe dos assuntos de saúde a traves de bons curadores além de ficar atualizada em questões médicas ficaria blindada contra boatos, rumores e informações irresponsáveis. As fontes escolhidas pelos curadores teriam muito a ganhar, porque aumentariam os seus índices de leitura e compartilhamento. A ideia é boa. O problema que enfrentam os novos profissionais da comunicação é como fazer com rigor e responsabilidade essa curadoria.

O conteúdo

Há muitas ferramentas para monitorar a informação digital e a disponibilidade infinita e’ uma tentação. O curador tem a sua disposição conteúdo de jornais, revistas, rádio, TV, blogs, programas no Youtube, sites e redes sociais de empresas de midia, ONGs, governo, hospitais, universidades do pais e do estrangeiro. A lista é quase infinita.

Pessoas que antes conformavam a audiência agora estão envolvidas na produção de notícias, e o conteúdo criado por usuários, sejam individuais, coletivos, pagos ou voluntários acrescenta um degrau maior de complexidade. No Brasil, por exemplo, estão contabilizados ao menos 450 blogs de saúde, segundo Priscila Torres, do Blogueiros da Saúde que ao ser consultada pelo Observatorio da Imprensa, disse que “a grande maioria das pessoas que produzem blogs é formada por pacientes ou familiares. Estamos fazendo um grande trabalho na formação dos blogueiros para que produzem conteúdo com responsabilidade e conhecimento”.

O excesso de material informativo coloca muito peso nos ombros dos que fazem a escolha sobre o que é essencial para os objetivos a serem atingidos. Como ter certeza que a pequena amostra selecionada representa o que há de melhor para o público? Como não cair nos mesmo problemas que afetam a cobertura sobre saude na grande mídia?

O dinheiro não é o único fator que suja a informação. No caso da medicina e qualidade de vida, os médicos ou cientistas nem sempre sabem explicar de maneira clara e atrativa. E os jornalistas, até os que assinam na grande mídia, nem sempre passam por treinamentos que permitam superar os complexos desafios éticos e técnicos das matérias de saúde. Um curador vira o juiz responsável por distribuir informações geradas por pessoas que ele não conhece, que estão mais o menos preparadas, são mais ou menos espertas, estão mais ou menos informadas e, o mais difícil de verificar, são mais ou menos resistentes a pressões econômicas.

Pode-se escolher divulgar apenas o trabalho dos melhores, se limitar a traduzir do idioma original textos produzidos por repórteres céticos e bem informados que não são simples amplificadores de ideias e de dados alheios, e que muitas vezes trabalham nas grandes grifes midiáticas. Mas o jornalismo de qualidade é ,no mundo todo, uma atividade em crise de adaptação a um novo modelo de produção de informações.

Para Robert Lee Hotz, profissional de referência no jornalismo científico pelo seu trabalho no The Wall Street Journal, está cada dia mais difícil estar bem informado. “Há mais aceso a notícias de ciência, e menos jornalismo bom”, resume. “A tecnologia não mudou a ciência que reportamos, mas alterou a maneira como a empacotamos e a possibilidade de viver de jornalismo científico. O que a sua vez diminui a qualidade.” (Mais detalhes da entrevista aqui)

Um bom curador seria como um vigia no qual depositamos a nossa confiança. Como qualquer editor trabalha no escuro, tem que aprender a conviver com uma voz interior que o lembre que aquelas notícias pontuais que ele escolheu hoje, de entre muitas outras, amanhã podem acabar não sendo verdadeiras. Na área de medicina isso e ainda mais marcante, porque ao escolher levar uma informação ao seu público, o que predomina é a novidade. Se o curador não quer se arriscar, terá que recomendar apenas aqueles fatos cientificamente aceitos, evitar a tentação do “furo”jornalístico ou logo acabará perdendo a confiança do seu público. O trabalho rigoroso de seleção de informação científica se desenvolve, em maior ou menor grau, no difícil terreno de comunicar incertezas.

E bom esclarecer que curar conteúdo não é, em termos simples, aproveitar-se do trabalho dos outros. Há bastante literatura sobre o compartilhamento ético. Para a pesquisadora Livia Vieyra “direcionar o leitor para a íntegra da entrevista, por meio de link no final da matéria é a forma mais correta de curadoria digital, pois o conteúdo é reescrito ao mesmo tempo em que instiga o leitor a conferir o restante da entrevista no veículo original.

O que é um bom conteúdo?

Dependendo dos objetivos do projeto de curadoria, ele pode informar, ensinar, inspirar, divertir, vigiar, emocionar ou uma mistura de todos eles. Ter toda a informação do mundo disponível jna distância de um toque traz o risco de algumas armadilhas. Por exemplo, a tentação de mostrar sempre que puder os dois lados da moeda. Se há uma matéria a favor da terapia de reposição hormonal após a menopausa, e’ fácil achar uma outra que defenda a posição contrária, por citar um exemplo. Oferecer as distintas visões sobre um mesmo assunto, em tese , aumenta a credibilidade do veiculo de informação. Infelizmente, em saúde, esse falso equilíbrio é, às vezes, um presente de grego.

Está comprovado que dar espaço a opiniões contrapostas pode deixar as pessoas mais confusas. Há também pesquisas que mostram que mesmo deixando claro o peso das evidências, quando se oferecem pontos de vista diferentes, estes são vistos como alternativas equivalentes. Pode sugerir que há uma controvérsia quando não é assim, o que há é apenas “achismo” ou boato de um lado, e ciência do outro. Na época que no Reino Unido se perguntavam se as crianças podiam desenvolver autismo depois de tomar uma vacina, mesmo com a maioria dos jornais dando informações corretas, o fato de seguir a regra de ouvir os dois lados acabou dando destaque a informações erradas o que gerou uma redução no índice de vacinação e um aumento no caso das doenças a serem evitadas. A responsabilidade que se assume ao querer mostrar “os dois lados” não deve ser negligenciada.

Curadoria é, portanto, um trabalho que exige conhecimento, trabalho e sobre tudo tempo, que se traduz em dinheiro. Mas há uma grande vantagem que o curador tem frente ao editor clássico: a sua não é uma porta de sentido único. `A diferença dos sistemas tradicionais de comunicação, ele dispõe hoje de uma rede protetora, pois é retroalimentado por uma comunidade de receptores que corrigem e sugerem. Isso gera uma curadoria final por decantação: a rede permite a evolução permanente da informação.

Modelos

Há muitos modelos curadoria de notícias médicas, como se destaca nos exemplos a seguir:

A página Your Health News Review (Sua revisão de notícias de saúde, em trad. livre) que todo dia avalia as notícias divulgadas nas principais mídias de EUA pode ser uma bom norte para os curadores. O aceso do 24 de novembro de 2015, por exemplo, tinha na tela de entrada o link a nove matérias. A avaliação dos curadores e expressada de forma simples e de leitura rápida: de 1 a 5 estrelas. O usuário pode ler as notícias, se orientando pela recomendação e conhecer nos comentários sobre os quais a nota está baseada.

Destaco algumas recomendações: Fototerapia para a depressão (The Washington Post, 4*), duas matérias sobre os efeitos do café na saúde (CNN: 3*, STAT 5*) e uma sobre Mais uma vantagem do aleitamento materno (5*). Apresentado como reportagem exemplar, e ponderado com cinco estrelas, um texto do The Philadelphia Inquirer trata de uma pesquisa feita sobre um grupo de médicos e pacientes que ganham dinheiro se o paciente toma todo dia seu comprimido contra o colesterol. O usuário também pode ler, seguindo o mesmo esquema de recomendação fundamentada, comunicados de imprensa de universidades, publicações cientificas e companhias.

O projeto é extraordinário em mais de um sentido. O aceso é de graça mas, nos bastidores do site, há uma equipe de mais de 45 pessoas comprovadamente independentes da indústria. Os revisores conformam um equipe multidisciplinar da qual fazem parte jornalistas, médicos, pesquisadores e pacientes que representam ,segundo eles ,“centenas de anos de experiência” em avaliação de evidências. Uma redação de luxo que desde 2006 avaliou mais de 2100 matérias, sendo que cada uma passa por três revisores.

Como é feita a seleção? As palavras que acendem a luz vermelha são “milagre”, “cura”, “isto poderia levar a” e similares. Mas os critérios de análise para medicamentos o terapias novas estão bem definidos: vão desde o custo/benefício até a comparação com tratamentos alternativos. (ver lista completa aqui ). Cada quesito pode ter três resultados, (satisfatórios, não satisfatório ou não aplicável) e depois o valor final é visualizado em gráficos. São muito exigentes. Em 2014, avaliaram 2015 produtos jornalísticos, muitos deles de veículos que a grande maioria dos brasileiros tem como referência de qualidade (The New York Times, Reuters Health, a revista Time) e apenas o 15% teve nota máxima.

Não aceitam publicidade, nem apoio da indústria medica. O editor chefe Gary Schwitzer, também diretor do Centro de Comunicação e saúde da Escola de Saúde pública da Universidade de Minnesota, respondeu por e-mail às minhas perguntas. Disse que se financiam com uma doação de 1,3 milhões de dólares (anos 2015-2016) de uma fundação privada. “Estimamos acabar o ano com 375.000 visitantes únicos. Em anos anteriores nunca tínhamos tido mais de 250.000.” Pedimos que Schwitzer avaliasse as notícias médicas publicadas nos EUA na última década: “nós identificamos muitos conteúdos que classificamos como picos de excelência, mas cada vez mais nos deparamos com o pior jornalismo que já foi feito. O cenário é de montanhas com vales, mais estes são cada vez mais largos e profundos.”

O projeto alemão de curadoria de matérias de saúde Medien-doktor.de foi lançado em maio de 2013, inspirado no baseado no Your Health News Review e em outros similares de Austrália e Hong Kong. Mas acrescentou uma diferença importante: a avaliação diária é feita por jornalistas especializados em ciência e saúde. Em consequência, incorporaram aos critérios médicos outros quatro princípios puramente jornalísticos: atualidade, relevância, qualidade na apresentação e precisão jornalística.  A proposta é destacar bons exemplos para mostrar como se faz bom jornalismo. “Os usuários se perguntam que matérias podem acreditar e em quais não. Nós pretendemos encontrar respostas a estas perguntas.”

Também na frequência diária, o britânico Behind the lines. Your guide to the Science that makes the News (Detrás das linhas. Seu guia para as noticias científicas, em trad. Livre) reporta uma única matéria divulgada pela mídia do Reino Unido (no Daily mail, The Guardian, BBC, The Independent, etc.) com a crítica correspondente. Eu fiz um aceso no dia que examinaram uma matéria do BBC News sobre se seria recomendável para a saúde que o celular tivesse um modo “dormir”. Os curadores analisam as limitações da pesquisa original, e conferem se as conclusões batem com o publicado na matéria. Oferecem muito conteúdo extra: o link para o relatório científico original, as ferramentas para entendê-lo, matérias dos outros veículos sobre o mesmo assunto, mais informação sobre o tema de saúde em foco (nesse caso um vídeo com uma reportagem sobre insônia e um teste para conhecer a qualidade do próprio sono). O trabalho é financiado pelo Sistema Nacional de Saúde (NHS), um órgão do governo britânico.

Recomendações básicas

Entre os trabalhos referenciais comentados, e o caos de navegar sem bússola, há algumas possibilidades intermediárias para oferecer ao público um meio de atravessar o mar de conteúdos digitais sobre saúde sem se afogar.

O trabalho colaborativo e voluntario de indivíduos em rede que saibam pesquisar, conheçam o assunto tratado ou ao menos tenham o suficiente domínio da estatística e do método científico para opinar ou fazer sugestões é a estratégia seguida pelo chileno Observatorio de Prensa Cientifica. Qualquer jornalista, estudante ou cientista pode propor uma matéria com o link ao trabalho a divulgar. Mas o jornalista deve prover a resposta a cinco perguntas pré determinadas e o cientista a duas.

As primeiras servem para julgar a fonte, a linguagem e o benefício para a sociedade, e o cientista tem que responder pelo conteúdo. Nascido de ambiente acadêmico (Centro de Comunicación de la Ciencia de la Universidad Andres Bello) o usuário vai consumir a notícia matéria seguro de que ela conta com o aval de um cientista da área. Mas o Observatório também quer intensificar a interação entre jornalistas e cientistas. Trata-se de uma preocupação oposta a do projeto Stat News, uma publicação irmã do The Boston Globe, cujo objetivo é monitorar o que os cientistas dizem à imprensa. Acaba de nascer com uma seção nova The watchodogs. Onde a equipe do Stat News promete investigar o que chama de lado escuro das pesquisas científicas.

Outro exemplo interessante é Vox.com. Aproveitam o material que está disponível grátis na internet mas acrescentam valor. O resultado pode se conferir na seção de Ciência e Saúde. Fiz um aceso no dia que publicaram a matéria “As Dietas mais pesquisadas no Google” (trad. Livre). Observaram o amplo material do Google sobre os métodos de emagrecimento mais procurados e, provavelmente, seguidos da década 2005- 2015 com um olhar inteligente. E o acompanharam de um texto explicativo titulado (em trad. livre) “8 fatos para prevenir uma loucura

Mais simples. Há ainda uma opção mais simples, que é recomendar leitura, audição ou visualização sem acrescentar nada ao já difícil trabalho de fazer escolhas. Veículos digitais como o Stat fazem sugestões diárias para o seu público. Quando acessei, as recomendações eram três: uma matéria do Boston Globe (sobre o debate da segurança dos jalecos brancos nos profissionais de saúde), uma da revista britânica Nature (história sobre os animais geneticamente modificados na China) e uma programa de rádio Science Friday (sobre remédios).

No mundo real, os níveis de liberdade do curador para todos nesse quesito é bastante variável. O site M de mulher da Editora Abril por exemplo, oferece aceso a informação de saúde que provem fundamentalmente do conteúdo de outros veículos da mesma empresa: Saúde e vital, Boa forma, Elle, Bebê’.

Curadoria automática

Consumir apenas o que foi selecionado de acordo com o interesse pessoal é uma tentação para quem não tem tempo e sofre de ansiedade informativa.  As grandes empresas digitais e os editores acreditam e apostam neste tipo de comportamento, como faz o Facebook, com o seu aplicativo Instant Articles.

A curadoria automática, baseada em algoritmos, é diferente da agregação automática de conteúdos por palavra-chave, pois é uma plataforma que inclui conteúdos de publicações (da imprensa. blogs, portais, etc) e não simplesmente justapõe trechos. Há muitos sistemas de curadoria automatizada e quase todas elas tem suas limitações.  :

Fiz um teste cm o Feedly.com (apenas em inglês) e fui convidada a selecionar as fontes de informação que pretendia seguir. Depois de descartar as fontes que considerei pouco confiáveis, como a de um blog pessoal de um homem que se definia como “pai e vegetariano”, acabei me limitando as que já recebo diariamente em minhas redes sociais (BBC Health, CNN Health e outras) . O dia que fiz o teste no Yahoo Saúde, tive uma experiência ainda mais limitada: as três matérias destacadas e as 15 não destacadas, vinham todas de uma mesma agência de notícias, a francesa AFP.  Mesmo sendo um texto em português , não havia nenhum conteúdo referente ao Brasil. Das 18 recomendações mostradas na tela, apenas uma era da América Latina (denúncia de perseguições aos defensores do aborto)

Faz alguns anos, o site chileno Mata-sanos que produz conteúdo de medicina próprio, fez um teste para oferecer aos seus leitores a plataforma Scoop.it . O assunto escolhido para a prova foi “Como as tecnologias da informação mudaram a relação médico paciente”. Meses depois o abandonaram porque, segundo os responsáveis pelo site chileno, “o conteúdo era majoritariamente em inglês, e isso ficava fora de nosso foco”. Fiz também meu teste com o algoritmo curador de Scoop.it , coloquei como focos de interesse saúde, medicina e qualidade de vida, e não tive problemas com a língua, tinha material em portugués. No instante vi na tela muitos links escolhidos, na teoria, para satisfazer o meu interesse. Destaco duas: “Ciência é motor da produtividade agrícola e da melhoria da qualidade de vida”, do site do Centro de Informações em Biotecnologia, e “5 práticas sexuais consideradas sujas que fazem bem a saúde” do Youtube.

Para efeito de comparação, me cadastrei como interessada em matérias de saúde em português também na revista Clipboard uma das que oferece o serviço de publicações pessoais. Recebi na minha tela muitas matérias, de poucas fontes e com conteúdo diversificado. O universo informativo abarca desde atualidade sobre a microcefalia até uma técnica para mudar a cor dos olhos, esta última de um site que não passaria nenhuma das rígidas avaliações citadas no começo deste artigo.

Na minha experiência pessoal, portanto, os algoritmos curadores de conteúdo são por enquanto dessas ideias que só funcionam bem na teoria. Mesmo se fosse impecável, se tivesse algum tipo de filtro de qualidade eficaz e eficiente, há uma razão importante pela qual não é boa ideia abrir mão dos curadores humanos. O algoritmo reduz uma pessoa ao que acha são as suas preferências e, em termos práticos, isso significa que a sua visão do mundo vai se estreitando cada vez mais.

O curador profissional

Provavelmente, o que se verá os próximos anos será combinações mais ou menos sucedidas de curadorias compartilhadas entre algoritmos e’ intervenções profissionais multidisciplinares. Modelos que aproveitem a rapidez, memória infinita e visão estendida das máquinas, sem deixar de lado o olhar humano.

Qualquer cidadã conectado já e curador de informação. De todas as notícias de remédios ou tratamento novos, de toda as evidencias que se difundem diariamente de que algo produz ou cura o câncer, de todas as recomendações para emagrecer com saúde, só alguns deles são escolhidos pelas pessoas para serem amplificados. A diferença no critério dos curadores dará as chances das novidades serem verdadeiras, as perspectivas realmente originais e a opinião de qualidade.

Atrair público a um produto que consiga um balanço economicamente sustentável da excelência e o desafio. Outros processos nos quais um curador profissional poderá mostrar a diferença com o leigo continuam, depois da seleção, na editorialização, na hierarquização do conteúdo, na representação de forma acessível seja por meio da narrativa, de infográficos ou ambos. Em poucas palavras, na criação de um produto novo que vai ser compartilhado. Finalmente, o curador é chamado a intervir no que constitui o foco de monetização do jornalismo digital, o engajamento.

“Curar não é gerar conteúdo novo, é muito mais do que colar informação“, resume Anita Howart, da Universidade Brunel de Londres em “Exploring a curatorial turn in journalism” . “Envolve representar de maneiras imaginativas, reformulando o conteúdo existente em novas configurações. Neste sentido, a curadoria representa uma forma de criatividade crescentemente comum na era das mídias sociais, a de misturar e reimaginar o material existente para criar algo novo.” Para Anita, o que diferencia o curador de outros profissionais das redações é o volume, a natureza e a verificação do material com o que trabalha.

O mundo comunicacional se divide entre os pessimistas, que encaram a curadoria de conteúdos como um sintoma da agonia do jornalismo, e os otimistas que a enxergam como uma nova maneira de exercer a profissão, fazendo circular conhecimento com práticas novas. Os otimistas acreditam que é uma maneira de dar um novo impulso a imprensa por meio da recirculação de conteúdos gerando novas audiências. Qualificam a curadoria como uma forma de evitar a perda de diversidade na mídia tradicional. Celebram uma maneira de deixar de consumir mais do mesmo, com garantia de qualidade.

A curadoria de conteúdo é o futuro? Há quem pensa que depois da explosão dos websites e o boom das redes que geraram um dilúvio de dados, vem a terceira onda, a dos filtros. Gary Schwitzer, jornalista com 40 anos de experiência em saúde, e que nove anos atrás criou o Your Health News Rewiew faz a seguinte analogia: “Os consumidores de notícias de saúde tem sede de um pequeno gole de informação completa, equilibrada, e precisa para enfrentar a variedade de decisões relativas a saúde que devem enfrentar. Mas com o fluxo de informação a alta pressão que recebem, é como tentar beber da mangueira dos bombeiros. Os consumidores estão se afogando, e nós tentamos atirar um salva-vidas para eles”.

***

Roxana Tabakman  é bióloga,  jornalista e autora do livro “A saúde na mídia (Medicina para jornalistas, jornalismo para médicos)”. Ed. Summus.

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