'24 horas é ideal para dar sentido à notícia' | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / LOURIVAL SANT´ANNA

’24 horas é ideal para dar sentido à notícia’

Por Marcos Bandeira em 23/09/2008 na edição 504

O advento da internet trouxe um desafio às mídias impressas, que assistiram a parte de seus leitores migrarem para o novo suporte de informação. A novidade também redundou em mudanças nos hábitos de leitura de quem busca a notícia. Não faltou quem decretasse o fim do jornal impresso – tal como, erroneamente, se prenunciou a morte do rádio, quando da invenção da TV. Entre visões apocalípticas e otimistas, em O Destino do Jornal (Editora Record, 270 páginas), resultado de sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade de São Paulo no ano passado, o jornalista Lourival Sant´Anna mostra que o tradicional veículo de comunicação ainda tem futuro. Para tanto, será necessário adaptá-lo aos novos tempos.


Mas engana-se quem pensa que isso significará abrir mão das qualidades que o distinguem dos demais meios. Pelo contrário, uma das saídas será justamente reforçar o que o jornal faz de melhor: contextualizar, interpretar e analisar a notícia. ‘O jornal não é quente demais a ponto de ser superficial, nem frio demais a ponto de parecer velho. Na sociedade da informação, 24 horas é a periodicidade ideal para dar sentido à notícia’, diz o jornalista, em entrevista por e-mail à Tribuna do Planalto. Na terça-feira (16/9), Sant´Anna fez palestra para estudantes da pós-graduação da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia (Facomb) da Universidade Federal de Goiás; à noite, participou de um debate no auditório do Sindicato dos Jornalistas.


***


Menos páginas e formato menor


No meio acadêmico brasileiro, quando os jornais, revistas ou televisão são tema de pesquisa, quase sempre o pesquisador está em busca de alguma forma de provar uma suposta teoria conspiratória sobre como esses veículos de comunicação agem para manipular a consciência da população. Definitivamente, este não é o caso de seu trabalho. Sob esse aspecto, como o seu livro tem sido recebido no meio acadêmico, em especial o brasileiro?


Lourival Sant´Anna – Concordo com a sua premissa, salvo as exceções, naturalmente. O livro tem sido bem recebido. Até porque ele é resultado de um trabalho acadêmico, o meu mestrado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Acho que uma parte crescente da universidade brasileira – em todos os campos, não só no jornalismo – ressente-se desse abismo entre o mundo acadêmico e o mercado. O Brasil perde muito com isso. O país é adulto em termos de produção científica – 2% da produção mundial, equivalente à fatia do PIB brasileiro no mundo – e uma criança em matéria de produção de patentes. Por quê? Porque os pesquisadores brasileiros não produzem trabalhos para a indústria, para o mercado. Claro que não é só culpa deles, mas de um ambiente econômico e uma cultura desfavoráveis à inovação tecnológica.


Tomando como ponto de partida o seu livro, qual o destino que se reserva para o jornal que conhecemos hoje?


L.S´A. – O jornal impresso tende a diminuir em número de páginas. Deve deixar de contar tudo o que aconteceu ontem, para investir na análise, interpretação e narrativa de alguns fatos. Também tende a diminuir em formato, passando do standard para o tablóide, de modo a maximizar uma de suas qualidades mais apreciadas pelo leitor: a portabilidade. Tende, ainda, a diminuir em circulação. Parte de seus leitores está migrando para o on-line. E parte simplesmente deixará de ler jornais.


A informação de tipo ‘utilitário’


O sr. afirma que o acirramento da concorrência pode levar os jornais – pelo menos no caso dos três analisados em sua pesquisa – a investir maciçamente nas qualidades que os distinguem dos outros meios. De que forma exatamente isso se concretizará?


L.S´A. – A TV, o rádio, a internet e o celular são melhores que o jornal para dar a notícia. O jornal é melhor que todos eles para contextualizar, interpretar e analisar essa notícia, explicar o que ela significa para o leitor, para sua cidade, para o país e para o mundo. O jornal também é melhor que os outros para contar a história, com qualidade narrativa. A revista também é boa para fazer essas coisas, mas ela só o faz uma vez por semana. O jornal não é quente demais a ponto de ser superficial, nem frio demais a ponto de parecer velho. Na sociedade da informação, 24 horas é a periodicidade ideal para dar sentido à notícia.


Qual é o futuro dos jornais regionais, que têm um relativo poder de fogo para atender às demandas de seu público, como o sr. bem lembra em seu livro, comparado ao aporte de recursos de que dispõem os grandes jornais nacionais?


L.S´A. – Talvez algumas das coisas que afirmo sobre os grandes jornais se apliquem aos jornais locais. Mas, como não estudei os jornais regionais, a não ser em oposição aos nacionais, prefiro deixar a questão em aberto.


A ênfase na informação de tipo ‘utilitário’ – sobre o local onde os leitores vivem e trabalham, sobre trânsito, lazer, consumo -, o objeto principal dos jornais regionais, não constitui muito pouco para um veículo que tem funções tão diversas como um jornal?


L.S´A. – Esse serviço é mais bem feito pelo rádio e pela internet. Ele deve ser complementar num jornal. Sem dúvida, não é suficiente para justificar sua existência.


Pesquisas qualitativas


A tiragem dos jornais vem caindo continuamente ao longo dos anos. Todavia, o número de jornais aumentou. Isso indica que a tendência é a de que os jornais venham a focar cada vez mais públicos específicos?


L.S´A. – A circulação total voltou a aumentar nos últimos dois anos. Mas o número de jornais tem aumentado continuamente. Isso sugere crescimento dos jornais menores. O outro fenômeno dos últimos anos é a proliferação dos jornais populares e dos jornais gratuitos. Ambos são resultantes do aumento de poder de compra das classes C e D.


O que se pode dizer sobre o perfil do leitor de jornais no Brasil?


L.S´A. – O leitor dos jornais que eu estudei, que são os grandes jornais de qualidade, tem poder aquisitivo alto – concentra-se nas classes A e B – e é um robusto consumidor de notícias também pelos outros meios, a começar pela internet, ao qual ele tem acesso. É por isso que, para ele, o jornal torna-se redundante quando se dedica a dar notícias. Ele tem acesso a elas antes de ler o jornal.


O brasileiro está lendo menos de uma forma geral, ou houve uma mudança nos hábitos de leitura?


L.S´A. – No Brasil, e também na maioria dos países desenvolvidos, as pessoas estão lendo menos jornais. Não tenho dados sobre a leitura de livros. A informação torna-se cada dia mais crucial. Mas pessoas têm outras opções para informar-se, além dos jornais.


Levando-se em conta a diminuição no número de leitores de jornais impressos, qual deve ser o reflexo nos jornais locais?


L.S´A. – Não sei. Precisamos de um estudo específico sobre esses jornais. Minhas afirmações sobre os jornais nacionais são baseadas em pesquisas qualitativas com o público-alvo, entrevistas com os diretores de redação dos três principais jornais do país e com especialistas e consulta à bibliografia atual, sobretudo americana e européia. Não fiz isso em relação aos jornais locais, de maneira que o que eu disser sobre eles vale tanto quanto a opinião de qualquer outra pessoa.


A estratégia dos brindes


A se confirmar o fim do suporte impresso, a tendência não é de que os veículos menores, como os jornais locais, se percam no emaranhado de serviços de informação disponíveis na internet?


L.S´A. – Não necessariamente. Talvez eles possam trilhar um caminho parecido ao que proponho para os grandes jornais, de agregar narração e interpretação às notícias locais. Mas, de novo, seria preciso um estudo sobre eles.


Depois de incrementar as receitas dos grandes jornais na década de 90, a política de brinde, o que em seu livro é descrito como o fenômeno dos ‘anabolizantes’, parece ter sido absorvida pelos jornais regionais. Aqui em Goiás, inclusive, há um jornal focado nas classes C e D, que sustenta sua venda com base nesta estratégia. Pode-se afirmar que se trata de um produto com prazo de validade determinado, do ponto de vista empresarial?


L.S´A. – A experiência dos grandes jornais mostrou que a estratégia, em si, tem prazo de validade, porque não se sustenta financeiramente. O propósito disso é atrair leitores novos, criar neles o hábito da leitura, na esperança de que eles continuem lendo jornais depois que os brindes desapareçam. No caso dos grandes jornais, não funcionou. Mas, naquela época, outros fatores influíram, como mostro no meu livro: crescimento econômico medíocre; mudança estrutural nos hábitos de leitura, decorrente do surgimento da TV a cabo e da internet e do incremento das rádios de notícias 24 horas e noticiosas; e as dívidas das empresas que editam os jornais, que as obrigaram a cortar suas operações de jornalismo, de marketing e até circulação.


Realidades distintas em cada mercado


Muito se tem falado sobre o profissional multimídia, ou o ‘jornalista de mochila’, como o sr. cita em seu livro. Este perfil de jornalista não parece atender apenas aos interesses econômicos das empresas, que economizam em mão-de-obra?


L.S´A. – Em parte, sim. Acho que isso é decorrência do fato de que o jornalismo on-line ainda não é rentável. Estamos na pré-história da internet. Quando esses negócios se tornarem comercialmente viáveis, é provável que a produção jornalística se sofistique, se profissionalize, e tenhamos mais e melhores profissionais para produzir o conteúdo para esses meios.


Cursos como o Intensivo de Jornalismo Aplicado, do Estadão, e o Programa de Treinamento, da Folha de S.Paulo, são um indicativo de que as faculdades de jornalismo de uma forma geral não têm conseguido formar o profissional que o mercado procura?


L.S´A. – Não. Acho que a universidade faz o seu papel, de dar uma base intelectual, humanista e ética aos futuros jornalistas, e nós, empresas, fazemos o nosso papel, de transmitir a eles a nossa cultura e a nossa tecnologia de produção.


Qual a sua opinião sobre o debate acerca do fim da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista?


L.S´A. – Não tenho opinião formada sobre esse assunto. Percebo, nos debates, que há realidades muito distintas em cada mercado. Uma coisa é o mercado de São Paulo, outra o de Goiânia e outra o do interior de Goiás, por exemplo. Acho que cada uma delas tem de ser levada em conta para se tomar uma posição a respeito disso.


A rentabilidade e os princípios


Quais devem ser os parâmetros para que o departamento comercial, na relação com a redação, não rompa o que se convencionou como modelo ideal, ou seja, a relação do tipo ‘Igreja-Estado’.


L.S´A. – A separação Igreja-Estado tem sido a chave da nossa credibilidade. Ela garante que os interesses do jornal de vender anúncios e de ter boas relações com as empresas anunciantes não interfiram no nosso trabalho de reportagem, edição e opinião. Tem sido assim nos três grandes jornais que estudei. A independência não é perfeita, porque somos humanos, sujeitos a pressões e influências. Mas pautamos nosso negócio pela independência e a protegemos com grande dedicação. Sabemos que, sem essa separação, nosso negócio morreria. Somos o que somos porque nossos leitores acreditam no que publicamos. Ganhamos muito dinheiro com anúncios porque as empresas querem transferir para suas marcas o prestígio dos nossos jornais. Não porque publicamos o que outros querem que publiquemos.


Uma boa parte dos jornais regionais é caracterizada por sua complexa relação de dependência com os governos estaduais. Que futuro se reserva a esse tipo de jornal?


L.S´A. – Isso não é jornalismo. É um arremedo. Estou voltando da China. Lá, com pesar, tive de abandonar meu procedimento de revelar a meus entrevistados que sou jornalista e que o que eles me disserem será publicado, porque percebi que a palavra ‘jornalista’, para eles, significa ‘funcionário do governo que faz e publica o que o governo quer’. Infelizmente, isso acontece em muitos jornais regionais e locais do Brasil. É deprimente.


Embora não se possa afirmar que seja um caso de influência editorial direta, a transformação por que passou o Jornal do Brasil é um exemplo de que o parâmetro da rentabilidade sobrepujou os princípios intangíveis do jornalismo que o sustentou como um dos importantes jornais do país por anos?


L.S´A. – Do Jornal do Brasil, que fez história no jornalismo brasileiro, só se conserva o nome.

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Jornalista, editor de ‘Cidades e Cultura’ do jornal Tribuna do Planalto, Goiânia, GO

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