Sábado, 17 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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300, o filme? Não!

Por Fernando Schweitzer, de Buenos Aires em 04/08/2009 na edição 549

O programa mais audaz dos últimos tempos na TV brasileira chegou esse domingo (19/7) à extraordinária marca de 300 programas semanais na Rede TV!.

Tudo começou no rádio. Lá, os intrépidos rapazes, quase todos de agora, começaram a traçar um novo perfil e estilo de fazer humor no país. A tímida Rede TV! lhes proporia depois de cerca de uma década no ar, que se fizera o tal Pânico na TV. Antes mesmo de começar, sofreram preconceito, rechaça pelo simples fato de não serem formados atores ou qualquer outra coisa semelhante que não se vê, por exemplo, em novelas globais faz mais de duas décadas.

Eles humildemente se propuseram a aprender e a lidar com o formato. O que talvez nem eles esperassem é que o que a TV lhes proporcionaria e iria, inversamente ao que pensavam, modificar sua forma de fazer rádio. Ao entrarem na TV chegaram a dizer com a boa inocência dos humildes: ‘Vamos fazer o que fazemos no rádio, só que agora com imagem!’, disse Zurita, líder do bando. Hoje, um dos quadros do Pânico na TV é mostrar quem foram os entrevistados de destaque da semana na rádio.

Obviamente que, se não estivessem na TV, muitos entrevistados não estariam na versão ‘rádio’ do programa. Mesmo porque um programa de rádio, mesmo que em cadeia quase nacional, ao meio-dia tem suas dificuldades para obter bons convidados. Algo interessante é o surgimento de personagens na TV que migram para a versão rádio, como Cristian Pior, uma das revelações mais surpreendentes e hilárias do programa.

Voltou de férias mais cedo

A homenagem a Sabrina Sato, figura que se projetou como único caso mais fora que dentro do Big Brother, com suas quase mortes, desde voando içada por balões de festa ou sendo lançada em uma cápsula nas cataratas do Iguaçu. As sandálias da humildade ao saudoso e sinceramente franco atirador de verdades jamais ditas por qualquer outro na história da TV brasileira.

A tal ‘dança do siri’ molestou a TV Globo por mais de um ano em suas transmissões ao vivo. Era impossível para os repórteres da poderosa fazerem externas, mais ainda se fossem ao vivo. Até Galvão Bueno dançou, fora o presidente da República e centenas de celebridades, nacionais e internacionais.

Muitos compararam o CQC em algum momento com o programa da Rede TV!. Pode se ter um comparativo único, a meu ver, que é o fato de fazerem humor através de reportagens. No mais, é absurdo ignorar a história de ambos. CQC é um programa criado pela produtora independente argentina Cuatro Cabezas, que está em quase 30 países. O argentino tem como base literalmente uma mescla de jornalismo investigativo, político, sócio-culturalmente engajado travestido de humor e ironia. Existe uma intencionalidade em cada ato, realmente de caso pensado, coisa que não existe no Pânico.

O programa rádio-televisivo ou tele-radial é como um adolescente. Inconseqüente, irresponsável, loucamente vivo, rebelde, despudorado e desmistificador. É como um grito contra a hipocrisia social. Cito o momento em que o repórter Vesgo pergunta o que o país gostaria de perguntar. Sem medo a William Bonner, questionou: ‘Como você se sente tendo de voltar de férias mais cedo porque o Jornal Nacional tá perdendo para a novela da Record?’ O rapaz do padrão de qualidade não sabia o que dizer e aí vem o arremate. Sílvio Santos, personagem do comediante Ceará: ‘Fica tranqüilo, Bonner, qualquer coisa tenho emprego pra você na minha emissora, pode vir com toda a família…’

Algo nativo se criou

Diferente do CQC que, apesar de se adaptar a cada país na forma de abordar os mesmos temas, segue um modelo pasteurizado e muito parecido em todos os países. O muy brasileiro Pânico na TV pode ser acusado de tudo, menos de ter fórmulas. Embora o CQC Brasil pegue mais leve com os políticos que o pai argentino, ainda assim a temática discursiva dos programas é amplamente distinta.

O programa Pânico veio sem pretensões e acabou gerando uma grande discussão no país em meio a uma grande crise no humor brasileiro. Isso que fazem, é humor? Eles fazem humor ou brincam de ser jornalistas, deveria ser a pergunta. A resposta é: fazem rir!

Os índices do programa Pânico na TV! em comemoração ao programa de número 300, exibido no horário das 20h52 às 23h16, foram na média de 10 pontos, com pico de 14. Na reprise que foi exibida na sexta-feira (24/7), o Pânico marcou média de 8 pontos, com pico de 12. A considerar a guerra entre os três titãs na grade dominical, é de se pensar se realmente em outras esferas investir no novo também não pode ser bom e interessante.

Citar uma coisa ou algumas não faria jus a tudo que se passou nestes 300 programas. A qualidade das imitações realizadas, seja de artistas ou políticos, bate fácil o moribundo Casseta e Planeta. As personagens inéditas talvez percam apenas para as clássicas e empoeiradas personagens do A Praça é Nossa.

Oxalá que as novidades comecem a ter espaço na mídia brasileiro, pois enquanto a maioria das emissoras está a pagar por formatos, algo nativo se criou.

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista

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