Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / SUSAN WATKINS

50 anos da New Left Review

Por Claudia Antunes em 30/03/2010 na edição 583

O aviso caberia na capa da New Left Review, que completou 50 anos no início deste ano cada vez mais corrosiva em relação tanto a seu velho nêmesis – ‘a ordem capitalista e suas guerras’ – quanto sobre mudanças positivas com a ascensão de novas potências, como a China.

Cética, mas não niilista. Nascida como expressão de intelectuais e ativistas anti-imperialistas e anti-stalinistas, a NLR mantém a aposta num modelo de organização social ‘pluralista, igualitário e universalista’. Nele, segundo sua editora, Susan Watkins, as necessidades do homem não são ‘reduzidas às do consumidor’.

Watkins afirma que a internet fez bem à NLR – com circulação bimensal de 8.500 exemplares, dos quais mil são assinaturas de universidades, a revista tem 50 mil leitores regulares de sua versão on-line.

Possui ainda uma editora, a Verso, que publica, entre outros, o historiador Perry Anderson, seu antigo editor, e o filósofo esloveno Slavoj Zizek.

Watkins frisa o pluralismo dos colaboradores – ‘o critério são ideias interessantes, críticas, pontos de vista não oficiais’. Leia abaixo trechos da entrevista que concedeu à Folha, feita por e-mail.

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O que resta das bandeiras políticas da época da criação da NLR?

Susan Watkins – O mundo dos anos 60 –com seus movimentos anticolonialistas dinâmicos, seu espectro de diferentes Estados dos trabalhadores, sua vibrante cultura estudantil e intelectual de esquerda– não existe mais. Mas felizmente muitos pensadores daquela época estão conosco, produzindo críticas ricas da política, da economia e da cultura. É um estímulo para jovens radicais nas universidades, sindicatos ou movimentos de protesto poderem debater com eles problemas de hoje.

Num editorial de 2000, Perry Anderson chamou a esquerda a compartilhar seu ‘registro lúcido da derrota histórica’. Seu último editorial mantém o ceticismo e descarta como catalisadores de mudanças os movimentos ‘altermundialistas’ surgidos nos anos 90. Em que erraram?

S.W. – O movimento ‘altermundialista’ não desapareceu, mas não conseguiu dar origem a um movimento antiguerra vibrante, que fez muita falta nos últimos dez anos. Nesse aspecto, se mostrou estéril. Mas, claro, os governantes mundiais caíram em silêncio sobre as maravilhas da globalização neoliberal desde 2008.

Ficou surpresa com o fato de a recessão causada pela crise financeira não ter provocado grandes protestos nos países afetados?

S.W. – A ausência de protestos de massa até agora foi estranha, mas talvez não surpreendente. Por definição, os países mais afetados pela crise –aqueles em que a financeirização da economia e a dependência de serviços e bolhas imobiliárias foram mais extremas– não têm mais movimentos organizados de trabalhadores: Espanha, Irlanda, Grécia, Reino Unidos e os próprios EUA.

Mas é muito cedo para dizer que não haverá protestos, sob qualquer forma.É o caso do voto contra o Partido Democrata em Massachusetts [em janeiro], que o governo Obama certamente entendeu como um protesto contra as políticas de Timothy Geithner na Secretaria do Tesouro.

Em segundo lugar, é muito cedo para dizer o que acontecerá nas economias que estão indo bem: China, Índia, Brasil. Qual seria o efeito de uma crise de sobreprodução na China, se a recessão for combinada com inflação alta? Teremos que esperar para ver.

Em sua última entrevista, à NLR, o sociólogo Giovanni Arrighi [1937-2009] disse que preferiria não chamar de socialismo um novo sistema mundial com mais igualdade entre os homens e mais respeito pela natureza. Concorda com ele?

S.W. – Os partidos que se intitulam socialistas talvez tenham feito mais do que os conservadores para apoiar a ordem capitalista e suas guerras, então não surpreende que as pessoas estejam enojadas. Um novo paradigma será construído por um processo coletivo, não na cabeça de alguém. Mas, para ser efetivo, precisará ser pluralista, igualitário (claro) e universalista –abraçando o conceito de desenvolvimento humano universal, ao qual o capitalismo liberal, com sua redução das necessidades humanas às do consumidor, fez tão mal.

Alguns colaboradores da NLR veem a China como herdeira do pior do capitalismo, enquanto outros ainda veem traços de socialismo. Qual é a sua opinião?

S.W. – Os mais incisivos críticos da China têm sido os chineses, escrevendo do ponto de vista dos trabalhadores e camponeses. Com certeza as esperanças para uma China que era tanto mais igualitária quanto mais livre e aberta foram esmagadas na praça Tiananmen, em 1989. Mas a questão sobre se o modelo econômico abraçado pela liderança do PC chinês desde 1992 o trancou de maneira irrevogável no papel de ‘governanta dos EUA’ ainda pode estar em aberto.

A NLR tem sido crítica do governo Lula. A senhora tem expectativas para o pós-Lula?

S.W. – Lula parece ter levado o programa de modernização neoliberal de Fernando Henrique Cardoso a um conjunto estranho de compromissos, entre o governo central e os Estados, entre as grandes instituições financeiras e o trabalhador-consumidor. Resta ver se esses compromissos constituem um novo sistema duradouro, que pode servir a quem quer que o suceda, ou se são dependentes de haver um líder trabalhista como Lula na direção. Mas a outra grande questão é: o que vai acontecer à economia brasileira em 2011 ou 2012 –quão sustentável é o crescimento atual?

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