Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > CRÍTICA

Campeão da virulência

Por Matías M. Molina em 04/10/2011 na edição 662
Reproduzido do Valor Econômico, 30/9/2011

Apenas 49 dias depois de perder, por dívidas, o controle de A Manhã, Mário Rodrigues lançou o jornal Crítica com a ajuda do vice-presidente da República, o mineiro Fernando de Mello Viana. Em troca, ele se comprometia a apoiar o governo do presidente Washington Luís e a usar toda sua renomada truculência contra Getúlio Vargas e a Aliança Liberal. Paradoxalmente, foi o próprio Mário Rodrigues quem lançara, um ano antes, a candidatura de Getúlio, então ministro da Fazenda, à Presidência da República.

Rodrigues levou para Crítica uma boa parte dos jornalistas e colaboradores de A Manhã. O novo jornal, um matutino de oito páginas, com informações de política na primeira e de polícia na última, foi lançado em 21 de novembro de 1928. O preço, de apenas 100 réis, era um dos chamarizes do jornal. O tom panfletário e demagógico ficou evidente no slogan no alto da primeira página: “Declaramos a guerra aos ladrões do povo”.

A manchete do primeiro número dizia: “A Revolução é inevitável. Ela corrigirá os erros e a mentalidade política que está dissolvendo o Brasil!” Até os antigos leitores devem ter ficado chocados quando Crítica publicou uma fotografia do conde Francisco Matarazzo, em quatro colunas na primeira página, com a palavra “LADRÃO!” escrita na testa. Uma reportagem o acusava de irregularidades no comércio de café. O conde abriu uma queixa-crime e o jornal iniciou a publicação do folhetim “O Abutre”. Quando, uma semana depois, o processo foi retirado, Crítica continuou com a série, lembra Ruy Castro.

O feitio visual da Crítica de Mário Rodrigues tinha por modelo a Crítica argentina, ambas uma criação de Andrés Guevara

Como A Manhã, de quem foi uma continuação e com quem a comparação é inevitável, Crítica foi um sucesso extraordinário desde o começo. Poucos meses depois do lançamento, dizia estar vendendo 130 mil exemplares, número certamente exagerado, assim como parecia duvidoso o slogan de “o matutino de maior circulação no Brasil”, mas é indiscutível que tinha uma das tiragens mais altas do Rio.

A Manhã, que tinha ultrapassado o Correio da Manhã, até então o mais combativo dos jornais, como modelo de destempero, agressividade e falta de autocontrole, foi amplamente superada em virulência pela Crítica. Era ainda mais violenta e extremada. Um verdadeiro libelo diário. Na opinião de Herman Lima, era o “jornal mais agressivo talvez de todos os que já apareceram no Brasil, em todos os tempos”. Para Ruy Castro, A Manhã, comparada com Crítica, parecia ter sido tão inofensiva quanto o Almanaque da Saúde da Mulher. Não surpreende que a vida de Crítica fosse curta e tivesse um fim trágico. Durou menos de dois anos, a metade que A Manhã.

Mas na curta existência deixou sua marca na história do jornalismo brasileiro. As linhas gerais do projeto gráfico de Crítica, como também o de A Manhã, têm sido elogiadas pelos estudiosos da imprensa, assim como suas charges, caricaturas e ilustrações. No jornal de Mário Rodrigues, a contundência da imagem era tão importante quanto a virulência da escrita.

O projeto, “visualmente sensacional”, foi preparado pelo paraguaio Andrés Guevara, que já se tinha destacado como caricaturista e projetista em A Manhã. Ao comemorar seu primeiro aniversário, Crítica menciona o impacto do primeiro número, do qual foram impressos cem mil exemplares. “A folha, com suas páginas movimentadas, seus comentários palpitantes, se afastava, e muito, da feição de todos os outros jornais. Era o letreiro luminoso, alguma coisa de novo, de leve, de latente. (…) À tarde, ainda se lia e comentava o novo matutino. Os velhos profissionais afeitos à rotina estranharam aquela variedade de títulos, os grisês. Não é um jornal – diziam – é um carrossel. É que tudo em Crítica se movimentava, ocasionando surpresas, fora do usual. Mas o público compreendeu. E gostou. Não houve encalhe.” O jornal afirma também que o padrão gráfico chocou “os moldes antiquados e rotineiros da maioria dos nossos periódicos”.

A fonte de inspiração do novo jornal estava na Argentina. O nome do maior jornal popular de Buenos Aires da época, e que ainda é lembrado com admiração na história do jornalismo argentino, era, precisamente, Crítica, sem o artigo, como seria depois o do diário de Mário Rodrigues. O logotipo da Crítica do Rio de Janeiro era idêntico ao da Crítica de Buenos Aires, que tinha sido fundada em 1913. Não foi coincidência: Andrés Guevara fora desenhista e projetista gráfico da Crítica argentina e participou do projeto e lançamento da Crítica brasileira. Herman Lima faz referência à paginação moderníssima da Crítica carioca, “nos mesmos moldes de sua congênere de igual nome, de Buenos Aires, e sob a orientação do artista paraguaio.”

Graficamente, chamavam a atenção o tratamento dado às fotografias, que tinham expressão e movimento, os desenhos do próprio Guevara, um dos melhores ilustradores da história brasileira, e os do mexicano Enrique Figueroa. Diz Ruy Castro que os dois desenhistas revolucionaram em Crítica toda a caricatura brasileira. Na verdade, Guevara já a tinha revolucionado em A Manhã. As manchetes da Crítica, segundo Nelson Rodrigues, eram “um berro gráfico, um uivo impresso”. Se em A Manhã Guevara se tinha notabilizado pela agressividade de seus desenhos, na Crítica ele aumentaria a dose, acompanhando a fúria dos editoriais de Mário Rodrigues. Como diz Herman Lima, Guevara “foi talvez o que mais virulentamente já exerceu no Brasil o direito de ferir os adversários, no uso do lápis, não como bisturi, mas contundente e mutilante, muita vez, como uma espada, a ponto de ficarem algumas de suas composições entre os espécimes mais cruéis do gênero”.

Washington Luís também foi alvo das charges do jornal, mas, como seu governo pagava a conta, seria tratado com maior consideração

Do chargista Enrique Figueroa, mexicano de Guadalajara, se diz que combateu na Revolução Mexicana ao lado de Pancho Villa. Ele e Guevara foram, no Brasil, “os maiores cultivadores do retrato deformante que já atuaram em nossa imprensa, muita vez insuperáveis mesmo sob esse aspecto”. Tiveram uma “influência avassaladora” e abriram o caminho para os caricaturistas de gerações posteriores. Destacam pela “terrível argúcia em fixar os tiques fisionômicos mais grotescos da pessoa, a tendência a estilizar até o fantasmagórico a face humana.” Figueroa, porém, é mais cordial em suas caricaturas. O desenhista Alvarus (Álvaro Moreyra) disse que como um grande “portrait-chargista”, Figueroa deixou escola à qual se filiaram ele e um grande número de desenhistas.

Figueroa teve um fim digno de uma reportagem policial de Crítica. Tinha momentos de intemperança e morbidez e era assistido por um admirador, o professor Juliano Moreira, diretor do Hospital da Praia Vermelha. Numa recaída violenta, em plena galeria Cruzeiro, Figueroa foi jogado no xadrez, ao cair feriu o cotovelo e teve gangrena. Foi transferido ao Hospital Evangélico, onde morreu.

O eterno inimigo de Mário Rodrigues, o ex-presidente Arthur Bernardes, agora senador, continuava sendo um alvo privilegiado do seu amplo vocabulário de insultos: “réprobo”, “urubu sanguinolento”, “hiena insaciável”. Nenhum outro presidente da República sofreu mais tenaz e vigorosa campanha, combate mais feroz e pessoal do que Bernardes. Henrique Pongetti diz que se o Arthur Bernardes de Guevara “tinha orelhas de morcego, olheiras de hiena, rabo de demônio e asas de coruja [era] porque o povo via, na sua segregação palaciana, no seu horror de todos os bichos e fantasmas consagrados pelo terror folclórico.”

Washington Luís também foi alvo das charges do jornal, mas, como seu governo pagava a conta, seria tratado com maior consideração. Crítica publicou alguns desenhos jocosos, mas não arrasadores. Num deles, famoso, foi chamado “o presidente da fuzarca”, fazendo eco do editorial de Mário Rodrigues, “A mensagem da fuzarca”. Na charge, o presidente puxa a orelha de um garoto (a Câmara), enquanto outro (o Senado) olha espavorido; ambos com esparadrapo na boca.

A fúria dos editoriais, dos sueltos e dos desenhos foi direcionada contra a Aliança Liberal. Segundo Herman Lima, “o novo jornal de Mário Rodrigues [ficou] entregue logo à mais furiosa campanha de difamação pessoal em massa, em que já se viu envolvido qualquer jornal no Brasil, ridicularizando sanhudamente, pelo lápis de Guevara, os homens da Aliança Liberal, tanta vez em charges verdadeiramente sangrentas”.

Mário Rodrigues, que já estivera na prisão anteriormente, foi preso do novo por implicância do chefe de polícia, que tinha sido objeto da fúria do jornal. Isto o levou a arrogar-se o título de “campeão carioca de xadrez”.

No jornal, as áreas que recebiam maior atenção eram política e de polícia. Mas, ao contrário dos jornais populares atuais, Crítica tinha também uma boa cobertura de assuntos culturais, literatura e artes, e contava entre seus colaboradores alguns dos mais famosos nomes das letras. Foi também o primeiro jornal a dar destaque à cobertura esportiva, com Mário Rodrigues Filho. A página policial competia com a cobertura política em truculência: “Matou o próprio irmão a facadas”, gritava uma manchete. Para popularizar a reportagem e conquistar a colaboração da população, o jornal criou a “Caravana de Crítica”, um “grupo impávido de criaturas perspicazes e intemeratas” que acudia aos locais onde se registrava algum acontecimento que alimentasse a imaginação popular. Algo como: “Não respeitando a alcova conjugal, a adúltera foi surpreendida, em flagrante, nos braços do amásio.” Ou: “Quis livrar-se do espírito do mal e foi morto a soco e pauladas”. De grande repercussão foi a “escandalosa crônica” do padre Eugênio Hoetting, vigário de São João de Meriti, um “libidinoso sacerdote” de “alma satânica”, segundo o jornal. Os leitores eram transformados em repórteres. “Cada leitor – segundo Crítica – conhece um caso sensacional que desejaria ver publicado”. Como incentivo, oferecia todas as terças-feiras 100 mil réis para o melhor caso.

Os leitores eram convidados a ser repórteres: o jornal oferecia todas as terças-feiras 100 mil réis para o melhor caso relatado

A reportagem ultrapassava A Manhã em imaginação e iniciativa. A ilustração “reconstituía a cena do crime com um toque tão dramático, erótico e sensacionalista quanto o texto, que era de um mau gosto violento e propositado; (…) o desenho era de um acabamento e qualidade de primeira,” diz Ruy Castro. O ilustrador da página era Roberto Rodrigues, filho de Mário. “Os seus trabalhos – segundo escreveu Crítica –, inspirados nos episódios mais impressionantes do fato do dia, dão ao noticiário; transmite aos leitores curiosos, as emoções de uma tragédia, o horror de um crime bárbaro, o frisson de desastres”. Roberto Rodrigues seria personagem involuntário de uma tragédia como as que tão cruamente retratava para Crítica. Mas ele não estaria lá para ilustrá-la.

Uma mulher jovem, excepcionalmente atraente, loira, cheia de corpo, elegante, entrou na redação de Crítica e atraiu os olhares. Perguntou pelo “dr. Mário”. Como não tinha chegado, nem Mário Filho, quis falar com Roberto Rodrigues: “Eu não lhe disse que não publicasse?” e deu-lhe um tiro no abdômen, a meio metro.

A mulher era Sylvia Seraphim, colaboradora de vários jornais. Crítica tinha ocupado toda a primeira página da edição desse mesmo dia para dizer que ela estava desquitando-se do doutor João Thibau Jr. e que os depoimentos ouvidos eram “comprometedores” de sua honra. Dava até o nome do sedutor, o doutor Manuel Abreu, “clínico de nomeada”, e contava as técnicas usadas na sedução. Sylvia fora até o jornal, no dia anterior, para impedir a publicação. Como não conseguiu, no dia seguinte foi a uma loja de armas, “A Espingarda Mineira”, comprou uma pequena pistola Gallant, niquelada, voltou ao jornal e atirou no primeiro Rodrigues que encontrou: “Queria matar o doutor Mário Rodrigues ou o seu filho. Estou satisfeita”. Roberto foi para o hospital. Era 26 de dezembro. Morreu na madrugada do 29.

Críticacomeçou uma violenta campanha de vingança. Durante 267 dias, publicou uma foto de Sylvia, “proibitivamente linda e sorridente” e o título “JUSTIÇA! JUSTIÇA! MERETRIZ ASSASSINA!” E um texto chamando-a “esposa adúltera”, “mãe infame”, “cadela de rua”. Presa, Sylvia alegou uma crise de apendicite e foi removida para um hospital a fim de ser submetida a uma extração de apêndice que nunca chegou a ser feita. Segundo um repórter de Crítica que fingiu doença para ser internado no mesmo hospital, Sylvia se alimentava bem, passava o dia cantando e saía durante a noite. Mário Rodrigues estava atordoado: “Essa bala era para mim!”. Morreu dois meses e meio depois do filho.

A maioria dos jornais apoiou Sylvia. O Diário da Noite, de Assis Chateaubriand, escreveu: “Justo atentado!” Um artigo de Sylvia para A Gazeta, de São Paulo, era “O direito de matar”. O julgamento parecia um circo. As portas foram abertas e as sessões foram transmitidas pelo rádio e por alto-falantes instalados na rua. Em quinze horas de julgamento, foi absolvida: tivera “privação temporária dos sentidos,” disse a sentença. Quase todos os jornais aplaudiram. Era agosto de 1930.

Sylvia teria um fim tão trágico quanto o do homem que matou. Apaixonou-se por um oficial do Exército e teve um filho, mas ele não quis casar. Cortou os pulsos, quase morreu. Levada a um hospital, desta vez conseguiu: tomou um vidro inteiro de Veronal. Uma história trágica digna de Crítica ou de uma peça de Nelson Rodrigues.

Mário Rodrigues, pouco antes de morrer, tinha aconselhado sua mulher para que, depois de ele partir, vendesse o jornal para Júlio Prestes, candidato à Presidência com a ajuda de Washington Luís: “Ele quis comprá-lo no ano passado”. Mas já era tarde. A Aliança Liberal tomou o poder e Crítica, assim como todos os jornais que fizeram a aposta errada apoiando o governo de Washington Luís e a candidatura de Prestes, foi empastelada e destruída em outubro de 1930. Todos os outros jornais conseguiram voltar a circular, menos Crítica. Só em 1935 a família entrou com um processo de indenização, que ficou parado durante vários períodos. Apenas em março de 1955, um quarto de século depois da destruição do jornal, é que os herdeiros de Mário Rodrigues ganharam o processo contra a União e foram indenizados: 136 milhões de cruzeiros, equivalentes a US$ 1,8 milhão da época.

Hoje, Crítica e seu fundador são pouco lembrados. Se alguém menciona o nome de Mário Rodrigues é, quase sempre, como pai de Nelson, escritor de teatro, ou de Mário Filho, que fundou o Jornal dos Sports e emprestou seu nome ao estádio do Maracanã.

Nelson Werneck Sodré diz que Crítica foi o seu canto de cisne e que Mário Rodrigues, esquecido quase inteiramente, era “uma das figuras mais interessantes e mais características do jornalismo brasileiro, com todos os seus grandes defeitos, de certo modo compensados por uma tarimba e por uma visão de imprensa que poucos tiveram, em seu tempo, e ninguém mais do que ele”. Se é difícil concordar com Sodré em que os grandes defeitos de Mário Rodrigues foram compensados pela sua visão de imprensa, é necessário reconhecer que ele foi um dos grandes inovadores do jornalismo brasileiro. Felizmente, sua maneira truculenta de tratar os homens públicos ou privados nunca foi superada ou sequer igualada.

***

[Matías M. Molina é jornalista e autor de Os Melhores Jornais do Mundo]

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