Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > ACERVOS DIGITAIS

As histórias da imprensa serão reescritas

Por Mauro Malin em 17/07/2012 na edição 703

Hemerotecas como as da Biblioteca Nacional e da Biblioteca Mário de Andrade permitiram desde sempre o trabalho de historiadores da imprensa e outros pesquisadores. Mas essas coleções de jornais, em papel ou mesmo microfilmadas, limitam seriamente a capacidade humana de realizar, em espaço de tempo razoável, um mergulho nas entranhas dos jornais, a menos que se trate de investigação com foco muito restrito.

Agora, coleções digitalizadas colocadas à disposição de assinantes (O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo) ou de qualquer cidadão (Acervo Digital da revista Veja e parte das edições da Última Hora, no site do Arquivo Público do Estado de S. Paulo), permitem exame muito apurado do que foi escrito e ficou para a História.

Algumas interpretações ganham plena confirmação. Outras, confrontadas com o “preto no branco”, vão para o vinagre ou, hipótese mais amena, devem ser postas em banho-maria.

Os golpistas de 1962-64

Na primeira categoria se insere a afirmação de Venício A. de Lima, neste Observatório da Imprensa (“Os vetos de Jango que a Abert derrubou“), de que uma “Rede da Democracia”, formada por centenas de emissoras de rádio e jornais, promoveu antes de 1964 combate diário ao governo do presidente João Goulart, “preparando a opinião pública para o golpe de Estado perpetrado em nome da liberdade e da democracia.”

O professor Venício, com propriedade, estabelece uma correlação entre a resistência de emissoras de rádio e televisão a itens da regulamentação de 1962 (absurdamente, vigente até hoje) e a liberdade para exercer atividades panfletárias, sediciosas, antidemocráticas.

Convém aos que não viveram o período ter um quadro razoavelmente nítido do que foi o bombardeio golpista antes de 1º de abril de 1964. No livro O Brasil sem retoque, 1808-1964, vol. 2, o jornalista Carlos Chagas cita declaração dada por Goulart, em seu exílio no Uruguai, ao jornal carioca Diário de Notícias: “Caí abatido pela conjura dos poderosos que estabeleceram o controle total dos meios de difusão. Foi fácil o envenenamento da opinião pública e dos escalões intermediários das Forças Armadas.”

Golpismo antigo

Houve, é certo, muito mais do que isso. Para não recuar até o golpe do Estado Novo, em 1937, pode-se dizer que a queda de Jango começou em outubro de 1945, quando Getúlio Vargas, ditador, foi deposto por um golpe militar. Surge inevitavelmente a pergunta: se era ditador e foi deposto, onde está o problema?

Assunto polêmico. Basta afirmar que à queda de uma ditadura não necessariamente se segue a ascensão de uma democracia. Há países com problemas étnicos, religiosos, com clivagens históricas tão graves que, neles, destituir os mandantes de plantão pode significar a liberação de forças antagônicas que só encontram reacomodação após um período mais ou menos longo de confrontos sangrentos e cruéis, que por sua vez deixarão sequelas capazes de impedir ou dificultar uma verdadeira democratização.

A extinta RDA (República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental) surgiu depois da derrota do ditador Adolf Hitler. De democrática nunca teve rigorosamente nada. Fidel Castro derrubou a ditadura de Fulgencio Batista e se perpetuou no poder mediante uma ditadura partidário-dinástica. Não há garantia de que a sucessão de Hugo Chávez (algum dia vai acontecer) fará da Venezuela um país mais democrático. Há países que nem sobrevivem ao fim de uma ditadura, caso da Iugoslávia após a morte de Tito.

Marco da história contemporânea foi o desaparecimento da União Soviética. Não se tratou apenas do fim do regime soviético. O império, como previra em 1978 a historiadora francesa Hélène Carrère d’Encausse (L’Empire Éclaté, sem tradução no Brasil), explodiu. A democracia na Rússia de Putin é tanto uma realidade quanto uma esperança. Se ele viesse a ser derrubado, não se conhece hoje nenhum potencial substituto capaz de encaminhar democraticamente as tensões latentes e patentes.

Os exemplos poderiam se suceder ad nauseam (literalmente).

Constituinte com Getúlio

Em 1945, varguistas e comunistas, entre outros, propunham que o ditador ficasse no poder até a conclusão dos trabalhos de uma assembleia constituinte. Temiam que seu sucessor fosse um militar reacionário, como, de fato, aconteceu. Eurico Gaspar Dutra fez marketing de defensor do “livrinho” (um exemplar da Constituição de 1946 que exibia para protestar convicções legalistas), mas seu governo reprimiu ferozmente comunistas e correntes ligadas a movimentos sociais.

Dutra nunca teve credenciais democráticas. Foi ministro da Guerra, pró-Alemanha nazista enquanto isso foi possível, durante todo o Estado Novo. A Guerra Fria o ajudou a ser duro. Os comunistas foram cassados e caçados em 1947-48. Isso os fez trocar a concepção fazer política dentro do regime democrático pela conclamação à luta armada, claramente enunciada em 1950.

Em 1956-58, voltariam a valorizar o jogo democrático, mas a terrível frustração de 1964 levou vários deles a criar ou reforçar partidos que, sacrificando seus integrantes numa luta armada condenada à derrota, deram combustível para a repressão da ditadura.

O varguismo demonizado

Voltemos ao Brasil dos anos 1950. Nove anos depois de ter sido deposto pelos militares que o haviam respaldado, Vargas, agora presidente pelo voto popular, não consegue terminar seu governo: suicida-se para não ser obrigado a renunciar, como exigiam, entre outros, O Estado de S. Paulo. (No dia em que Getúlio se matou, 24/8/1954: “Continua, em S. Paulo, no Rio e em outros lugares, um movimento civil para que as tropas armadas convençam o chefe da Nação de que deve abandonar o cargo.”)

Em 1955, Juscelino Kubitschek provoca a terceira derrota eleitoral sucessiva de um candidato da UDN (União Democrática Nacional) à presidência da República. O Estadão, novamente, apoia o golpe em marcha para impedir a posse de JK, atalhado pelo ministro da Guerra, general Henrique Lott, mediante um contragolpe. Na visão de Júlio de Mesquita Filho, proprietário do jornal, tudo que tivesse ligação com Getúlio Vargas – como Kubitschek e o vice-presidente com ele eleito, Goulart − deveria ser ferreamente combatido.

JK governa com extraordinário sucesso. O jornalista e historiador Oscar Pilagallo escreveu:

“Na política, houve respeito às regras democráticas, algo raro naqueles tempos. Na economia, a transformação foi enorme: no quinquênio encerrado em 1960, o país registrou expansão média de 8,1% ao ano, com o crescimento puxado pela indústria. Na sociedade, prevaleceu o otimismo irradiado por JK.” (A história do Brasil no século 20 – 1960-1980.)

Entre 1945 e 2003, Juscelino foi o único presidente civil eleito diretamente a passar a faixa para outro civil eleito diretamente, Jânio Quadros (em 2003, Lula sucederia Fernando Henrique Cardoso). Jânio renuncia sete meses após tomar posse (governa entre 31/1/1961 e 25/8/1961).

A cúpula militar que ele havia nomeado se opõe à posse do vice-presidente (re)eleito (em outra chapa, a do general Henrique Lott, candidato da coligação PSD-PTB), João Goulart. O país tangencia a guerra civil. Instaura-se o parlamentarismo como solução de compromisso. Um plebiscito, em janeiro de 1963, restaura o regime presidencialista.

Mau desfecho da crise

O Brasil vive, desde 1930, um processo de industrialização e urbanização que desloca parcialmente do poder os herdeiros do regime latifundiário escravocrata. Ao intenso conflito político que se desdobra desde o suicídio de Vargas combinam-se mobilização social e crise econômica provocada por inflação em alta e drástica redução do crescimento (em valores de 2009, o PIB per capita passa de US$ 2,1 mil em 1956 para US$ 2,8 mil em 1961 e estaciona em US$ 2,9 mil entre 1962 e 1964).

Chega o momento a que se refere o professor Venício. A pretexto de impedir a criação de uma “república sindicalista” – nunca se explicou direito o que queria dizer essa expressão, atribuída ao mais feroz antagonista de Jango, o jornalista, ex-deputado e então governador Carlos Lacerda −, conservadores e reacionários civis e militares põem em marcha uma conspiração.

Na verdade, pretendem corrigir: a) o resultado das urnas em 1960, quando Jânio e Jango foram eleitos para presidente e vice; b) o fracasso da tentativa golpista de Jânio, que pretendia subjugar o Congresso Nacional.

Fascismo, caldo de cultura de Jânio

Aqui, é preciso dedicar um parêntese a Jânio. Não só a ele, mas à sua primeira plataforma política, o prestigioso colégio paulistano Dante Alighieri. O colégio foi aberta e oficialmente fascista durante duas décadas (vide “Exercícios de memória seletiva“). Jânio começou a dar aulas no Dante (e no Vera Cruz) em 1938. Até 1943, o Dante obedecia ao governo de Benito Mussolini. “Seus diretores vinham especialmente da Itália e recebiam subsídios do governo fascista”, escreveu Viviane Teresinha dos Santos (Os seguidores do Duce: os italianos fascistas no estado de São Paulo, 2001).

Jânio, considerado o mais severo dos professores, era muito querido dos alunos. Lançou-se candidato a vereador de São Paulo em 1947. Pretendia sair pela UDN, mas só encontrou vaga no PDC (Partido Democrata Cristão). Valeu-lhe o apoio de ex-alunos e pais de alunos do Dante para angariar 1.707 votos, um dos últimos da lista. Se tivessem concorrido candidatos do PCB, não teria entrado na Câmara. Mas o Partidão havia tido seu registro eleitoral cassado em maio daquele ano.

Daí em diante, eleito sucessivamente deputado estadual, prefeito, governador, presidente, Jânio pintou e bordou com seus dotes carismáticos, sua capacidade de fazer o discurso e a pantomima apropriados a cada plateia. O Estado de S. Paulo, que antagonizara o governo de Jânio, em 1960 lhe foi simpático.

O Estadão foi possivelmente o mais udenista dos jornais brasileiros num estado em que a UDN jamais venceu uma eleição para governador (e os partidos adversários, PSD e PTB, também não brilhavam nas urnas; o malufismo não é um fenômeno fortuito – ao contrário, recolheu deserdados do ademarismo e do janismo). Daí, tudo indica, a convivência visceral com Lacerda, udenista bom de voto. Proximidade útil para colocar lenha na fogueira da ideologia conservadora, inútil para comandar eleitorado no território do jornal.

Mídia catapultou golpistas

Fechado o parêntese, registre-se que entre 1962 e 1964 a mídia terá papel decisivo na mobilização popular contra o governo. Os conspiradores tinham em mente um golpe de Estado. A maioria dos insatisfeitos com o governo de Jango não necessariamente desejavam um golpe − embora o golpismo seja uma velha tradição da política brasileira.

No começo de 1962, relata Carlos Chagas, os ex-ministros militares que haviam tentado impedir a posse de João Goulart – Odílio Denys (Guerra, hoje Exército), Sílvio Heck (Marinha) e Gabriel Grün Moss (Aeronáutica) – “enviaram emissários a Júlio de Mesquita Filho propondo a deposição do presidente Goulart e a instauração de uma ditadura ‘até a completa restauração do país’.”

Mesquita reage com uma carta que será o “roteiro da revolução”. Trata-se, na verdade, do roteiro para uma ditadura, que seria, porém, instaurada para o bem do povo. Com essa finalidade, até uma aproximação com o dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, foi digerida pelo Dr. Julinho.

Por outro lado, não se pode subestimar o golpismo enraizado nas cabeças dos governistas. Jango, em 1963, incitado por seus ministros militares, tentou fazer aprovar no Congresso o estado de sítio. Greves eram decretadas em assembleias manipuladas por ativistas do PTB, do PCB e de outros partidos. Em alguns casos, a greve não era aprovada, mas o trabalho cessava, devido a sabotagens, como descarrilar trens – prejudicando, no caso, milhares de passageiros. Alguém teve a ideia de instigar cabos e sargentos contra oficiais, sonhando, quem sabe, com a repetição da revolta de João Cândido (1910).

Ziguezague do Correio da Manhã

Nesse contexto extremado, com a Guerra Fria quase passando a conflagração apocalíptica na crise dos mísseis de 1962, em Cuba, o jornal carioca Correio da Manhã teve comportamento pendular, assinalado por Carlos Chagas. Esse caso merece atenção porque mostra a facilidade com que se pode perder a cabeça dentro de uma redação, ou na sala da diretoria, ou em ambas ao mesmo tempo.

Em 1955, o Estadão critica o Correio da Manhã por apoiar a posse de JK. Em 1961, lê-se em Brasil Sem Retoque, o jornal foi um “baluarte da legalidade, defendendo intransigentemente a posse do vice-presidente”. Mas desde 1963 o Correio aumenta o tom de suas críticas ao presidente. O paroxismo é atingido em 31 de março de 1964, com “Basta!”, e no dia seguinte, com “Fora!”.

Ironias da História, o primeiro editorial acusa o Executivo de, por interesses inconfessáveis, desencadear luta contra o Congresso, censurar o rádio, ameaçar “a imprensa e, com ela, todos os meios de manifestação de pensamento, abrindo caminho à ditadura”.

Do “Fora!”: “A nação não mais suporta a permanência do sr. João Goulart à frente do governo. (…) Contra a desordem, contra a mazorca, contra a perspectiva de ditadura, criada pelo próprio governo atual, opomos a bandeira da legalidade.” Etc.

Chagas comenta:

“Não se passou uma semana para que, dentro do espírito de liberdade que caracterizava o jornal, diversos repórteres e articulistas começassem a se manifestar contra [o novo governo] (…). Logo seguiram-se editoriais contra ‘o terrorismo, a delação, a violência e os excessos’. (…) A reação dos militares será violenta. Vão asfixiar economicamente o Correio, recusando-lhe publicidade oficial e pressionando as empresas multinacionais e nacionais para que não anunciassem. A cada ação oficial corresponderá uma reação do jornal no rumo da esquerda.”

A Última Hora e o Correio da Manhã logo denunciam violências contra presos. O Estadão levará meses chancelando a caça a “comunistas e subversivos” até publicar, com luvas de pelica, a primeira denúncia.

Conferir o que está escrito

Usar os arquivos digitais poderá levar a reavaliações. A Folha de S. Paulo fez intenso marketing de sua adesão à campanha das Diretas, em 1984. Hoje, enche a boca para condenar a “ditadura” (numa derrapada, atraiu reações coléricas em 2009 ao lançar em editorial, desmioladamente, a qualificação “ditabranda”, comparando o número de assassinatos de presos políticos no Brasil com os da Argentina e do Chile).

Há um relato das motivações e práticas da Folha no livro História da imprensa paulista: jornalismo de D. Pedro I a Dilma, de Oscar Pilagallo. Em síntese, o então proprietário do jornal, Octavio Frias de Oliveira, foi chamado em 1974, antes da posse de Ernesto Geisel, para uma conversa com seu futuro chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva. Golbery, escreve Pilagallo, “deu a entender que a Folha de S. Paulo poderia ter um espaço a explorar” na chamada distensão. E segue o autor:

“A iniciativa de Golbery se inscrevia num movimento mais amplo. Outros donos de jornais também foram procurados na mesma época. Geisel trabalhava com a hipótese de que o projeto de abertura política seria atacado pela linha dura do governo e, por isso, buscou o apoio da grande imprensa.”

“Jornal sórdido”

Ao longo dos anos seguintes, Frias, por via das dúvidas – e elas foram muitas −, manteve dois projetos ao mesmo tempo. Levando a sério o safo Golbery, mandatou Claudio Abramo, que entrara na Folha de S. Paulo em 1967, para reformar o jornal. Abramo se referia à Folha da Tarde, o outro jornal de Frias, como “jornal sórdido”. Abramo saíra do Estadão em 1962, quando seus patrões passaram a conspirar para derrubar Jango e a redação se tornou um campo de batalha.

Em 1969, a Folha da Tarde havia passado das mãos de um grupo de adeptos da luta armada e simpatizantes para as mãos de policiais ligados à repressão. Até ficar claro que a abertura levaria a melhor, esse jornal, cuja coleção ainda não está digitalizada no site da Folha, foi coadjuvante do regime.

Pilagallo ilustra o fenômeno com uma manchete de 1/6/1971 da Folha da Tarde: “Povo metralhado pelos bandidos da subversão”. Segundo o autor, “a Folha da Tarde policialesca duraria até meados de 1984”.

Carros de reportagem da Folha de S. Paulo foram usados para prender militantes de organizações clandestinas. Em represália, carros de entrega foram incendiados. Frias publicou um editorial intitulado “Banditismo”. Foi ameaçado e teve que morar com a família, durante alguns meses, no prédio do jornal, protegidos por seguranças armados com metralhadoras.

Recuo desprimoroso

A reforma da Folha de S. Paulo sofreu uma trombada do regime em setembro de 1977, período em que o governo de Geisel foi desafiado pelo ministro do Exército, Sílvio Frota. Abramo foi substituído por Boris Casoy. Mais adiante, o jornal retomaria seu impulso reformista.

A Folha de S. Paulo se tornou o jornal mais influente do país, muitas de suas escolhas editoriais foram modernizadoras e copiadas um pouco (ou nem tão pouco) por toda parte. Ainda aposta na emoção, mais do que na informação e no conhecimento, mas isso todos fazem, na esteira da televisão, leia-se TV Globo, cujos noticiários são teatralizados – a tal ponto que, com frequência, buscando a veemência ou a sublimidade poética, escorregam para a mera estridência e o patético.

Um exame atento e minucioso do material publicado poderá nuançar ou mesmo alterar as versões correntes sobre o passado da Folha e dos jornais e revistas que já colocaram ou vierem a colocar seu conteúdo na rede.

Tavares de Miranda

Caso curioso é o do colunista social Tavares de Miranda. Quem quiser conhecer melhor a história dele pode ler “A crônica esquecida: a trajetória do jornalista José Tavares de Miranda“, trabalho de Carlos Alberto da Silva finalista num concurso realizado em 2011 pelo projeto Folha Memória. Mas leia cum grano salis.

Tavares de Miranda transitou do comunismo exaltado, na juventude, para o anticomunismo feroz. Miguel de Almeida, jornalista que trabalhou com ele, declarou a Carlos Alberto da Silva:

“Tavares continuava sendo um velho comuna. Embora fosse ter, no futuro, preferências manifestas por Paulo Maluf, não era um cara identificado com a ditadura, com o final de eleições. Isso era completamente contrário ao ideário do Tavares.”

Helô Machado, em 1974 editora da Folha Ilustrada, onde saía a coluna de Tavares de Miranda, reforçou:

“Ele era um supercomunista, um detalhe maravilhoso e divertido, já que era um comunista fazendo colunismo social. Dessa maneira, Tavares deu uma guinada: provou que uma pessoa de ideais de esquerda pode não ter algemas e ser um profissional aberto para o trabalho.”

Defesa do brigadeiro Burnier

Essas pessoas não leram direito a coluna de Tavares de Miranda, ou, se leram, embaralharam suas memórias, por simpatia ao velho colega de redação, não isenta, nas palavras da editora Helô, da mais destrambelhada sociologia de botequim.

Um exemplo pinçado do período de aguda crise que precedeu a edição do Ato Institucional número 5 (AI-5, de 13/12/1968; ver “Correio da Manhã foi decisivo no caso Para-Sar“) mostra a virulência da pregação de Tavares de Miranda.

Edição de 6/10/1968:

“Está na cara…

Os intrigantes do retornismo articulam contra as Forças Armadas e agora especialmente contra a Aeronáutica uma série de intrigas [sic] que visam indubitavelmente à derrubada do regime instaurado pelo movimento Redentor de 64.

“Primeiramente, os subversivos desejam a queda do brigadeiro João Paulo Burnier e consequentemente do próprio ministro Marcio de Souza Melo tão-somente porque um e outro são empecilhos verdadeiros aos propósitos divisionistas dos inimigos da Revolução, que ainda não acabou e está em marcha, como bem disse ainda nesta semana em São Paulo o presidente Costa e Silva.”

A TFP distinguida

A coluna é ilustrada com uma foto de religiosos, sob a rubrica “Vida social”. A legenda revela quão desvairada é a ideia de que Tavares de Miranda fosse um “velho comuna”, ou um “supercomunista”:

“Durante visita a São Paulo, o cardeal José Slipyj, da martirizada Ucrânia, foi homenageado com uma recepção oferecida pela Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). Foto: o cardeal Slipyj entre Dom José Martenetz e o prof. Plínio Corrêa de Oliveira, presidente do Conselho Nacional da TFP. De pé, os bispos Dom Isidoro Boretsky (Toronto), monsenhor Miroslav Marusyn e sr. Bohdan Billinsky. Em tempo: durante 16 anos o cardeal Slipyj foi prisioneiro dos comunistas nos cárceres da famosa Lubianka.”

Como escreveu Guimarães Rosa: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

***

[Mauro Malin é jornalista]

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