Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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“Estamos cientes da lei brasileira”

Por Sérgio Dávila e Nelson de Sá em 23/10/2012 na edição 717

O site em português do jornal The New York Times, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2013, deve respeitar as leis brasileiras. “Absolutamente”, afirmou o publisher do jornal e presidente do grupo, Arthur Sulzberger Jr., durante entrevista à Folha de S.Paulo na tarde de terça-feira (16/10).

“Estamos cientes da lei”, responde ele, quando indagado sobre a exigência da Constituição de que a participação acionária de estrangeiros em empresas de mídia no Brasil se limite a 30%. “Estamos falando com as pessoas sobre o que isso significa e como podemos atingir nosso objetivo de maneira que siga as exigências legais.”

Sulzberger passou três dias em São Paulo, onde participou da 68ª Assembleia-Geral da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), encerrada na terça-feira (16). Na entrevista, o executivo de 61 anos falou sobre o futuro do jornalismo, o sistema de pagamento (paywall) por conteúdo digital do jornal e a sua sucessão no comando do grupo.

O sr. diz que o futuro do jornalismo é global e digital. Vocês estão desistindo do local e do impresso?

Arthur Sulzberger Jr. – De jeito nenhum estamos desistindo do local e do impresso. E por local eu quero dizer mais do que Nova York, mas os EUA, porque isso está na essência do que somos e do que fazemos. E eu penso que o impresso será parte essencial de nosso empreendimento por muitos anos.

Agora, olhando para a frente, conforme crescemos mais globalmente, o digital é o melhor veículo para esse crescimento, porque dá instantaneidade, permite usar ferramentas como vídeo. Mas aquelas são partes cruciais do nosso negócio e não vamos recuar delas.

Enquanto os nossos leitores quiserem o impresso, ofereceremos as notícias e informações no impresso. Mas a nossa capacidade de crescer claramente depende de ser mais internacional e digital.

É correto pensar que o “NYT” está voltando ao coração do seu negócio, quer dizer, ao jornal, depois de décadas de diversificação?

A.S.J. – Tínhamos rádios e emissoras de TV e revistas, tínhamos jornais regionais, também um braço digital, About.com, que acabamos de vender… Sim, estamos voltando para o coração do “NYT”, do “International Herald Tribune” e do “Boston Globe”, jornais com sites muito poderosos e com capacidade para expandir seu alcance.

O sr. acaba de anunciar que um jornalista será o próximo presidente-executivo da The New York Times Company. Isso tem relação com o que acaba de dizer?

A.S.J. – O fato de ter experiência jornalística não foi a razão por que contratamos Mark Thompson, mas o que ele traz como executivo, de seus anos no comando da BBC. Seu crescimento internacional, que tem sido marcante, é muito como nós nos vemos conduzindo a NYT Co.

Sua habilidade com vídeo é em grande parte o que precisamos levar para os nossos sites. Não precisávamos de alguém que entendesse de jornais, nós temos isso, podemos fazê-lo com facilidade. Precisávamos de alguém com uma visão mais ampla, novas ideias, foi por isso que ele se encaixou tão claramente no figurino. Que ele tenha começado como jornalista é uma vantagem, mas não a razão por que ele foi trazido.

O fato de ele ter sido parte de uma rede pública conta positiva ou negativamente?

A.S.J. – O fato de ser parcialmente financiada pelos contribuintes britânicos é verdade, claro, mas, conforme a BBC cresceu fora do Reino Unido, ela precisou cada vez mais encontrar outros métodos para levantar o dinheiro necessário para sustentar suas operações e seu crescimento internacional.

Portanto, ele compreende o mundo empresarial. E ele compreende o consumidor, e isso está no coração de tudo. Quais são as necessidades do consumidor, como você responde a essas necessidades: ele fez um trabalho extraordinário na BBC quanto a isso.

Entrevistamos John Ridding há duas semanas.

A.S.J. – Ah, John, sim, ele é um bom amigo.

Sim, ele falou que era seu amigo e pediu para dizer que chegou ao Brasil primeiro. [risos] Mencionou que foi também o primeiro em paywall poroso e no aplicativo em HTML5.

A.S.J. – [risos] Ficamos sempre felizes em ver o “Financial Times” ter êxito. John faz um trabalho extraordinário no “FT”, ele realmente faz.

Mas como o sr. encara o “FT” nesse futuro global que antevê para o “NYT”? Como um concorrente?

A.S.J. – Claro, mas ele é um concorrente saudável. O bom do “FT” é que se pode confiar no seu jornalismo. Tem grandes princípios e os respeita. Esses são os concorrentes que valorizamos e respeitamos.

Da mesma maneira como respeitamos o “Washington Post”, porque estamos jogando no… Ambos temos o mesmo objetivo: engrandecer a sociedade criando e coletando e distribuindo notícia e informação de alta qualidade.

Como classifica Rupert Murdoch, do “Wall Street Journal”, nesse campo?

A.S.J. – Rupert faz sua própria coisa.

Não o vê como seu concorrente?

A.S.J. – Claro, não há dúvida de que eles são muito… Há muitos tipos diferentes de concorrente, e ele é certamente um deles.

Ele também está investindo no Brasil. Acabou de lançar o Fox Sports aqui.

A.S.J. – Ah, é bom.

“WP”, “El País” e “Guardian” são jornais que não têm paywall e que atravessam tempos difíceis, com demissões e até greve no “El País”. O sr. vê futuro para os jornais que não cobram por seu conteúdo?

A.S.J. – Eu não acredito que exista uma única resposta que sirva aos problemas de todos os jornais. Toda organização noticiosa terá de aparecer com sua própria versão e testar e aprender e tentar novamente. Fomos abençoados porque o modelo de paywall que levantamos se mostrou muito bem-sucedido.

Houve um debate interno aberto sobre fazê-lo ou não. No fim, os que achavam que deveríamos fazê-lo e os que achavam que não estão todos dizendo, agora, “Sim, funcionou!”. Mas eu não digo que a resposta para o “NYT” seja para o “WP”. Eles têm de tomar sua própria decisão.

Qual é o próximo passo, em termos de paywall? Aumentar o limite de reportagens?

A.S.J. – Não temos planos de ajustar o limite neste momento. Nós erguemos o sistema de modo que ele possa ser ajustado de uma hora para outra, se decidirmos. Nós o construímos com essa flexibilidade, mas no momento não estamos planejando mudar o limite de 10 páginas. O foco agora é o crescimento internacional, começar a criar sites em múltiplas línguas, como já fizemos na China e planejamos fazer na segunda metade do ano que vem no Brasil –e prosseguir crescendo a partir daí.

Qual será o próximo país, depois da China e do Brasil? A Índia, para ficar nos Brics?

A.S.J. – Ah, não posso dizer.

Por que o Brasil? Tivemos solavancos na economia, isso não afetou sua decisão?

A.S.J. – Não, nem um pouco. Economias têm altos e baixos, é natural. Essa economia é forte e vibrante. O país tem potencial real para crescer para além de onde já está hoje. É a sexta economia no mundo e provavelmente será a quinta, não demora. Mais: sua taxa de crescimento diminuiu, porém as de muitos outros lugares estão encolhendo.

Mas é mais do que a economia. É a cultura, o crescimento da cultura brasileira. Ela está sendo abraçada ao redor do mundo de maneira muito mais vibrante. É um lugar excitante, e tínhamos de ser parte disso.

O site brasileiro, como o chinês, não terá paywall. Vocês estão apostando em publicidade nos dois mercados?

A.S.J. – Antes de mais nada, a publicidade é certamente parte, e estamos vendo publicidade muito, muito boa no site da China. E é publicidade de luxo, o tipo que esperávamos conquistar. Também temos de fazer o negócio crescer.

Não estamos dizendo que não vamos tornar os sites pagos em algum momento, mas vamos ver como eles se desenvolvem. Vamos dar a eles todas as oportunidades de atrair a audiência.

Como o sr. pretende lidar com a parte legal do empreendimento? A Constituição diz que organização noticiosa instalada no Brasil tem de ser 70% de propriedade de brasileiros e 30% de estrangeiros.

A.S.J. – Estamos cientes da lei. Vamos fazer tudo absolutamente de acordo com as leis no Brasil. Estamos falando com as pessoas sobre o que isso significa e como podemos atingir nosso objetivo de uma maneira que siga as exigências legais.

O sr. disse uma vez que o “NYT” é agnóstico em termos de plataformas. Ainda acredita nisso?

A.S.J. – Somos agnósticos quanto a métodos de distribuição. Eu disse isso em 2001. Sim, ainda acredito. Nós temos de estar onde os nossos clientes nos querem. Enquanto nos quiserem no impresso, estaremos no impresso. E, enquanto nos quiserem em outros aparelhos, precisaremos estar lá.

A matemática não mudou em séculos: jornalismo de qualidade atrai um público de qualidade, que nós podemos vender para anunciantes de qualidade.

A equação não mudou nada?

A.S.J. – Isso é absolutamente correto. No coração disso está o jornalismo de qualidade. A maneira como escolhem receber a informação cabe a eles. Nós temos de estar lá para eles.

Por quantos anos ainda o sr. vê as duas plataformas, digital e impresso, convivendo?

A.S.J. – Eu não posso responder, porque não sei a velocidade da mudança. Então temos de ser flexíveis. Enquanto as pessoas quiserem o impresso e pudermos fazê-lo com lucratividade, faremos. Quando disserem não, vamos reconhecer e mudar.

É como uma companhia de navios que quer se tornar uma companhia aérea. É a mesma missão, levar as pessoas através do oceano Atlântico, do Pacífico. Por que deveríamos nos importar se elas o fazem desse ou daquele jeito?

O sr. mencionou na SIP que alguns de seus assinantes ainda estavam no mesmo…

A.S.J. – Assinaturas residenciais por dois anos ou mais, cerca de 850 mil: isso tem se mantido estável há muito tempo.

E o sr. antevê um futuro longo para o impresso por causa disso, como mencionou?

A.S.J. – Eu tenho esperança e acredito que o impresso terá um futuro longo. Mas se acontecer uma mudança tectônica na maneira como as pessoas querem o jornal, não podemos ficar presos no que nós queremos. Temos de estar abertos ao que os nossos clientes querem.

Vocês anunciaram que terão uma plataforma em HTML5 [para aparelhos móveis]. É uma maneira de se livrar da ditadura da Apple, vamos dizer assim?

A.S.J. – Não, não é. Novamente, haverá diferentes caminhos, e temos de estar lá. E isso significa que você não pode dizer que só vai tomar um. Tem de estar aberto a múltiplos caminhos. Assim, eu tenho o “NYT” nos meus aparelhos Apple e também no site. Não é como o “FT”, que tomou a decisão de ficar sem o aplicativo da Apple.

Seu pai se aposentou como publisher aos 65 anos. O sr. tem 61. Tem planos para sua sucessão e aposentadoria?

A.S.J. – Sim, a família e o conselho de diretores trabalham duramente nisso. Ele se aposentou como publisher e seguiu como presidente por mais cinco anos. É algo que estamos olhando com atenção. Sou a quarta geração da família Ochs Sulzberger e há seis membros da quinta geração já na empresa.

Um é seu filho [Arthur Gregg Sulzberger]?

A.S.J. – Sim, e outro é ele [aponta para Michael Greenspon, gerente-geral da Divisão de Serviço Noticioso e filho de uma prima sua], pessoas em todas as partes da empresa. Dois na Redação, quatro no lado empresarial. Sim, é algo em que estamos muito focados.

Que outros jornais o sr. lê ou admira nos EUA? Lê alguma revista?

A.S.J. – Eu tomei a decisão, 35 anos atrás, de que poderia ler revistas ou ler livros, mas não ambos, então optei por livros. Fora o “Times Magazine” de domingo, não leio revistas. E nós tínhamos um colunista incrível, James Reston, nos anos 60, 70, 80, cujo mulher falou, de maneira célebre, “Você pode trabalhar no 'NYT' ou você pode lê-lo, mas não pode fazer ambos”. Portanto, ler o “NYT” toma um bocado de tempo. Mas o “FT” está com certeza na lista de outros jornais que eu admiro. O “WP” também está.

O sr. assistiu ao documentário “Page One”?

A.S.J. – Sim, é claro. [O colunista do “NYT”] David Carr é marcante, uma estrela de rock. Foi um desafio. Nós os trouxemos para dentro e eles estavam claramente fazendo algo na linha “como o jornalismo vai morrer e os jornais vão desaparecer”. Mas o que acabaram fazendo foi um filme que dizia: “Ei, espere, no coração disso está o jornalismo, e o jornalismo de qualidade funciona e se paga”. E aquela imagem de David segurando o site com os buracos, dizendo, “Por sinal, se não fosse por nós, essa seria a aparência do seu site”. Aquilo não tem preço.

O sr. se sente confortável com David Carr sendo, pelo menos para parte de seu público, a cara do “NYT”?

A.S.J. – Claro. Quer dizer, temos tantas caras no “NYT”. Tom Friedman é uma. Nick Kristoff é uma. Obviamente, [a editora-chefe] Jill Abramson é uma cara do “NYT”. O fato é que há tantas… Andrew Ross Sorkin. E o fato é que, no fim das contas, são pessoas brilhantes que fazem um trabalho incrível.

[Michael Greenspon:] Sabe quem também é a cara do “NYT”? [O correspondente no Brasil,] Simon Romero. [aplausos]

A.S.J. – Muito bem. E o fato é que o que reúne essas pessoas é que elas acreditam na missão do jornalismo de qualidade e no impacto que isso pode ter na sociedade, e isso é uma verdade extraordinária.

O sr. está, neste exato momento, atravessando uma negociação com o sindicato.

A.S.J. – O Guild, sim, nosso sindicato que representa os jornalistas.

Tem sido uma longa discussão, 18 meses.

E agora vamos para a mediação. O Guild nos procurou para irmos para a mediação, nós concordamos, então vamos agora diante de um mediador. Esse é o próximo passo do processo. É um grande passo. O mediador vai ouvir ambos os lados e tomar as informações e apresentar seus resultados. Nós pensamos que é o passo seguinte apropriado.

Faço essa pergunta porque o sr. sempre fala em manter a qualidade do jornal e que, diferente de outros, está mantendo sua redação quase intacta. O sr. vê motivo para preocupação?

A.S.J. – Não. Veja, tivemos demissões na nossa redação. Quatro anos atrás, tivemos que dispensar cerca de uma centena de pessoas, pagando ou demitindo. Tínhamos de reduzir o tamanho de nossa redação. Agora voltamos a contratar, acabamos de contratar algumas pessoas do “WSJ”.

Mas no coração do que estamos contratando está o talento digital, mídia social, vídeo, esse tipo, porque é do que precisamos para fortalecer o produto. Essas coisas… A vida não é um estado estável, você deve ter percebido. A vida não é só um caminho reto e plano. Tem solavancos, sobe, desce, gira. Eu cheguei ao “NYT” durante uma greve.

1979?

A.S.J. – 1978, eu acho. Quer dizer, foi um tempo muito duro. Não vimos nada parecido desde 1978. Então, tenho motivo para…

A.S.J.O sr. acaba de participar da SIP, este evento sobre jornalismo. Eu estava lá também e o que mais ouvi foi “não sei”. O futuro do jornalismo, o futuro das empresas de mídia, “não sei”. O sr. sabe o que o futuro reserva para o jornalismo e as empresas de mídia?

A.S.J. – Eu acredito de coração que o jornalismo de qualidade vai sobreviver, porque no fim das contas seu valor só faz crescer. Num mundo em que todos têm uma opinião, em que todos podem declarar fatos que são verdade ou, no mais das vezes, não são, a capacidade de produzir algo que rompa a confusão, que seja confiável, que traga juízo, está se tornando mais valiosa do que nunca. É por isso que eu acredito que o jornalismo de qualidade se paga e vai continuar a se pagar.

O sr. acha que pode vender essa visão para um cara de 20 anos que está baixando músicas ou filmes?

A.S.J. – Que tal um cara de 24 anos que acabou de conseguir seu primeiro emprego, que percebe que agora tem de comprar uma casa, que está começando a pensar em se casar? Talvez aos 30 ele tenha de resolver para que escola eles vão mandar seu filho, e se o sistema de escola pública presta, ou talvez em quem ele deve votar para prefeito.

Chega um ponto na vida de todo mundo em que, de repente, o que você costumava fazer não é mais quem você é. Quando você olha e diz, “Ok, eu tenho um lugar neste mundo, eu tenho de ganhar a vida, eu tenho de viver numa boa comunidade, eu tenho de tomar decisões que afetam meus filhos. Ah, acabou de bater: eu preciso de conhecimento”.

***

[Sérgio Dávila e Nelson de Sá, da Folha de S.Paulo]

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