Domingo, 30 de Abril de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº941

IMPRENSA EM QUESTãO > CRISE DOS IMPRESSOS

Fazer mais jornais, uma saída

Por Dirceu Martins Pio em 13/11/2012 na edição 720

Impressiona a leveza com que a Editora Abril faz revistas. Basta um piscar de olhos e ela já tem um novo título na rua. Se emplacar, mantém. Se não emplacar, fecha. É comum encontrarmos nas salas de espera dos consultórios médicos ou dos dentistas algum título novo, que nem sonhávamos existir. A “arvorezinha” está lá como que atestando a flexibilidade editorial e industrial da Abril.

A Abril foi uma das empresas que tentaram comprar o jornal Gazeta Mercantil, que começava a derreter com a crise que o atingiu em 2001 e seria responsável pelo seu fechamento em 2009. Se a transação tivesse ocorrido, representaria a entrada da Abril no mundo dos jornais. Será que conseguiria fazer jornal com a mesma leveza com que faz revistas? O mundo dos jornais precisa aprender a fazer jornal com mais simplicidade, a exemplo do que fazem os japoneses.

Nos anos 1990, o Estado de S.Paulo descobriu o segredo dos japoneses em produzir jornais interessantes e a custos reduzidos. Eu mesmo estive lá, na Nikkei, em Tóquio, como enviado da Agência Estado, para aprender como era possível editar vários títulos com base num único conteúdo. Fiz um relato do que vi para as redações do Estadão e do Jornal da Tarde. Os japoneses influenciaram mudanças e talvez tenham dado uma sobrevida de vários anos ao Jornal da Tarde, mas as operações para editar dois jornais continuaram pesadas, resfolegantes.

A dificuldade de fazer dois jornais

Os japoneses já haviam conceituado: para eles, a informação é o “peixe”; o “pescador” é o repórter. Ao ser fisgado, o peixe nunca vai direto para o supermercado (redação). Passa antes pelo que chamam de “câmara frigorífica” – um bureau de captação de informações – onde é processado. Devidamente retalhado, o “peixe” é então despachado para as redações – escama para quem usa escama; cabeça para quem usa cabeça; filé para quem usa filé.

O “bureau de captação” tal qual vi em funcionamento na Nikkei era independente, alimentava todas as redações, que eram pequenas, enxutas, tinham apenas um corpo de editores e um ou outro articulista especializado ou repórter especial. Dentro desse modelo, a Nikkei produzia 16 jornais na época, fora serviços informativos em tempo real. O custo operacional do “bureau”, responsável por mais de 80% da captação das informações do grupo, era rateado entre todas as redações.

O conceito japonês é usado a meia bandeira por alguns grupos de comunicação regionais, entre eles a rede de pequenos jornais Bom Dia, de J. Hawilla. Uma espécie de agência, que corresponderia ao “bureau” do Japão, fornece os conteúdos nacionais para a rede, que tem pequenas redações locais de edição e captação. Por esse critério, o empresário consegue fazer vários jornais a custos otimizados. Seu grande problema – ainda não resolvido – é captar conteúdos locais mais atraentes e que consigam seduzir os leitores dos municípios onde circulam os seus pequenos jornais com a pretensão de serem populares, com alta vendagem em bancas.

A indústria dos grandes jornais brasileiros ainda não sabe trabalhar com o conceito japonês. Suas operações são pesadas e geralmente concentradas na produção de um único veículo. O grupo Estado, por exemplo, acaba de tirar o Jornal da Tarde de circulação a pretexto de que suas energias precisam estar concentradas na locomotiva chamada O Estado de S. Paulo. Na verdade, o Estadão sempre encontrou dificuldades para fazer dois jornais e sempre se manteve distante da ideia de fazer mais de dois.

Inspiração para os grandes

Por certas idiossincrasias dos grandes, o espaço existente para pequenos jornais de bairro, para jornais gratuitos, populares e outros, segmentados, tem sido ocupado por empreendedores de origem difusa, sem compromisso maior com a qualidade da informação. Faltam mais jornais no portfólio dos grandes jornais brasileiros que sejam úteis para otimizar custos, maximizar os recursos – que não são baixos – aplicados na indústria gráfica e na distribuição.

Os novos tempos exigem foco também na plataforma digital. Talvez por isso, as empresas que editam um jornal nem pensam em lançar mais de um. São tempos de vacas magras, pois são também tempos de intensa disrupção. Ninguém mais ousa lançar jornais empolgantes, como foram o Jornal da Tarde e mesmo o regional Panorama, nos anos 1970, em Londrina, pelo empresário e ex-governador do Paraná Paulo Pimentel. Que não façam mais jornais empolgantes, compreende-se; que não façam mais jornais e jornais mais interessantes com base nos mesmos conteúdos, não se entende. É arriscado demais colocar todos os ovos no mesmo cesto.

Pelo menos dois grupos de atuação regional – RAC e RBS – têm comprovado, ao longo do tempo, as conveniências de distribuir os ovos por mais cestos. Agora mesmo, a RAC – Rede Anhanguera de Comunicação suprimiu a versão impressa do antigo Diário do Povo, veículo adquirido do ex-governador Orestes Quércia e que foi, digamos assim, posto de lado para não concorrer com a locomotiva da rede, o diário Correio Popular. A supressão não teve qualquer impacto na imagem da rede, tal a diversidade de títulos que ela lançou nos últimos anos. A RAC edita o tradicional e famoso Correio Popular em Campinas e mais o Notícia Já, Notícia Já Ribeirão, a Gazeta de Piracicaba, a Gazeta de Ribeirão, a revista Metrópole e o Panorama RAC. Ao que se informa, são títulos já consolidados e rentáveis.

Outro grupo que, no mundo dos impressos, optou pela diversidade é o RBS, detentor de várias emissoras de TV e de Rádio no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Seus impressos são líderes de mercado em toda a parte: Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro, Diário de Santa Maria, Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina, Jornal de Santa Catarina e o A Notícia. São jornais de circulação regional (Zero Hora, Diário Catarinense) ou local (Jornal de Santa Catarina, com circulação em Blumenau, e A Notícia, com circulação em Joinville). O grupo ocupou o mercado de impressos de Santa Catarina de tal modo que é acusado de monopólio pelos grupos concorrentes. De qualquer modo, dá demonstração de que passa ao largo da crise que assola os impressos no mundo todo e sua estratégia aparenta ser a de aproveitar a vitalidade econômica dos mercados regionais ou locais. Se operasse em São Paulo, com certeza o Grupo RBS já teria criado o jornal de Osasco, de Santo André, de São Bernardo, de Joinville, de Campinas…

RAC e RBS deveriam servir de inspiração para os grandes.

***

[Dirceu Martins Pio é ex-diretor da Agência Estado e Gazeta Mercantil e atual consultor em comunicação corporativa]

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