Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Da vaca louca às loucuras da Petrobras

Por Rolf Kuntz em 18/12/2012 na edição 725

Vaca louca é assunto tabu em Sertanópolis, norte do Paraná. Líderes locais decidiram silenciar sobre o tema depois de confirmada a presença, nos restos de um animal morto em 2010, da proteína causadora da encefalopatia espongiforme bovina. O ambiente na cidade de 15.638 habitantes, próxima de Londrina, foi descrito em reportagem no Estado de S.Paulo de domingo (16/12). Foi uma boa sequência de uma cobertura iniciada, sem muito barulho, mais de uma semana antes. Mais uma vez a grande imprensa foi ao campo, e mais vez a decisão foi tomada depois de um fato importante demais para ser ignorado.

A doença da vaca louca, até há pouco tempo assunto de estrangeiro, finalmente virou notícia nacional. A primeira informação saiu no Valor (7/12), uma sexta-feira: exames em uma vaca morta no Paraná haviam indicado a presença da proteína príon. A doença, transmissível aos humanos, infernizou a vida de europeus durante anos e impôs alerta permanente a autoridades sanitárias de todo o mundo. É um grave problema de saúde pública e seus custos econômicos são muito altos.

A imprensa foi surpreendida pela novidade e a maior parte dos jornais estava despreparada para explorar o tema, nos primeiros dias, sem depender amplamente de fontes oficiais. É uma esquisitice brasileira. Pouquíssimos jornais cobrem a agropecuária com regularidade, embora o agronegócio seja a principal e mais segura fonte de receita do comércio exterior. Neste ano, até novembro, o setor acumulou superávit de US$ 67,3 bilhões, enquanto a maior parte da indústria de transformação se lambuzava de vermelho.

O Valor é exceção, porque acompanha diariamente os assuntos do campo e das indústrias ligadas ao agronegócio. Mas todos foram forçados a entrar na cobertura noticiando as explicações oficiais, as reações dos importadores (Japão, China e África do Sul foram os primeiros a suspender as compras) e os planos do governo para cuidar do problema com os parceiros comerciais. Na edição de domingo (16/12), o Estadão marcou um ponto importante.

Segundo o Ministério da Agricultura, a proteína príon foi localizada numa vaca morta aos 13 anos. Animais afetados pela doença normalmente morrem muito mais jovens. A primeira suspeita foi de morte causada por raiva, mas essa hipótese foi abandonada depois de exames. O indício da doença da vaca louca foi descoberto muito tempo depois. Autoridades brasileiras falaram em mutação espontânea para explicar a presença da proteína.

Em outras palavras, ocorreu, segundo sua explicação, algo diferente dos casos de doença registrados em outros países. Até o fim da última semana, a Organização Internacional de Epizootias (OIE) manteve a classificação do Brasil como um país de “risco insignificante” em relação à doença. Munidos com os dados de laboratório e com a opinião da OIE, o pessoal dos ministérios da Agricultura e de Relações Exteriores prepararam-se para conversar com os governos estrangeiros e para recorrer à Organização Mundial do Comércio, se necessário, para contestar novas barreiras.

Continua estranha, no entanto, a demora de dois anos entre a morte da vaca e a notificação oficial da identificação da proteína príon e, portanto, da suspeita da doença. Além de acompanhar os desdobramentos econômicos do caso, a imprensa prestará um bom serviço se for atrás, com insistência, de uma boa explicação para a demora.

A Petrobras encolhida

Em 21 de novembro, a Ambev, fabricante de bebidas, tomou da Petrobras, por alguns dias, o posto de empresa mais valiosa do mercado brasileiro de capitais. A valorização da Ambev contribuiu apenas em parte para essa troca de posições. A causa mais importante foi mesmo o declínio da estatal. Do começo do ano até aquela data, as ações ordinárias da Petrobras haviam perdido 14,6% de valor. A depreciação das preferenciais havia chegado a 11,2%. Por trás desses números há uma história de decisões administrativas muito discutíveis e influenciadas com muita frequência, há vários anos, pelo Palácio do Planalto. Essa interferência era conhecida, mas só apareceu claramente no discurso oficial quando a presidência da companhia foi entregue a Maria das Graças Foster. Ao assumir o posto, ela reconheceu a perda de eficiência da empresa, os erros de projetos e os custos decorrentes do controle de preços de combustíveis.

Novos detalhes surgiram quando o primeiro representante dos empregados no Conselho de Administração da Petrobras, o engenheiro Sílvio Sinedino, decidiu contar como eram tomadas as decisões. Os rumos da companhia, segundo ele, são resolvidos em outra instância. O Conselho, presidido pelo ministro da Fazenda Guido Mantega, limita-se a referendar as orientações fixadas pela cúpula do governo. Quanto a esse ponto, portanto, nenhuma alteração significativa parece ter ocorrido desde a posse da nova presidente da estatal.

Sinedino denunciou, entre outros pontos, a ingerência da “baixa política”, isto é, a atenção concedida a interesses de aliados quando se trata, por exemplo, da localização de refinarias. O Estadão apresentou um amplo material sobre o assunto na sexta-feira (14/12).

No dia seguinte, a revista Veja circulou com uma reportagem sobre um dos negócios mais criticados da Petrobras, a compra de uma velha refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Jornais já haviam publicado há bom tempo as linhas gerais da história. A matéria da revista reconta com mais detalhes os fatos ainda investigados pelo Tribunal de Contas da União. Os itens principais são suficientes para dar uma ideia do problema herdado pela nova direção da empresa (e por todos os acionistas, naturalmente).

Em 2005, a empresa belga Astra Oil comprou por US$ 42,5 milhões a instalação desativada da Pasadena Refining System ­– antiquada, pequena e sem condições de processar o óleo pesado produzido pela Petrobras. Em janeiro de 2006, a estatal brasileira comprou metade da planta por US$ 360 milhões, responsabilizou-se por metade dos custos para remodelação da refinaria e comprometeu-se a comprar a parte da sócia, em caso de divergência.

Os belgas aproveitaram essa última cláusula, saíram do negócio e, depois de uma disputa na Justiça, arrancaram US$ 839 milhões da Petrobras. Até esse momento, mais de US$ 1 bilhão foram desperdiçados. Falta descobrir como a empresa e o governo brasileiro poderão passar adiante esse mico e quanto ainda será perdido. Não dá para esquecer essa pauta.

***

[Rolf Kuntz é jornalista]

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