Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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Porrete da adjetivação deforma jornalismo

Por Carlos Chaparro em 05/03/2013 na edição 736

O croata-peruano Juan Gargurevich, jornalista, historiador de jornalismo e mestre em Comunicação, é autor de referência na bibliografia latino-americana sobre jornalismo. Em um dos seus livros (Géneros Periodísticos, Quito Equador, 1982) propôs uma classificação de classes de textos na qual inclui a espécie “Campanha” como gênero jornalístico – tolice que ele próprio quase em seguida corrigiu. No mesmo capítulo, ao detalhar as características desse tipo de texto, Gargurevich reconheceu que, embora frequente na mancha impressa do noticiário, os textos por ele classificados como “Campanha” não poderiam ser incluídos nas formas discursivas do jornalismo, pelo simples motivo de que lhes faltam as substâncias de essência do jornalismo: a clareza e a honestidades da independência.

Qualquer texto de “Campanha”, quando mascarado de jornalismo, é, na verdade, fraude do jornalismo. E esse é o risco assumido por duas das nossas principais revistas semanais, Veja e CartaCapital – mais aVejado que a CartaCapital, na qual o principal peso editorial está no texto argumentativo do articulismo autoral, classe de texto ao qual menos se aplica a crítica que aqui faço. Mas quando a pauta da revista de Mino Carta se abre à reportagem, também ela segue, com frequência, a “receita” do jornalismo da Veja, usada na perspectiva ideológica inversa: a de impor à narração jornalística, como condição prévia, a obrigação de exaltar as ideias e ações do PT e de seus governos, e de execrar quem delas discorda. E o faz sem meias palavras, na base de adjetivação agressiva, por vezes ofensiva.

Assim, a serviço de posições antagônicas política e ideologicamente assumidas, as duas revistas decidem pela mesma lógica em assuntos tratados como “reportagem”: revestem de propaganda até a qualidade jornalística da investigação. E com o porrete da adjetivação depreciativa, que nada elucida, deformam a estética narrativa da boa reportagem, impondo-lhe tom e amarras de argumentação panfletária.

Quando assim é, as duas revistas rivais, em vez de jornalismo, fazem propaganda de campanha, submetendo a seleção e a articulação das informações a filtros pelos quais só passa o que convier aos objetivos políticos, partidários ou ideológicos da pauta. Até as informações mais valiosas (quase sempre bem investigadas) acabam sendo contaminadas pelo vírus da suspeição, dada a preponderância do viés propagandístico (contra ou a favor) que dá tom às reportagens. 

Em especial na Veja, a constância desse viés em pautas e edições sucessivas cola no jornalismo político da revista o já irrecusável rótulo de “campanha”– contra tudo e qualquer coisa que cheire a Lula e PT.

Na reportagem sobre a visita da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil, o jornalismo de campanha começa pelo título: “A guerreira e os fanfarrões” – perfeito para panfleto militante, seja lá de esquerda ou de direita. Depois, na abertura da reportagem, o discurso argumentativo toma conta do texto e escancara, nas trinta primeiras palavras, o objetivo de campanha que o orientava:

“A dissidente cubana Yoani Sánchez encontrou no Brasil uma raridade, jovens manipulados para defender uma ditadura. Viu patetas fantasiados de Che Guevara tentando, aos berros e à força, impedi-la de falar”.

Ora, manifestações de “jovens manipulados”, contra ou a favor de ditaduras, nada têm de raridade; e de “patetas” (tolos, parvos, burros…) aquela gente também nada tinha. Manipulados ou não, equivocados ou não, aqueles manifestantes sabiam muito bem o que queria. E realizaram ações que, na avaliação deles, alcançaram sucesso.

Para a reportagem de cobertura do mesmo acontecimento,CartaCapitalescalou a repórter Cynara Menezes, jornalista de ótimo texto. Descontado o título-rótulo (“A blogueira favorita da mídia”),que não deve ter sido dela, mas dos ideólogos da revista, Cynara fez uma reportagem lúcida, criativa e honesta, que pode ser exibida como um bom exercício de independência intelectual. 

Ainda assim, não escapou à tentação da porretada, no que toca à adjetivação ideologizada. Às tantas, Cynara perturba a fluência e a lucidez da sua reportagem com a seguinte concessão à vulgarização estilística do adjetivo porrete:

“Na Câmara dos Deputados, posou ao lado do que há de pior na política brasileira, como o líder ruralista Ronaldo Caiado e o brucutu homofóbico Jair Bolsonaro”.

Conclusões

1) A asseveração jornalística e crítica das duas revistas, que no plano dos fatos raramente pode ser desmentida, seria bem mais convincente e contundente se os relatos dos conflitos circulassem embalada em precisa e honesta narração. 

2) Mesmo no articulismo, onde o que importa é a opinião clara, fundamentada e assumida de quem subscreve os textos, os respectivos cacoetes do adjetivamento ideológico manifestam-se por vezes de maneira decisiva, prejudicando o mérito das ideias.

3) De alguma forma, e apesar das autoproclamações de independência dos dois lados, esse é um jornalismo dependente. De viseiras. 

***

[Manuel Carlos Chaparro é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e professor de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo]

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