Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Sex, sound, samba, soccer

Por Norma Couri em 05/03/2013 na edição 736

Foi no camarote da Brahma no último carnaval, apreciando a exibição de exuberantes carnes femininas na passarela da Marquês de Sapucaí e rodeado de celebridades pouco cobertas no Sambódromo carioca, que Felipão proferiu a frase abafada pela batucada.

– Prefiro ser entrevistado por mulher!

Deu na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, “Gente Boa” (O Globo, 13/2, com foto), que insistiu numa explicação enquanto o técnico da seleção, Luiz Felipe Scolari, era cercado por um time feminino de jovens repórteres.

– É que mulher tem um jeito mais suave de entrevistar. Não fica cobrando tanto…

Felipão não sabia que na Alemanha, onde sexismo é coisa séria, uma insinuação parecida do deputado Rainer Brüderle, líder do Partido Democrático Livre (FDP, na sigla em alemão), foi o estopim para uma revolução sobre assédio sexual no Twitter.

– Você ficaria muito bem vestida de dirndl (vestido acinturado com blusa e avental, tradicional na Baviera e da Áustria; as solteiras usam com laço do lado esquerdo, as casadas, do direito, as viúvas amarrado atrás).

Durante uma entrevista, Brüderle, de 67 anos, “despiu” e “vestiu” com os olhos a jornalista Laura Himmelreich, jovem o suficiente para ser sua filha, ao sugerir, totalmente fora do contexto, a vestimenta típica. O deputado não imaginava que um comentário tão banal sairia com destaque na revista Stern e logo ganharia inimagináveis multiplicadores na rede. Ele ainda brincou pedindo à repórter que gostaria de se inscrever na próxima dança do seu “cartão” (como se usava nos salões antigamente).

Esporte local

A consultora de opinião Anne Wizorek não perdeu a deixa. Num questionário denominado #aufschrei (clamor) pediu a opinião de seus seguidores no Twitter. Recebeu 60 mil respostas para o que soou um assédio sexual deslavado – um “piropo”, como era chamado na antiga corte ou uma “cantada”, em bom português do Brasil.

Essa história aconteceu no ano passado, mas até hoje Brüderle não aparece nas ruas sem que alguém se lembre do tropeço. Na época virou assunto em todos os jornais, foi tema de três talk-shows nas TVs públicas e os berlinenses não falavam noutra coisa.

Em vez de se sentir lisonjeada com o gracejo, Laura disparou perguntando se “numa idade tão avançada” Brüderle ainda poderia se colocar no papel de liderança do seu partido. Em outras palavras, deu um “fora” no político, mandou ele se enxergar e o recolocou no seu lugar – e no dela, de profissional da imprensa.

A Stern costuma ilustrar artigos com mulheres nuas, mas não perdeu tempo em contestar o sexismo contra uma colega jornalista, lembrando a Brüderle o papel de um e de outra. No Twitter, as mulheres lembravam o assédio cotidiano e banal sofrido nas academias, nos transportes públicos, nas ruas ou nos bares. E chamavam a atenção para a complacência das leis que regem a política sexual, os crimes do gênero e a violência contra mulheres. Imaginem que se trata da Alemanha. A Índia até hoje tenta condenar os acusados de praticar o esporte local, o estupro semanal de mulheres em ônibus com a participação do motorista, o deboche dos policiais e o silêncio envergonhado da família.

Mais fáceis

Ao publicar o caso este ano na mesma edição de fevereiro em que Felipão cometeu sua gafe com as jornalistas, a revista inglesa The Economist (2-8/2) lembrava que os alemães sempre se vangloriaram de que “porcos chauvinistas” como o francês Dominique Strauss-Kahn, o italiano Silvio Berlusconi ou o russo Vladimir Putin jamais teriam espaço na vida pública em seu país, como acontecia no deles.

Os brasileiros concordam que os americanos exageram quando condenam e reduzem a assédio sexual o carinho de um menino de seis anos na coleguinha de banco de escola, ou um gesto cavalheiro como puxar uma cadeira, abrir a porta do carro ou pagar a conta do jantar para uma mulher.

O lado de baixo de Equador está longe de levar esses gracejos tão a sério, mas por displicência acaba aceitando o machismo como parte da cultura latina, engolindo vexames e se calando diante de uma desqualificação profissional baseada em gênero – no caso jornalismo feminino vs. masculino.

Sem querer, Felipão, de 64 anos, três anos mais novo do que o deputado alemão, revelou uma crença que todo mundo conhecia, assimilada entre os futebolistas brasileiros – que adoram se casar e se separar de jovens modelos louras estampadas na capa de Caras. Aliás, tanto futebolistas quanto as mulheres estão entre os quatro “esses” que compõem a cultura brasileira vista pelos olhos dos estrangeiros – Sex, Sound, Samba, Soccer (sexo, música, samba e futebol). E na visão dos jogadores, repórteres femininas não apertam tanto o entrevistado, são mais fáceis de “enrolar” numa entrevista.

***

[Norma Couri é jornalista]

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