Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O sentinela da memória

Por Nicolas David e Thaís Teixeira em 16/04/2013 na edição 742

Um teste vocacional trouxe Paulo Markun para o jornalismo. O que esse teste não apontou, entretanto, é quem se deu melhor – se o Markun, ou o jornalismo. Não se trata de um puxa-saquismo bobo, mas de um reconhecimento inevitável. Paulo Markun diz que não, mas sua obra é importantíssima para a memória dos brasileiros, pois ela registra momentos e personagens inesquecíveis do país e vai ao encontro do passado a fim de perguntar: como foi mesmo que isso aconteceu?

Não vou me alongar na abertura, pois a entrevista é demasiadamente extensa. Seu tamanho é uma inconveniência aos padrões normais. Um pecado de edição. Uma afronta à pressa das pessoas e ao seu ritmo acelerado. Defendo-me, pois: diante de Paulo Markun, é difícil tratar de um assunto. É impossível parar de perguntar, perguntar, perguntar…

“A reportagem é uma espécie de porta de entrada”

Você entrou no jornalismo depois de fazer um teste vocacional. O resultado foi certeiro? Tu és feliz profissionalmente?

Paulo Markun – Sou feliz profissionalmente, sim. Na verdade, esse teste vocacional não apontou o jornalismo especificamente. Naquela ocasião, 1967, eu tinha uns 15 anos, apareceram duas faculdades convencionais: Letras e História e uma faculdade que acabava de ser criada, que era a Escola de Comunicações. A pessoa que me aplicou o teste mencionou o fato de que essa faculdade de comunicações parecia, digamos, apropriada porque não era uma coisa fechada numa atividade só. Ela tinha artes, comunicações, várias áreas. Naquele primeiro momento da ECA, que eu não peguei por que quando eu entrei isso já tinha acabado, havia a ideia de que ali iria se formar um profissional não necessariamente vinculado a uma profissão específica. Então, tinha um período mais denso, que era o período básico, em que você estudava com todo mundo junto. Eu peguei isso no primeiro ano só. Mas quando entrei, em 1971, a faculdade já tinha se rendido às regras do mercado e do sistema porque nós estávamos em plena ditadura e os caras não gostavam muito dessa ideia de uma coisa mais livre assim. Sim, acho que é uma opção legal, principalmente por que eu não me enquadro só nessa casinha do jornalismo, digamos assim. Eu sempre tive outras funções paralelas, ou documentários, a televisão, um pouco de história nos livros que eu escrevi e assim por diante.

Nos primeiros anos da carreira você atuou como repórter, passando pelos principais impressos no Brasil. Agora você se dedica a fazer documentário e livros. Por que essa opção? Você acredita que não dá para escrever bem num espaço reduzido de linhas, ou num curto tempo de televisão?

P.M. – Não é problema do tamanho. É o problema do salário. A reportagem, há bastante tempo, vem sendo tratada secundariamente na televisão e no jornal. Há muito tempo a profissão valoriza os profissionais que deixam a reportagem. A reportagem é uma espécie de porta de entrada da atividade. São raros os repórteres muito experientes e bem remunerados que continuam tendo espaço para trabalhar. Existem, mas são uma minoria, tanto na televisão e principalmente nos jornais e nas revistas. Acontece que quem se destaca acaba virando editor, chefe de reportagem, redator, publisher e assim por diante. O documentário e o livro proporcionam essa atividade de apuração mesmo, que é a base da nossa ação de maneira mais aprofundada e, no meu caso, de uma maneira que dá pra viver disso, porque os livros têm patrocínio e sempre busquei leis de incentivo ou apoiadores. E os documentários porque já começa a ter um mercado pra isso. Então eu diria que não é uma opção porque o tamanho é maior. É por que você pode se aprofundar mais e produzir conteúdo. Muitas vezes, pra você produzir muito conteúdo você precisa de apuração e isso a grande impressa dificilmente tem tempo ou não investe o suficiente na reportagem pra que isso aconteça.

O que o jornalista Paulo Markun ainda não fez nos seus anos de carreira e que ainda fará? Existe um projeto pessoal que você ainda não realizou? Ou você nem se preocupa com isso e acha que projeto é coisa de arquiteto e não de jornalista?

P.M. – Tem uma porção de projetos não realizados. Muitos não deram certo ou não foi possível fazer ou não tive recursos para tal, mas estou sempre inventando um novo. Recentemente, meu filho e eu discutimos a ideia de fazer uma publicação sobre cultura digital. A ideia era de que esse mundo da nova mídia, da cultura digital, da pessoa conectada, pra geração de vocês, é natural, uma extensão da vida. Mas quando os formadores de opinião, aqueles que decidem mesmo, no máximo, eles chegam no Facebook, mandam e-mail, olham um site ou outro de notícias. Mas eles não entendem, não percebem a transformação do mundo em função dessas novas tecnologias. A gente achou que uma alternativa interessante seria fazer uma revista impressa que falasse disso. Nós tentamos conversar com patrocinadores e apoiadores e verificamos que dificilmente a gente ia conseguir convencê-los a apoiar um projeto desses. Esse projeto na verdade custaria muito caro para ser feito com qualidade e não se viabilizou. Então a gente deixou de lado e partiu pra outras ideias.

Neste momento, estou empenhado em resolver aqueles que estão na minha frente que já são em quantidade suficiente. Estou trabalhando numa série de documentários de processo em TV, num projeto de cinco documentários para a TV Câmara, numa série de entrevistas pro canal Brasil, e ainda num projeto que ainda não tem destino claro que é uma série de documentários sobre futebol no Brasil. Não quero mostrar Corinthians, São Paulo, mas um universo de times de futebol. Tem time de tudo quanto é coisa, de ator; de gente que joga na lama, no Amapá; de imigrantes, de mulçumano; de religiosos; de gente que joga futebol nas plataformas de petróleo. A ideia é fazer uma série sobre isso. Além de estar terminando o Brado Retumbante, que é o livro que eu tenho que acabar até maio. Estou atolado de trabalho, de projeto então e acho que isso é uma boa receita para você ficar com a cabeça ligada aos 60 anos.

Alguma vez na vida você respondeu a uma entrevista sem ter que falar sobre o Roda Viva? Fale da sua passagem por lá. Você sente falta de mediar as calorosas e reveladoras entrevistas daquele programa?

P.M. – Eu já dei entrevistas sem ser sobre o Roda Viva, sim. Geralmente quando estou falando sobre outros projetos, um livro etc. e tal. Mas muitas delas têm a ver com o programa. Eu sinto saudade, mas é aquela saudade que já está se transformando numa coisa tolerável e tranquila de algo que já aconteceu e não vai acontecer mais.

O projeto Retrovisor, em que trabalho agora, será de entrevistas com personagens da história brasileira interpretadas por atores e é, em certo sentido, uma retomada da ideia do Roda Viva com outro jeito e uma pegada diferente. O grande barato do programa era porque durante uma semana eu tinha de me dedicar a um personagem, fosse ele um escritor ou um personagem do momento político, econômico do país. E essa preparação era gratificante, porque não era ir lá só ligar a câmera e fazer qualquer pergunta. Muito embora o mediador tenha um papel diminuto no programa. Ele tem apenas que trocar a bola ali, fazer com que a dinâmica funcione. Mas justamente por isso você precisa saber do que se trata e tentar suprir, eventualmente, quando determinada pergunta não é feita. Ou, muitas vezes, quando eu achava que ela não era respondida de maneira adequada, voltar à pergunta daquele colega ou daquela pessoa que está entrevistando o personagem. Foram 10 anos e obviamente é uma marca na minha atividade profissional muito forte e muito gratificante. Não acredito que ela volte. Acho que é um rio que passou na minha vida.

“Admiro quem é capaz de fazer as coisas rapidamente”

Explique melhor o projeto Retrovisor. Você falou de história de personagens brasileiros. Como é que vai ser isso?

P.M. – Nós vamos fazer treze eventos num teatro, provavelmente, num auditório da Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo. Vou contracenar com um ator representando um personagem da história brasileira. Por exemplo, Anita Garibaldi, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Frei Caneca, Cláudio Manoel da Costa, Barão de Mauá e assim por diante. Vou entrevistar esse cara diante de uma plateia como se a entrevista estivesse acontecendo no momento mais crítico da vida dele. E as respostas serão baseadas nas pesquisas históricas que irão sustentar o projeto, mas com algum tipo de liberdade para que o ator ou atriz improvise na resposta. E não vai ser uma coisa ensaiada, não é teatro exatamente. A dinâmica será igual a uma entrevista de televisão então a gente vai tentar saber, por exemplo, por que o barão de Mauá, que foi o homem mais rico do Império, quebrou. Existe uma bibliografia sobre esse assunto já disponível que permite restituir as supostas palavras do Barão de Mauá naquele momento.

Isso é um evento de uma hora e meia no teatro que vira 26 minutos na televisão e depois vira DVD e depois vira livro. É um projeto bem legal que já foi aprovado pela Ancine, já tive algumas conversas com patrocinadores. No segundo semestre, deve começar. É a minha volta para a televisão como entrevistador só que numa nova posição porque eu vou estar lá representando eu mesmo, num teatrinho, digamos.

Existe alguma ligação entre a profundidade das pesquisas do teu livro e a profundidade das tuas olheiras?

P.M. – Não, acho que não. Às vezes pode ser que a olheira aumente quando estou no fim do livro. Mas não, tenho olheira mesmo quando não estou escrevendo. É de família.

Você se dedica muito para fazer teus materiais?

P.M. – Eu só termino quando fico satisfeito. Por exemplo, esse livro que eu estou fazendo (Brado Retumbante), eu já reescrevi três vezes. O Cabeça de Vaca, fiz duas versões. O meu querido Vlado também. De modo geral, não sai na primeira vez porque eu acho que o livro é um processo de apuração da informação, de afinar realmente para que aquela história esteja bem contada e seja atraente para ser lida. Muitas vezes, nesse meio caminho, você se perde, você não sabe mais para onde você está indo. A crítica externa é muito importante, de um editor ou de alguém que participe do projeto ou mesmo a autocrítica, quando você deixa aquele trabalho de lado um tempo e depois vai ler e percebe que perdeu a embocadura, perdeu o caminho. Então, acho normal, eu não sei fazer de outro jeito. Admiro quem é capaz de fazer muito rapidamente as coisas e sair bom de primeira.

O Pasquim era um jornal de colaboradores, a Imprensa, não”

Consta no teu currículo a implantação do Pasquimem São Paulo. Como foi essa etapa da tua carreira?

P.M. – Foi, na verdade, uma experiência curta já fora de época em certo sentido. Por que O Pasquim, em São Paulo, se não me falha a memória, é de 1986. O auge do Pasquim foi o final dos anos 1960, começo dos anos 1970 no Rio de Janeiro. Nos anos 1980, ele tinha ficado na mão do Jaguar, que é cartunista e um dos criadores do jornal. O jornal já estava derrapando porque já tinha a abertura política e tal. E ele me procurou em São Paulo querendo fazer uma espécie de franquia do Pasquim, e foi isso que foi feito. Durante um ano a gente conseguiu manter. Éramos três, inicialmente dois jornalistas e depois entrou o terceiro, Manoel Canabarro. A gente montou uma redação interessante de colaboradores. Jô Soares, Carlos Nascimento, Caco Barcelos, Fernando Moraes, Alberto Dines, enfim, tinha um número de colaboradores que, de alguma forma, topou escrever naquele momento. E esse momento foi coincidente com as eleições para o governo na sucessão da primeira leva de governadores eleitos pelo voto direto. O primeiro foi o Montoro e o segundo que foi eleito foi o Quércia. Havia naquela ocasião uma disputa de quatro nomes do centro para a esquerda. Havia o Paulo Maluf que era a direita, aí tinha o Antônio Ermírio de Moraes, o Quércia e o Eduardo Suplicy. Esses eram os principais candidatos ao governo. Então surgiu ali uma polêmica interna dentro do jornal, entre os colaboradores, entre aqueles que apoiavam um ou outro. Ninguém apoiava o Maluf, mas todos eram Suplicy ou Quércia ou eram Antonio Ermírio de Moraes. E isso mobilizou o jornal e o jornal teve uma vida política curta e interessante nesse período.

Passada a eleição, ele perdeu o seu significado e tinha dificuldades enormes de sustentação por falta de anúncio, embora vendesse, nas bancas, mais do que a revista Veja, em São Paulo. Vendia bem! Não era aquela coisa absurda, mas como semanário era bom. Foi uma boa experiência, interessante, que por sorte não terminou muito mal. A partir daí a gente criou a revista Imprensa, uma espécie de subproduto. Como no jornal as notícias que mais repercutiam eram as que tinham jornalistas na capa, a gente acabou fazendo uma revista sobre imprensa – a revista foi muito bem, continua até hoje. Nós trabalhamos dois anos, dois sócios saíram, dois ficaram e a revista segue.

Você levou a equipe do falecido Pasquimpara a revista Imprensa?

P.M. – Na verdade, foi o Canabarro e eu que começamos o projeto. Aí se juntaram um jornalista e um publicitário. Um cara de marketing, que está até hoje na Imprensa, e alguns colaboradores e tal. Mas ela era outra coisa. A revista era mesmo uma redação. O Pasquim era um jornal de colaboradores, as pessoas mandavam as coisas e a partir daí você fazia uma capa e uma matéria mais ou menos engraçada e tal. E a Imprensa, não. A Imprensa era uma revista mensal que tinha a substância produzida na redação, sempre tratando desse mundo dos jornalistas e do jornalismo e foi uma boa experiência. Foi legal.

“Estou sempre buscando histórias de Santa Catarina”

Você não permaneceu muito tempo à frente da Fundação Padre Anchieta. O que ocorreu?

P.M. – Cumpri o mandado inteiro. O mandato é de três anos. Num certo sentido, é diferente porque o presidente anterior a mim, Marcos Mendonça, também só ficou três anos. Normalmente os presidentes ficavam pelo menos dois mandatos lá. Ele não continuou e eu também não. O que aconteceu foi o que o secretário da Cultura, que era o meu chefe, quis ser o presidente da Fundação e diante de uma vontade dessas eu não tive o que fazer. Não era que eu almejasse e que fosse o sonho da minha vida. Aquilo aconteceu por um convite e eu achei que podia fazer alguma coisa. Já no final, eu estava disposto a sair. Houve um pedido do governador, que era o José Serra, na época, que eu continuasse e esse pedido não se realizou porque o secretário mudou de ideia e quis ele ser o presidente. Lamento só o jeito como foi feita a transição, essa coisa não ter sido mais civilizada. Mas também pra mim foi ótimo não estar lá hoje.

Por quê?

P.M. – Porque eu acho que é difícil você realizar qualquer coisa numa instituição pública desse tipo. É muito desgastante, trabalhoso e frustrante. E os projetos meus, pessoais, e as coisas que eu hoje posso fazer, eu não podia fazer. Abandonei dez anos de Roda Viva, abandonei uma porção de outros projetos para me dedicar à Fundação. Financeiramente, foi um prejuízo e profissionalmente não foi um avanço. Não ganhei nada com isso. Foram três anos marchando no mesmo lugar. Mas passou.

Tua obra literária tem forte ligação com Santa Catarina. Você escreveu sobre Anita Garibaldi, que foi uma revolucionária aqui. O espanhol Cabeza de Vaca, que governou Santa Catarina, um livro sobre a história da Unisul, que é uma universidade catarinense e como se não bastasse isso tudo, a vista da tua casa é à beira-mar de Florianópolis. De onde vem esse amor, Markun?

P.M. – Quando os meninos eram pequenos, a gente vinha sempre passar as férias em Bombas, Bombinhas, Porto Belo. E a Tatiana, minha mulher, era bailarina. Hoje, é cantora e compositora e a gente viajava muito e tinha uma vida muito corrida. Decidimos parar um ano, isso em 1989, e vir pra Floripa porque nem Bombas, nem Bombinhas, nem Porto Belo tinham muito estrutura de educação pras crianças. Na época, a minha filha mais velha tinha doze anos e o Pedro tinha uns três anos, o mais novo não tinha nem nascido e nasceu aqui. Aí passamos um ano aqui em Cacupé, compramos esse terreno, construímos essa casa. A gente vinha todo o verão sempre com a ideia de um dia fixar a residência aqui, por causa das vantagens e das comodidades que a Ilha tem, enfim, por causa do visual, do clima e isso acabou acontecendo em 1998, quando saí da Globo para a TV Cultura, para fazer o Roda Viva. Desde então eu venho mantendo esse esquema. Passo um tempo aqui, um tempo em São Paulo, mas a casa da gente é aqui. E aí a decorrência natural foi tentar se inserir na cidade e isso envolveu essa coisa de fazer a biografia da Anita, depois veio o convite da Unisul para escrever a história da universidade. Em seguida, a gente fez um livro sobre a legalidade, no Rio Grande do Sul, um livro sobre a luta para a posse do Jango, quando o Jânio Quadros renunciou e, enfim, alguns dos documentários que eu fiz na vida, editei aqui. Estou sempre buscando histórias de Santa Catarina, que eu acho que tem histórias interessantes e muitas vezes pouco conhecidas no resto do Brasil.

“Eu queria fazer um livro, e não um site”

Você é um jovem senhor! O projeto em que estás debruçado nesse momento, o Brado Retumbante, parece mais difícil do que os anteriores por força da idade ou isso ainda não te atrapalha?

P.M. – Não, acho que não. Esse não é o problema.

Você está encontrando que problemas, então?

P.M. – Na verdade, como ele percorre um período de história grande, em vez de eu focar do período do golpe até a campanha das diretas, que seriam vinte anos, 64-84, eu voltei para 1922, quando o Brizola nasceu. E aí, condensar todas essas informações é difícil. É um período que foi mais difícil pra mim porque é a parte que eu não conhecia da história. Por exemplo, eu cheguei agora em 1969, eu tenho que chegar até 1984. E é mais fácil pra mim por que eu vivi esse período de perto. Mas, para mim, antes de 1964, tudo era novidade. Então para escrever um parágrafo eu precisava pesquisar muito para ter certeza de que aquilo que eu estava falando, não estava simplificando demais, ou, de alguma forma, vendendo uma coisa que não existiu. Isso é trabalhoso. Não sinto dificuldade por causa da idade não.

Você começou esse projeto através de um site, não é?

P.M. – Comecei, na verdade, em 1986, com uma série gravada na Unicamp. Na época, a ideia era entrevistar os personagens que muito provavelmente iam se enfrentar na arena política em 1989, na primeira eleição direta para presidente da República. Os personagens que estavam circulando eram Ulysses, Lula, Brizola, Gabeira, FHC, Mário Covas e outros. O Collor, que veio a ser o presidente, nessa época, era um personagem secundário, não tinha projeção nacional e não participou do projeto. Mas essa é origem. Acabei parando ele e retomando em 2007, quando estava saindo da TV Cultura. Eu queria fazer um livro, e não um site. Mas coloquei o site no ar antes para recolher as histórias das pessoas. Consegui algumas, mas não foi exatamente o que eu imaginava. Enfim, estou terminado o livro, vou retomar o site e, depois, fazer um documentário em 2014. E terminarei o livro até maio deste ano.

“Escrever é um negócio solitário”

Por que você acredita que não tenha conseguido tantos comentários no site do Brado Retumbante?

P.M. – A minha geração não tem tanta intimidade para entrar no site e escrever. E a geração mais jovem que faz isso com naturalidade não tem o que dizer, porque não viveu. Acho que quando o livro sair e isso voltar a ser assunto, vou conseguir mais depoimentos dessa época. O barato da campanha das diretas é que ela foi realmente uma mobilização de massas no Brasil, uma das raras. Nessa não tinha importância o personagem que estava no palanque. O importante era a plateia. Se você perguntar pra qualquer pessoa com mais de 40 anos, essa pessoa vai dizer onde ela estava. As pessoas lembram porque foi um episódio muito marcante na vida delas.

Você pretende lançar esse livro em 2014 e você falou da sua preocupação de mostrar a massa. Em 2014, o Brasil será o país sede da Copa do Mundo e o evento certamente causará um bafafá aqui na massa, inclusive. Você acha que isso pode atrapalhar a repercussão do projeto?

P.M. – Não dá pra comprar! A Copa do Mundo é um evento de multidões e todo mundo vai se mobilizar. Agora, a história das Diretas ela vai, muito provavelmente, se for bom o resultado, ser uma relembrança para aquelas pessoas que viveram e de descoberta pra quem não viveu. Pra entender que há 30 anos aconteceu isso no Brasil e que o país era desse jeito e que isso tem a ver com uma história que não nasceu da noite por dia. O desconhecimento do processo histórico produz a ideia de que de repente a coisa aconteceu. Por trás disso tem um processo de acumulação, de conhecimento, de força, de experiência, de erros e acertos. Eu estava agora trabalhando num capítulo delicado e difícil, que é sobre como se deu a luta armada no Brasil. Não existe nenhuma estatística confiável sobre a luta armada, nem sobre o número de presos políticos. Nem mesmo os tais desaparecidos políticos, porque uns contam de um jeito e outro de outro. É difícil contabilizar, mas todas essas ações armadas não deram resultado, porque não mudaram a ditadura. O que derrotou a ditadura foi a ação de grupos como as igrejas, o partido comunista, o MDB, o movimento estudantil. Isso levou ao enfraquecimento da ditadura. É esse processo que eu quero mostrar. Os pedacinhos dos cacos que formaram o grande mosaico.

Santa Catarina, biografias históricas, lutas do UFC, teclados Qwerty, documentários são coisas que você ama. O que falta na lista?

P.M. – As lutas do UFC é um pecado na minha vida. Pra falar a verdade, nem tenho assistido mais porque eu gostava mais quando era menos pop. Virou uma máquina de fazer dinheiro e não tenho visto mais. Veleiro, sítio, relação com o campo, cozinhar entram na lista. Eu só não gosto de dormir tarde. E também tem coisas que acho que já foram importantes e que não são mais. Isso tem que ter um pouco para que os projetos aconteçam, mas isso não combina com escrever livro, por exemplo. Escrever é um negócio solitário e que você tem que ter muita dedicação.

A entrevista e o documentário

Você disse que jornalista gosta de colecionar histórias. Conte para nós uma história de jornalista. Das boas e sobre o que preferir. Qualquer coisa.

P.M. – Vou contar uma que vi na serra catarinense. Numa pequena cidade de 800 mil habitantes, de repente vi três pessoas fazendo cooper na pracinha principal da cidade. Nessa mesma cidade, anos atrás, na Copa do Mundo, eu passei pelo centro e tinha um churrasco acontecendo no posto de gasolina. Comecei a pensar sobre o que faz as pessoas numa cidade dessas no campo ter esse tipo de atitude. Essa é a cópia da atitude urbana e tem a ver com a televisão. Tem a ver com a maneira que a televisão, infelizmente, dissemina as práticas da sociedade urbana para os lugares mais inacreditáveis. As cidades estão perdendo sua identidade por causa dessa sociedade conectada, contemporânea. Não quero dizer que isso é um defeito, porque a própria internet proporciona essa sobrevivência das formas culturais à margem da máquina que a mídia uniformiza na gente, mas é curioso você pensar porque que as pessoas não vão correr na trilha, por exemplo. Elas correm no parque como quem corre na Beira-mar Norte.

(Por trás das câmeras, Paulo Markun também faz história. Diretor de oito documentários, entre eles dois sobre o período da ditadura militar no Brasil, ele fala sobre o processo de produção, suas escolhas e um possível futuro para os documentários.)

Como ocorre o processo de pesquisa e produção no caso dos documentários? Quais as diferenças técnicas dos documentários e das entrevistas para a televisão?

P.M. – No caso da entrevista, tem um mínimo ponto comum: é ideal que você procure saber o que já existe sobre o assunto tanto na entrevista quanto no documentário. Agora, são coisas diferentes porque o grau de incerteza num documentário é muito maior. Acabo de voltar do Amazonas e do interior do Sergipe pra filmar maloca de índio, palafita de ribeirinho e casa de sertanejo. A gente tinha algumas informações sobre isso, pesquisadas na internet e uma produção local que tinha que garantir que eu conseguiria ir lá filmar, mas o que a gente ia fazer iria depender do desenvolvimento ali naquele momento. Agora o que ia acontecer lá. No caso de uma entrevista, você já sabe mais ou menos o que vai encontrar, pois o cara conversou com você antes, é outro jogo. O processo de pesquisa, no meu caso, ele parte de uma premissa que é a possibilidade de concretizar esse documentário. Eu adoraria fazer dezenas de documentários sobre os assuntos mais variados possíveis, porém muitos são impraticáveis porque custam caro.

“Tem muita história pra contar nos documentários”

Você dirigiu dois documentários sobre a ditadura militar no Brasil. Ambos têm enfoque no ano de 1968, quando o Ai-5 foi instituído, dando plenos poderes aos militares. Essa escolha foi influenciada pela sua vivência pessoal nos anos de chumbo? E qual a importância que esses dois documentários têm para a memória do país?

P.M. – Certamente. Mas não só. Em 1988, ia fazer 20 anos que tinha acontecido o movimento estudantil. Eu estava como colaborador da TV Cultura e propus a eles um documentário sobre 1968. Como a TV tinha pouco recurso, foi uma mesa-redonda com alguns personagens. E misturei imagens de arquivos e algumas entrevistas. Mas óbvio que também tem a ver que eu participei das passeatas de 68 e de alguma forma sofri as consequências do AI-5 como tanta gente da minha geração.

Qual a relevância histórica que você acha que esses dois documentários têm para a memória do país?

P.M. – Essa coisa de achar que o que você faz é muito importante, é um pouco exagerado. No caso de 1968, era uma tentativa de falar daquele assunto que as pessoas já não falavam tanto 20 anos depois. E no caso do AI-5 é interessante porque mostra um momento em que o parlamento brasileiro foi importante. Foi a sua afirmação, mesmo sabendo que aquilo poderia dar errado, porque poderia haver uma represália do governo.

Você produziu um documentário sobre o Timor Leste. De onde veio seu interesse para falar dessa região? Por que, por exemplo, não escolheu o Tibete?

P.M. – Tudo nas minhas escolhas tem a ver com a oportunidade. O presidente do Timor foi à Roda Viva. Quando ele começou a contar as histórias, pensei que havia um documentário a ser feito. Eu queria mostrar o que a ONU fazia naquele momento lá. Pensei: agora que eu o conheci, talvez eu consiga autorização pra ir lá. Como nunca ninguém do Tibete foi ao Roda Viva, talvez se tivesse ido eu me mobilizasse pra fazer isso porque veria a possibilidade efetiva de realizar.

Por fim, quero lhe perguntar sobre algo que enxergo na sociedade brasileira hoje. Temos algo chamado esquecimento histórico, ou seja, não contextualizamos os fatos e me parece que o que acontece hoje, não terá mais relevância nenhuma amanhã. Você acredita que os documentários têm papel importante na preservação da nossa historia?

P.M. – Sim. Hoje, você tem uma realidade e a gente ainda não consegue avaliar o que vai acontecer. Todas as pessoas têm uma câmera. Todos os eventos e atos podem e muitos deles são registrados por milhares de pessoas ao mesmo tempo. A internet permite que documentos sobre determinado assunto fiquem a disposição de quem quiser pesquisar. A que lugar vamos chegar, no caso da preservação da história, no futuro, não dá pra saber, acho que será melhor do que era antes. Em relação ao registro histórico, da chegada dos portugueses ao Brasil, só há as versões oficiais da história. Não temos a versão dos índios, por exemplo. Hoje, se você vai registrar um evento você tem a visão de um, de outro, de mais outro e vai ser uma dificuldade danada contar essa história pra frente, mas as fontes são muito mais variadas e muito mais vivas.

Imagina se os índios tivessem uma câmera… Acontece que essas coisas fantásticas, como o descobrimento do novo mundo, não existem mais, já passaram. Por outro lado, temos as transformações que estão acontecendo na sociedade brasileira, o fim de certos hábitos e comportamentos, o surgimento de outros. O predomínio de determinadas formas. Então acho que tem muita história pra contar nos documentários ainda e muita história pra fazer.

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Nicolas David e Thaís Teixeira são estudantes de Jornalismo

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