Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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“Fazemos um jornalismo mediano”

Por Marcos Mortari, Gabriela Stampacchio e Laís Olivei em 14/05/2013 na edição 746

Da faculdade de agronomia à redação do jornal de maior circulação do país. Assim começou a história de Ana Estela Sousa Pinto nos impressos da família Frias, na Alameda Barão de Limeira, nº 425, em São Paulo. Um pouco por acaso, um pouco por sorte, como diz a jornalista, mas muito por competência e esforço — como tomamos a liberdade de salientar —, Ana Estela migrou das ciências agrônomas para a loucura dos deadlines na redação da Folha de S.Paulo um ano antes de o muro cair na Alemanha.

Autora dos livros Jornalismo Diário (2009), A Vaga é Sua (este, em pareceria com Cristina Moreno de Castro; 2010) e Folha explica a Folha (2012), foi, por 15 dos 25 anos de sua carreira, coordenadora do mesmo Programa de Treinamento que a revelou em 1988, além de ter participado da criação da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, da qual é diretora), entidade que, segundo ela, organiza “o melhor congresso de jornalismo do país”. Desde o ano passado, comanda um dos principais cadernos da Folha com a árdua tarefa de fazer jornalismo econômico, e reconhece que ainda é preciso se preocupar mais com o público leigo.

Na entrevista a seguir, Ana Estela de Sousa Pinto fala um pouco sobre sua carreira; o jornalismo, seus fazeres e suas polêmicas; a Economia e como ela é percebida no jornalismo diário; dentre outros assuntos.

“As coisas mais legais que fiz foram como editora”

Como começou sua carreira como jornalista?

Ana Estela de Sousa Pinto – Entrei na faculdade para fazer agronomia, no começo dos anos 80. No 3º ano, descobri que não queria trabalhar nessa área e também não tinha muita noção do que fazer com essa profissão. Depois que terminei o curso, fiquei um ano fazendo várias coisas diferentes, mas sem ter uma definição. Então, vi que a Folha tinha aberto as inscrições para o Programa de Treinamento com o objetivo de trazer pessoas formadas em outras áreas. Tinha amigos na faculdade de Agronomia que conheciam pessoas que trabalhavam na Folha, mas eu não sabia nada de jornalismo. Foi um pouco por acaso; nunca tinha passado pela minha cabeça o jornalismo. Me inscrevi no concurso, passei, fiz o curso aqui [na Folha], e, depois, me chamaram pra trabalhar. Estou no jornal desde então, há 25 anos.

Quais foram os episódios que mais marcaram sua vida profissional?

A.E.S.P. – Principalmente os erros (risos). Certa vez, tive que fazer uma matéria de serviço sobre cursos de férias. Levantei uns 50 cursos e fiz uma arte com endereço, telefone, data e preço de cada um. A matéria saiu no jornal e eu não tinha revisado a arte. Na quinta linha, um telefone tinha sido “comido” e o resto subiu todo. Então, de 50 escolas, 45 estavam com o telefone errado. Tive que republicar e o editor queria me demitir… Isso foi uma grande marca na minha vida profissional: você está sujeito a erro, principalmente quando não tem experiência profissional. Não foi por negligencia. Foi simplesmente porque não me ocorreu que eu precisasse checar ali. Eu não sabia que existia possibilidade de ocorrer esse tipo de erro.

Uma coisa boa, um furo.

A.E.S.P. – Ah, eu fui repórter por muito pouco tempo. Acho que as coisas mais legais que fiz foram como editora; mesmo no treinamento. A gente conseguiu a gravação da reunião que instituiu o AI-5. Fizemos um site com o áudio completo, com as principais frases, contando toda a história. Quando era editora-chefe da Folha da Tarde, teve o massacre do Carandiru. Fomos o único jornal que publicou uma foto feita dentro da prisão, com as pessoas arrastando os corpos.

“Não acho que [o diploma] seja imprescindível”

Como foi coordenar por 15 anos o mesmo Programa de Treinamento que abriu as portas para sua carreira na Folha?

A.E.S.P. – Eu sempre tive uma ligação muito forte com o Programa de Treinamento, porque ele mudou minha vida: de uma pessoa perdida no mundo, sem saber o que ia fazer, por alguém que encontrou uma profissão. Eu gosto de ensinar; é uma coisa que sempre me interessou. E eu também achava muito legal trabalhar com as pessoas que estavam chegando, ter a possibilidade de escolher os candidatos e acompanha-los depois na profissão. Cada Programa de Treinamento é uma história nova. Adorei esses 15 anos e ficaria mais 15 tranquilamente.

Em 1995, você se formou pela ECA-USP, apesar de já trabalhar na Folha. De onde surgiu a vontade de ter uma formação acadêmica?

A.E.S.P. – Não foi por vontade, não. Na época, o diploma era obrigatório e, apesar da Folha não exigi-lo, eu achava prudente ter, porque, se um dia fosse demitida ou quisesse sair, teria menos dificuldade em arrumar emprego em outro veículo. O curso até foi útil em algumas coisas, mas, se eu pudesse escolher, não teria feito. Foi muito tempo. Levei sete anos pra concluir.

Qual é a importância do diploma no jornalismo?

A.E.S.P. – Fazer a faculdade de jornalismo pode ser útil em várias coisas, principalmente se você realmente tiver orientação e puder mesmo crescer. É a possibilidade de fazer exercícios, entender como funciona o Jornalismo, conhecer vários veículos. Também acho que é uma boa chance de fazer uma rede de relacionamentos com pessoas que querem trabalhar na profissão. Mas não acho que ela seja imprescindível para você ser um bom jornalista ou que ela seja suficiente. A realidade comprova isso. O diploma não era obrigatório em 1968 e você tinha ótimos jornalistas. Até hoje, há ótimos jornalistas que nunca fizeram faculdade de Jornalismo: Elio Gaspari, José Hamilton Ribeiro e dezenas de outros. E, mesmo depois que o diploma tornou-se obrigatório, a Folha, por exemplo, continuou contratando pessoas de qualquer área.

“[O treinamento] acelera um pouco o aprendizado”

Você acredita que a institucionalização constitucional da obrigatoriedade do diploma pode ser uma ferramenta arbitrária?

A.E.S.P. – Eu acho que não. É uma questão complicada de olhar em retrospectiva. Você não sabe qual foi a disposição na época. “Ah, isso permite mais controle?” Em parte, mas não tanto. Durante toda a ditadura, os jornais eram cheios de pessoas adversárias do regime. Hoje em dia, a obrigatoriedade do diploma serve muito mais ao movimento sindical, que quer garantir uma reserva de mercado, do que a qualquer outra coisa. Mas não acho que é uma forma do “governo controlar”. Eu acho que seria ideal um sistema misto de fazer outro curso de formação mais básica e, depois, fazer um curso de jornalismo; um pouco parecido com o que há em vários países. EUA (que tem um sistema de graduação completamente diferente do nosso e é difícil comparar), França, Inglaterra, Alemanha não têm diploma obrigatório.

Esses seriam os países-modelo pra vocês que fazem jornalismo na Folha? Vocês se espelham em como é tratada a notícia nos EUA, França…

O jornalismo brasileiro é muito ligado ao jornalismo anglo-saxão moderno. Mais noticioso, menos editorializado, que até assume opiniões – tem editoriais que se posicionam até partidariamente muitas vezes –, mas que procuram que os noticiários sejam mais factuais e pluralistas; menos ideológicos.

Os cursos de Jornalismo estão desvalorizados?

A.E.S.P. – Acho que eles sempre estiveram. Como foram concebidos para um curso de graduação, eles têm que ter uma duração de quatro anos, um currículo mais amplo, matérias obrigatórias, que acabam não dando conta da formação que um jornalista precisa ter no ponto de vista técnico, intelectual ou especifico da área de atuação que se quer atuar. Essa concepção transforma o curso em um modelo superficial demais. Na maior parte das vezes, os professores não têm uma vivência profissional suficiente para fazer o trabalho de orientação da parte técnica. A parte técnica precisa de experiência para [o estudante] ir fortalecendo e consolidando [o aprendizado]. E o curso, do jeito como é concebido, não permite essa aprendizagem. Quatro anos, em meio período, com uma ou duas matérias técnicas por semestre, no máximo, é muito pouco. Se fossem dois anos só de matérias técnicas e práticas, acho que seria ok. A gente [na Folha] faz um treinamento de quatro meses, das 9h às 20h, praticamente só com exercícios. Você sai de lá fazendo jornalismo? Não, mas acelera um pouco o aprendizado.

“O release é um ponto de partida”

As redações estão “enxugando”? O mercado para jornalistas encolheu? O que está acontecendo?

A.E.S.P. – Eu não diria que o mercado para jornalistas diminuiu. As redações diminuíram um pouquinho, mas tem muito veículo novo aparecendo. Acho que ainda tem um campo semelhante crescendo na proporção da economia. Tem mais gente se formando em jornalismo, mas essas pessoas não estão necessariamente forçadas a competir pelas vagas. Cresceu muito o número de vagas para jornalistas em comunicação coorporativa. Esse mercado explodiu nos últimos anos. Ele paga mais e tem horários mais razoáveis. Quando estudava, as pessoas que estavam na faculdade de jornalismo consideravam quase inadmissível trabalhar nesse tipo de atividade. Elas tinham um envolvimento politico maior, e a consideravam um trabalho vendido. Hoje, vejo que não tem mais tanto preconceito. Conheço muita gente que está na faculdade de jornalismo e quer fazer comunicação coorporativa.

Assessor de imprensa pode ser considerado jornalista?

A.E.S.P. – Não. Ele poder ser um jornalista de profissão, mas a função que está exercendo não é exatamente de jornalismo. Tem elementos do jornalismo, mas eu não diria que tem uma função jornalística. A função jornalística implica em uma independência na pauta, na apuração e na edição que o assessor de imprensa não tem. Claro que, quando você está em um veículo, você está sujeito ao princípio editorial, ao projeto editorial daquele veículo. Mas todo veículo comercial, de informação mais geral, pelo principio do mercado, não pode ser comprometido com uma entidade empresarial ou política, porque perde credibilidade. Nós estamos em uma sociedade de mercado e esses veículos só se mantêm porque o público-geral confia neles.

Como é a sua relação com os releases? O que fazer quando receber material de uma assessoria?

A.E.S.P. – Há releases e releases. Você tem um que quer vender um produto, e outro que é informação mesmo, como base para fazer a sua apuração. Por exemplo: “Procon manda o release das 10 empresas com mais reclamações”. O release é uma informação que chega para você como diversas outras — como uma conversa que você ouve em um restaurante ou artigo que você lê em uma revista. Ele é um ponto de partida. A gente precisa de informação exclusiva. O que a gente faz aqui na Folha é usá-lo como um dos elementos de pauta e checar ou ouvir mais gente, se é verdade, se faz sentido…

“É uma categoria [as domésticas] que tem menos direitos”

Quem é mais capacitado para trabalhar com Jornalismo Econômico: jornalista ou economista?

A.E.S.P. – Quem é formado em Economia entende melhor economia, olha mais criticamente o que está acontecendo, consegue tratar de forma mais aprofundada as causas e consequências, mas não necessariamente vai ser um melhor jornalista econômico. Porque o jornalista não é só o sujeito que compreende e é capaz de perguntar, mas é também o sujeito capaz de transmitir. Quem trabalha em uma redação está no meio de dois processos: entender o que é importante e fazer com que a informação relevante chegue ao publico da melhor maneira possível.

Considerando os indicadores macroeconômicos brasileiros abaixo das expectativas, o que explica a alta popularidade da presidenta Dilma?

A.E.S.P. – No fundo, existe um indicador que explica a popularidade da Dilma: taxa de desemprego de 5%. Todo mundo está empregado. Além do mais, a renda média está crescendo. A inflação pode corroê-la? Pode, mas, por enquanto, ela ainda está em 5,5%. A economia está demorando para reativar, é verdade; 0,9% de crescimento é pouco. A indústria, que tem boa representatividade no PIB, está sofrendo muito, mas os serviços e o consumo estão crescendo desenfreadamente. Para a maioria da população, a vida melhorou. Ela tirou 50 milhões de pessoas da miséria. Como a popularidade pode ser baixa? Você está ouvindo essas pessoas na sua pesquisa. Talvez se você fizesse uma pesquisa só na indústria, o resultado não fosse tão bom. Não quer dizer que acho que a política econômica esteja correta – eu até nem acho que está.

Recentemente, os meios de comunicação deram grande espaço às mudanças nas leis trabalhistas das domésticas. Que impactos poderão ser sentidos pela sociedade brasileira?

A.E.S.P. – Uma mudança cultural, mesmo; das pessoas respeitarem mais quem trabalha para elas e esperarem menos que façam tudo para elas. Varia muito de lugar para lugar, mas acho que é uma categoria que realmente tem menos direitos que as outras e tratada de uma forma muito ambígua: geralmente, por trás da proximidade, existe um mundo de exploração. Acho que vai ser positivo. Para algumas, né, porque 75% delas são informais.

“[Temos] um jornalismo de qualidade também na TV”

O jornalismo está em crise?

A.E.S.P. – Eu não diria isso. O que acontece é que algumas empresas jornalísticas estão em crise por vários motivos, que variam de país para país e de veículo para veículo. Nos Estados Unidos, por exemplo, muitos jornais fecharam, mas o modelo de empresa jornalística lá é muito diferente daqui. Eram grandes cadeias de capital aberto que se viram obrigadas a entregar um retorno para o acionista muito acima do que a empresa conseguia cumprir. E aí, começaram a cortar [gastos] e, com isso, perderam credibilidade, leitores, assinantes e desapareceram. Além disso, a internet nos Estados Unidos tinha uma penetração muito maior. Então os classificados migraram para a internet muito mais rapidamente, coisa que não aconteceu no Brasil. Acho que tem empresas que realmente estão em crise. Os jornais impressos e as revistas – principalmente, mais do que os jornais impressos – estão perdendo muita verba publicitária. E a verba da internet não é suficiente para bancar a operação jornalística. Mas o jornalismo, em si, eu não diria que está em crise.

As pessoas têm se mostrado cada vez menos dispostas a pagar por conteúdo…

A.E.S.P. – Quando a Folha instituiu o pay-UOL, a gente achou que a audiência ia cair. Ela não só não caiu, como o número de assinaturas digitais aumentou. Então, de fato, durante um período, os jornais colocaram tudo de graça, e as pessoas começaram a ler só na internet; pararam de pagar – “pararam de pagar” mais ou menos, porque a assinatura da Folha ficou estável. Deveria ter crescido, porque o país cresceu. Jornais mais baratos, populares, cresceram muito. Acho que há um determinado tipo de informação que sempre vai precisar passar pelo crivo de um jornalista. Informação econômica, política, de serviço. Claro que você pode entrar na internet e encontrar uma informação econômica, mas você vai confiar nela para tomar sua decisão?

Além da tradição no meio impresso, o Grupo Folha tem, na web, um portal em parceria com o UOL e, desde 2011, um programa televisivo exibido aos domingos, pela TV Cultura. Qual é a estratégia da Folha?

A.E.S.P. – A Folha tem procurado ser um fornecedor de conteúdo líder em qualquer plataforma. Claro que ela nunca vai ser líder em televisão porque não tem como competir com a Globo, mas está com um jornalismo de qualidade também na TV, internet, tablet, smartphone, onde for. Precisamos ter o pé em várias plataformas, porque não sabemos para onde vai o modelo do negócio. Eu acho que existe um nicho que é ocupado só pelo jornal impresso. Ele diz: “isso é o que você deveria ler hoje, e, todos os dias, nós vamos trazer mais ou menos a mesma quantidade de assuntos selecionados que achamos que você deveria olhar”. É diferente do nicho da internet, que é: “se você está procurando uma coisa, a gente a encontra para você muito mais rápido”. Ou, “se você quer saber o mais novo, vem aqui que você encontra”.

“Tenho muita desconfiança de restrições prévias”

Quais são os critérios de noticiabilidade da Folha?

A.E.S.P. – São os critérios clássicos, mas varia de dia pra dia e de caso para caso. Pouquíssimas notícias se impõem como um valor absoluto. Você sempre vai ter que pesar aqueles outros critérios básicos de notícia. Como está lá no manual da Folha: fatos que têm maior impacto institucional, que afetam mais pessoas, são mais importantes do que fatos que só têm interesse pessoal. Só que, se a Xuxa for assassinada a facadas na frente da filha e a filha dela for degolada, mesmo que seja uma coisa totalmente pessoal, vai ter destaque nas primeiras páginas. Mesmo se, no mesmo dia, for aprovada uma lei que obrigue as pessoas a pagarem imposto de renda para cada cachorro que tiverem.

Durante boa parte de seu mandato, o presidente Lula queixou-se do tratamento que recebia da imprensa. Você concorda com ele? Em algum momento vocês pensam ter deixado o jornalismo de lado?

A.E.S.P. – Eu não vejo isso. Nem sei se o Lula pensa isso mesmo. Ele é um ótimo político, sabe o que dizer para cada público. A gente recebe todo tipo de crítica: desde que somos tucanos até que somos petistas. Todas as áreas ideológicas acham que estamos sendo alguma coisa. A gente comete um monte de erros. A gente faz um jornalismo bem mediano, mas é muito mais incapacidade ou por falta de recurso… “Muito mais”, não. É totalmente por incapacidade e por falta de recurso. Não é por vontade de “sacanear” alguém. Mesmo porque, se você parar para conversar com cada um da redação, cada um deles tem um partido, uma religião, um interesse, uma convicção.

Você é a favor de alguma forma de regulamentação dos veículos de comunicação?

A.E.S.P. – Regulações prévias quase nunca funcionam. Você precisa ter o máximo de concorrência, transparência, acesso à informação e liberdade possível, e quem usar mal essa liberdade tem que ser punido na proporção do seu erro. Eu tenho muita desconfiança de restrições prévias, porque isso vai dar na censura, na perseguição, no cerceamento político, na caça às bruxas. Prefiro os controles posteriores. Por exemplo, o Conar [na publicidade].

Um jornal com menos texto e mais gráficos

Qual é a autonomia do jornalista na Folha?

A.E.S.P. – A gente tem autonomia total. Se for notícia, comprovada, se todos os lados forem ouvidos, a gente pode publicar. Se o empresário ou o banqueiro foi preso, a gente publica. O Extra [supermercados] é um dos maiores anunciantes do jornal, mas publicamos todo o caso da confusão do Casino. Primeiro, porque o jornal tem três mil anunciantes, então, mesmo se o Extra um dia falasse “nunca mais anuncio em vocês”, o jornal continuaria existindo. Segundo, porque a gente vive da credibilidade. Se pararmos de fazer alguma coisa por causa dos anunciantes, damos um tiro no pé. Os anunciantes são importantes, garantem a independência do jornal, mas existe a “separação Igreja-Estado”. Quanto mais separado, melhor para todo mundo.

Para quem o caderno Mercado é escrito?

A.E.S.P. – A Folha é um jornal basicamente lido pelas classes A e B. É um público metade homem, metade mulher, com grupos de idade bem espalhados, porém mais concentrados nos 30/40 anos; 60% de casados. Mas claro que temos consciência de que escrevemos para um público muito heterogêneo, então procuramos escrever um pouco para todo mundo. Poderia ser difícil ser uma editoria de economia em um jornal de informação geral se você tivesse a pretensão de ser o Valor [Econômico], por exemplo – estando dentro da Folha –, porque você nunca vai conseguir dar todas as notícias econômicas relevantes para o público da Economia. Em um jornal como a Folha, você precisa ter consciência disso e ter um foco um pouco diferente, que é traduzir o principal do noticiário econômico para o leitor de informação em interesse geral. Você não vai dar uma informação específica para aquele leitor ou aquele setor. Você vai estar atendo para informações de um setor específico que tenham um interesse e uma repercussão mais geral. Essa é a sua função.

A Folhatem se mostrado mais sucinta nos textos e explorado mais tabelas e infográficos. Qual seria o motivo disso? Traduzir o “economês” ao público leigo?

A.E.S.P. – A gente tem essa preocupação. Quase nunca conseguimos, mas deveríamos fazer mais. A mudança de ser um jornal com menos texto e mais gráficos vem 1984, quando começou o Projeto Folha. Ele teve um momento de radicalização nos anos 90, mas, de lá para cá, pouco mudou. O que a gente tenta fazer é não se estender demais, porque as pessoas não têm tempo. É verdade que estamos diminuindo, mas estamos fazendo isso não para dar menos importância, mas para atender melhor o leitor, porque ele quer que a gente resuma.

“A transparência ainda é muito pequena”

Uma das principais críticas feitas ao jornalismo econômico é que ele se pauta demais em questões empresariais. Você concorda?

A.E.S.P. – Eu não penso nisso, na verdade. A notícia da empresa é relevante para o trabalhador também. Eu acho ridículas todas essas teorias conspiratórias. Se você olhar o caderno de mercado da Folha, você vai ver que o noticiário de empresa não é o principal. Acho que os jornais dão bastante atenção para o lado social (os direitos do trabalhador, empregos, desemprego). Até me criticam pelo contrário: falam que a gente muito pouco empresa. Então, quem sou eu, quem é qualquer um para dizer o que o jornal tem que publicar? É o leitor que tem que dizer.

E a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo)?

A.E.S.P. – A Abraji foi uma associação que a gente criou em 2002, muito por influência do que tinha acontecido com o Tim Lopes e porque já era muito forte, nessa época, uma associação parecida nos Estados Unidos, chamada IRE (Investigative Reporters and Editors), com a qual a gente já tinha contato. Logo depois que o Lopes morreu, Rosental Calmon Alves, professor da Universidade do Texas, que tinha assumido uma parte da fundação Knight – fundação americana que tem muito dinheiro e procura incentivar o Jornalismo nas Américas — patrocinou um seminário lá no Rio para discutir segurança de jornalistas. Nesse embalo, chamei o Marcelo Soares e falei: “Cria um grupo no Yahoo para a gente colocar um monte de jornalista e começar a discutir isso”. Criamos a associação – muito com o trabalho do Marcelo Beraba, Fernando Rodrigues, José Roberto de Toledo, e depois de pessoas de outros jornais, como Marcelo Moreira, Thiago Herdy e outros –, que foi se profissionalizando com o tempo e hoje anda com suas próprias pernas. A Abraji faz hoje o melhor congresso jornalístico do Brasil. É o lugar onde se faz um mínimo de treinamento, que quase não há, né?

Os objetivos seriam o engajamento e o debate?

A.E.S.P. – Tem três linhas principais. Uma é o direito de acesso à informação. No Brasil, a transparência ainda é muito pequena. A Lei de Acesso foi feita muito com a participação do Fernando Rodrigues e da Abraji. A segunda linha é a formação (cursos, técnicas etc.). A outra é o intercâmbio (atualização, ajuda e formação de grupos).

“Um repórter teve que ficar fora do país durante meses”

Aprovada a Lei de Acesso à Informação, vocês ainda têm dificuldades em obter dados oficiais?

A.E.S.P. – Ah, demais, né? É difícil conseguir informação. As pessoas não querem divulgar, e nós também não sabemos usar os recursos direito. Às vezes, nem os órgãos têm as informações, porque não existe essa cultura no Brasil. Está melhorando, mas ainda não existe. Acho que ainda há muito a caminhar.

O Brasil é um dos países onde mais jornalistas são assassinados. A Liberdade de Expressão pode estar ameaçada?

A.E.S.P. – Acho ainda não está nesse ponto, mas é preocupante. Não é um problema exclusivo dos jornalistas. É um problema dos juízes, promotores, médicos… É um problema da sociedade brasileira. Ainda não conseguimos atingir uma estabilidade econômica ou social que garanta a justiça como deveria. Qualquer violência contra o jornalista é ruim, mas a gente não é mais especial e nem mais perseguido do que qualquer outro profissional. Talvez sejamos até menos; talvez tenhamos mais privilégios que esses profissionais, porque temos acesso aos meios de comunicação e a maior parte das pessoas que é perseguida não tem como contar para os outros.

Uma vez sabendo de ameaças a jornalistas, qual é a postura assumida pelos jornais?

A.E.S.P. – No ano passado, um repórter amigo nosso teve que ficar fora do país durante meses porque fez uma reportagem sobre um coronel da PM que era acusado de integrar um grupo de extermínio. Ele e os filhos começaram a ser ameaçados. A gente explica, faz matéria. O ombudsman escreveu sobre isso, o jornal bancou o jornalista fora do Brasil, pedimos proteção para a polícia. Mas é um problema institucional. Não adianta querer resolver com medida paliativa.

Puritanismo e autoritarismo ideológico

Quais são os limites éticos da atuação do jornalista? Até que ponto o recurso da câmera escondida, por exemplo, é válido?

A.E.S.P. – Essa é uma daquelas questões que têm que ser discutidas caso a caso. Você vai ter que pesar várias coisas para decidir. Primeiro: qual a relevância daquela informação. Segundo: se você tem algum outro jeito de obtê-la. Terceiro: que risco está envolvido na estratégia que você vai usar para obter aquela informação. Quarto: se você vai cometer algum crime — uma coisa é você colocar uma câmera escondida, e outra é você entrar num local de propriedade privada, por exemplo, ou subtrair um documento de alguém.

O que você pensa a respeito da mistura entre jornalismo e entretenimento?

A.E.S.P. – O jornal é um produto que tem que ter de tudo. Quadrinhos, por exemplo, são supérfluos, mas a gente quer ler. Não têm impacto social nenhum, não tiram uma pessoa da miséria, mas o jornal tem que publicar, porque o leitor quer ler. A função do jornal não é combater pela melhora dos mais pobres – essa é a função do governo, que foi eleito pra isso –, mas informar sobre todos os assuntos que interessam ao leitor. Eu acho que deve haver liberdade total para deixar as pessoas escolherem. Educação e liberdade são tudo. Quanto mais vozes você tiver, mais as pessoas vão poder escolher. E quem é você para dizer que elas estão escolhendo errado? O CQC, por exemplo: eu acho super engraçado, divertido, inteligente; não tenho nada contra o senso de humor. E a mesma pessoa que assiste ao CQC pode querer ler a piauí, assistir o Jornal Nacional, ouvir a CBN e comprar Playboy – e não vai ser para ler as entrevistas; o dinheiro é dela, ela faz o que quiser. Se não existisse CQC, essas pessoas iriam ler jornal? A gente tem que investir na educação das pessoas e parar com esse puritanismo de achar que só textos combativos pela melhoria da sociedade são corretos porque a gente mesmo gosta de ir ao cinema, ver uma comédia, passar a noite toda no bar tomando cerveja… E o que a gente está acrescentando no mundo ao fazer isso? Nada, mas é nosso direito! Isso não impede que a gente, no dia seguinte, vá trabalhar pelo bem do país. Acho que tem um puritanismo e certo autoritarismo ideológico que quer regular o que é certo e errado. Eu sempre desconfio desse tipo de coisa.

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Marcos Mortari, Gabriela Stampacchio e Laís Oliveira são estudantes de Jornalismo

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