Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Sobre profissão, família e esporte

Por Renata Cardarelli em 30/07/2013 na edição 757

“Três tempos. Um, dois, três, quatro, olha o último: cinco”. É assim que o narrador José Silvério anuncia que vai começar a gravar o boletim esportivo para a Rádio Bandeirantes. Com 68 anos de idade e 50 de carreira, o profissional afirma ao Comunique-se que não seria a gripe que o acomete que o faria cancelar a agenda de compromissos. Apesar da doença e do frio da manhã dessa terça-feira, 23, o locutor esportivo recebeu a reportagem na sede da Band, em São Paulo, e conversou durante cerca de uma hora sobre sua carreira, a relação com a família e a imprensa esportiva.

Zé, como é chamado pelos colegas da emissora, ganhou destaque em diversos veículos de comunicação nos últimos dias, devido aos 50 anos de profissão, comemorados no sábado, 20. A agenda é corrida, ao longo do dia, ele troca diversos telefonemas com a assessoria de comunicação da Band. “Ontem o Otávio Mesquita foi lá em casa”, comentou com a assessora Vanessa Lorenzini. Depois de atender ao Comunique-se, Silvério recebeu um fotógrafo da revista Veja, para a qual deu entrevista na segunda-feira (22/7).

Acompanhe a entrevista concedida ao Comunique-se:

Como você decidiu seguir a carreira de locutor esportivo?

José Silvério – Estava me preparando para fazer vestibular, mas em Lavras (MG) só tinha um curso superior, que era o de agronomia. Falei: ‘Não vou fazer agronomia’. Foi uma briga danada na minha casa. Queria ser locutor. Tive uma chance e comecei, em 1963, na Rádio Cultura de Lavras, que, na época, era da Rádio Bandeirantes.

Qual foi a reação da sua família?

J.S. – Minha mãe ficou uma fera comigo. Eu não tinha pai. Tina o irmão da minha mãe, que dava bastante palpite. Os dois queriam que eu me formasse. Depois, eu me formei em jornalismo, mas mais velho.

Quando sua mãe viu que você teve sucesso na carreira, o que ela achou?

J.S. – Era o máximo, o filho dela tinha virado locutor. Como éramos só nós dois, era uma glória para ela. Ela não perdia um comercial que eu fazia para a televisão, era uma fanzoca.

E seu pai?

J.S. – Não existe pai na minha vida. Sou filho único. Brinco com todo mundo, que sou um fenômeno até nisso, sou filho só de mãe. Ela foi tudo. Minha mãe namorou e teve um filho, pelo menos, tenho certeza que fui fruto de um grande amor.

Quando você era criança, inventava os jogos e fingia que estava irradiando?

J.S. – Inventava, eu criava futebol o dia inteiro. Qualquer coisa que visse na rua era motivo de irradiar futebol. Irradiava jogo de botão, treino de time mirim. Tenho um amigo que é professor aposentado e que me ligou esses dias: “Estava vendo uma reportagem sobre os 50 anos da sua carreira, você tem muito mais que 50 anos, porque desde menino você já irradiava aqui em Itumirim [cidade natal de Silvério]”.

Foi por isso que você ficou conhecido como menino louco?

J.S. – Louquinho, aquele louquinho que fala o dia inteiro. Nunca foi tímido, sempre fui ousado. Em Lavras, a Rádio Cultura tinha um alto falante na praça e irradiava os jogos para a Bandeirantes. Eu desligava o alto falante e fingia que estava narrando o jogo.

Você ouvia muito rádio na infância?

J.S. – Ouvia. Era o que a gente fazia quando podia, porque em Itumirim não tinha energia elétrica. Na cidade, havia três rádios, que eram de bateria. Tinha um cara que era dono de um caminhão. Ele emprestava a bateria para colocarmos no rádio que tinha no bar. Quando ele atrasava era uma tristeza, uma tragédia, porque não dava para ouvir o jogo.

Como foi sua ida para a Rádio Itatiaia?

J.S. – Quando narrei meu sétimo jogo para a Rádio Cultura, um rapaz da Rádio Itatiaia me ouviu. Na segunda-feira seguinte, ele falou para os colegas que tinha ouvido um locutor em Lavras e que tinha gostado. Ligaram para mim e os caras me chamaram para fazer um teste.

Foi nessa época que você tinha 18 anos e teve que pedir autorização para a sua mãe?

J.S. – Foi. Ela não queria deixar de jeito nenhum, mas eu fui.

E o tio também…

J.S. – Não o tio dessa vez não deu palpite. Acho que nem estava em Lavras (risos). Fui, fiz o teste e fui aprovado. Comecei a trabalhar na Rádio Itatiaia em 1º de abril de 1964. Comecei lá em baixo, acho que eram cinco narradores, então, eu era o último na hierarquia da rádio. Irradiava campeonato mineiro de júniores, irradiava o Vila Nova, que era um time de Nova Lima.

Teve algum locutor em quem você se inspirou?

J.S. – Inspirar, inspirar, não. As rádios que eu mais ouvia eram a Bandeirantes, que tinha o Pedro Luiz, que eu gostava muito, e a Rádio Continental do Rio, que tinha o locutor chamado Clóvis Filho. Também tinha a Rádio Nacional do Rio, que tinha o narrador Jorge Cury, que eu gostava. Mas a Nacional naquela época não fazia todos os jogos e normalmente futebol no rádio era só sábado e domingo, não tinha essa enxurrada de futebol que tem hoje. Então era mais difícil começar, porque as rádios não precisavam de muitos locutores. Às vezes, você ficava 15, 20 dias sem irradiar um jogo.

Depois você passou para a Rádio Inconfidência?

J.S. – Sim, que era uma rádio teoricamente maior, mas a Itatiaia tinha mais popularidade e fazia mais futebol. Na Rádio Inconfidência, dei uma travada na minha vida, porque era uma rádio complicada. Era uma rádio do estado e não era tão simples trabalhar lá. Era vigiada até a alma e tudo isso aconteceu no pico da Revolução de 1964. Fui para a Inconfidência em 1966, quando Belo Horizonte tinha manifestação de rua o dia inteiro. 

Você acha, então, que a fase na Inconfidência não foi boa?

J.S. – Não, perdi tempo. Depois, fui para a Continental do Rio, que valeu a pena. O Rio de Janeiro estava muito acima de Minas Gerais. A rádio Continental irradiava muito esporte. Lá aprendi a narrar boxe, basquete, vôlei, natação.

Você se lembra de qual foi a primeira grande narração?

J.S. – A primeira transmissão foi pela Itatiaia, em São Paulo, no Pacaembu, em novembro de 1964, Santos e Flamengo. O Santos foi campeão da Taça Brasil. Você contava para todo mundo, se sentindo o máximo por fazer um jogo desses e os dois times eram ótimos.

Você tem o áudio?

J.S. – Não, tenho um disco inaudível. Tentei recuperar, mas não deu. A qualidade de som era muito diferente.

E a estreia no Maracanã, como foi?

J.S. – O Maracanã era o sonho. Tinha um amigo que falava: “no dia em que você irradiar o jogo no Maracanã, você vai se sentir, porque lá é a Meca”. A estreia foi em 1965, Flamengo e Vasco, quando começou o quarto centenário do Rio de Janeiro.

Desses 50 anos de carreira, 13 foram na Bandeirantes…

J.S. – Eu cheguei aqui dia 1º de agosto de 2000. A Bandeirantes foi fundamental para mim, deu um up na minha vida profissional. Foi muito legal ter vindo para cá.

Por que deu um up?

J.S. – A força da rádio. Eu estava meio acomodado na Jovem Pan, estava tudo certo para mim. O ser humano é assim, precisa de um empurrãozinho. Essa vinda para a Bandeirantes foi um belo empurrão. A rádio é muito forte, tem muita tradição no futebol. A Jovem Pan não tinha essa tradição, aliás, quando cheguei, dei um pouco de força à emissora. Na Bandeirantes, foi o contrário, ganhei essa força.

Você é perfeccionista?

J.S. – Sou, muito. Sou perfeccionista, sou chato, sou cobrador, principalmente de mim. Para todos os caras que trabalham comigo, sempre explico que sou muito chato.

É difícil de trabalhar com você?

J.S. – Depende, se você quiser aprender é muito fácil trabalhar comigo, porque eu sou bom para ensinar também. Nunca tive problema pessoal com nenhum companheiro, mas já tive problema profissional com alguns companheiros, exatamente por causa desse meu perfeccionismo. Eu sou metido a ser perfeito, mas, na verdade, ninguém é.

Tem algum gol que é inesquecível e que beira a perfeição?

J.S. – Tem, os dois gols do Ronaldo, na final da Copa de 2002. Aquele gol do Guerrero, que foi campeão do mundo pelo Corinthians, também foi perfeito. Esse do Gerrero narrei todos os lances e acertei todos os jogadores. Não é sempre que se consegue. É uma raridade. Tem gente que pergunta: “você já errou?”. Eu respondo: “não, já acertei”.

Muita gente fala que você é o “Pelé da narração”, até porque já narrou mais gols que o próprio Pelé já fez. Sabe quantos gols irradiou?

J.S. – Não. Há um cálculo, mas é aleatório. De 2,5 mil a 3 mil gols em 50 anos.

Como se sente ao ser comparado com Pelé?

J.S. – Ah, feliz. Ser comparado com o top do futebol dá a entender que você é o top dos locutores, mas nunca me preocupei em ser o top. Por causa dessa mania de querer ser perfeito, sempre tive a preocupação de fazer boas transmissões, de não errar. Na primeira vez em que falaram que eu era o Pelé do rádio eu fiquei naquela de se achar (risos).

Você lembra quem falou?

J.S. – Foi um rapaz da Gazeta Esportiva, que tinha uma coluna sobre rádio. Isso foi no fim dos anos 1970, quando eu estava na Jovem Pan. Tenho em casa guardado.

Pensa em aposentadoria?

J.S. – Não, não é questão de pensar. Aposentadoria e morte são duas coisas absolutamente certas na minha vida. Vou morrer ou vou parar primeiro, não sei o que vai acontecer antes. Não tenho preocupação nenhuma com relação a isso, são fatos.

Qual o balanço desses 50 anos?

J.S. – Ainda estou, não fui. Mas se pensar em termos de vida, é legal. Criei uma família, construí um patrimônio, que não é de gente rica, mas para mim é, porque não tinha nada. Construí uma carreira digna. Dizem que ter orgulho é errado, mas tenho um: onde eu estive, posso voltar. Em Lavras, por exemplo, fui vendedor na rua, fui cobrador, virei locutor e voltei para ter uma construtora. Bandeirantes e Jovem Pan são duas rádios que saí e voltei. A minha vida é uma vida de muito trabalho.

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Renata Cardarelli, do Comunique-se

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