Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > ‘THE WASHINGTON POST’

Cidadão Bezos?

Por Esther Dyson em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido do Valor Econômico, 19/8/2013, tradução de Rachel Warszawski; intertítulo do OI

Meu primeiro emprego sério foi como checadora da revista “Forbes”. Acho que os checadores são os coroinhas do jornalismo. E, apesar de ter deixado essa igreja, ainda sinto profunda reverência pela verdade sagrada. Assim, na maior parte da discussão sobre modelos de negócios desencadeada pela venda do “ Washington Post “ para o fundador da Amazon.com, Jeff Bezos, os valores que me são caros estão sendo lesados. Como assim?

O desafio que as considerações de negócios representam para o jornalismo – tanto para os fornecedores de notícias quanto para os comentaristas – assume a forma de três tentações distintas: manipular a notícia para agradar aos leitores, em vez de informá-los, a fim de atrair anunciantes; manipular a notícia para agradar diretamente aos anunciantes; e manipular a notícia para defender os interesses políticos ou comerciais dos donos. Essas tentações sempre estiveram presentes, mas a cobertura dos acontecimentos poderia ser respaldada por cadernos que agradassem ao público leitor, seções especiais que agradassem ao anunciante e análises de produtos, cadernos de serviços cheios de anúncios dos produtos em questão, e os classificados.

Atualmente o jornalismo de jornal impresso está em processo de fragmentação. Marcas e anunciantes têm capacidade para falar diretamente aos clientes e os mercados não precisam mais do poder de comunicação de um jornal para associar compradores a vendedores.

O jornalismo investigativo e o comentário sério, a exemplo da religião, não têm um modelo de lucros. Atendem a um objetivo mais elevado (embora possam ser, e muitas vezes sejam, corrompidos ou desviados para fins ruins).

Assim, devemos dar as boas-vindas a Bezos nesse universo? Muitos comentaristas preveem que ele digitalizará, monetizará, revolucionará o “Post” (seja lá o que isso signifique). Ele administra a Amazon com firmeza e para o longo prazo; a empresa gera muito dinheiro, que ele reinveste em favor dos seus acionistas.

Mas foi Bezos pessoalmente, e não a Amazon, quem comprou o “Post”. Ele, como pessoa, é um doador generoso à Long Now Foundation (de cujo conselho de administração faço parte) e alguém que fundou e detém pessoalmente uma empresa de foguetes, a Blue Origin (faço parte do conselho de uma empresa concorrente chamada XCOR).

Dever do jornal

Acho – na verdade, espero! – que Bezos saberá fazer as devidas distinções. Ele entende a diferença entre mídia (outro de seus investimentos pessoais é o site de internet Business Insider) e jornalismo.

Também estamos descobrindo a economia comportamental – as idiossincrasias e impulsos emocionais humanos que levam as pessoas a realizar coisas que fazem pouco sentido do ponto de vista econômico. A melhor piada de todas – a de que Bezos comprou o “Post” por engano, por meio de uma compra com um só clique equivocada (funcionalidade patenteada pela Amazon) tem um fundo de verdade. A aquisição não foi uma decisão de motivação econômica, embora não tenha sido feita por engano.

Provavelmente não existe um modelo de negócios sustentável para jornais como o “Post”. Mas eu acho que existe, sim, valor sustentável do tipo que nenhuma empresa ou investidor levado a agir por motivos financeiros poderia jamais justificar.

O ato de Bezos não é como as recentes compras da “ Newsweek “, em que havia a ilusão de melhorar seu resultados, ou do “ Boston Globe “ por John Henry, controlador do time de beisebol Boston Red Sox e do Liverpool Football Club. Talvez o exemplo mais interessante seja Rupert Murdoch, que recentemente dividiu sua News Corporation, de controle familiar, na empresa de TV e de filmes 21º Century Fox e na nova News Corp., menos lucrativa, que mantém as operações noticiosas e editoriais.

Embora Murdoch continue sendo presidente do conselho de administração das duas, todos esperam que ele se concentre mais na divisão de notícias. Essa unidade inclui tanto tabloides que agradam ao cliente com uma agitada matéria de tráfico de influência, espionagem e pagamento de propina, e o jornalismo venerável do “The Wall Street Journal”.

E há o próprio Project Syndicate (que publica esta coluna). Originalmente financiado por mais um bilionário, George Soros, o Project opera de forma independente para fornecer opiniões e análises bem-embasadas e difíceis de monetizar sem “publitorial” ou análise de produto à vista.

Uma maneira de pensar no melhor modelo de negócios para o jornalismo é pensar no melhor modelo de negócios para comida. É um bufê para a pessoa se servir à vontade? Um santuário a la carte com ótimos vinhos, que geram a maior parte do lucro? Uma franquia com pratos pré-preparados? Tudo isso pode funcionar – mas só com um bom gerenciamento.

Mas há também a cozinha de sopa filantrópica – no caso do “Post”, altamente sofisticada, que fornece comida nutritiva num universo onde restaurantes agora oferecem comida menos saudável, porque a utilizam para vender outros produtos.

No final das contas, acho que Bezos quer menos controlar o “Post” do que libertá-lo. Como escreveu Bezos em memorando aos funcionários: “Os valores do ‘Post’ não precisam de mudança. O dever do jornal continuará sendo para com seus leitores e não para com os interesses particulares de seus donos. Vamos continuar a seguir a verdade aonde quer que ela leve…” Se eu estiver errada, espero que este comentário contribua para afligi-lo em direção à retidão!

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Esther Dyson, diretora da EDventure Holdings, é uma empresária e investidora concentrada em mercados emergentes e tecnologia. Copyright: Project Syndicate, 2013. www.project-syndicate.org

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