Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Cobertura perde a corrida para o dólar

Por Rolf Kuntz em 20/08/2013 na edição 760

“Dólar dispara, vai a R$ 2,39 e ameaça controle da inflação”, noticiou o Globo em manchete no sábado (17/8). O Estado de S.Paulo abriu a edição com um título mais no estilo do mercado financeiro: “Apesar da ação do BC, dólar tem maior cotação em 4 anos”. O assunto valeu na primeira página da Folha de S.Paulo apenas uma chamadinha de uma coluna. Mas um gráfico no caderno de Economia chamou a atenção para um detalhe pouco valorizado, ou mesmo negligenciado, pelos concorrentes. A desvalorização do real diante da moeda americana, 13,75% neste ano, foi a segunda maior num conjunto de dez moedas de emergentes. O primeiro lugar ficou para o rand, da África do Sul, com depreciação de 15,76%. A menor variação, 0,12%, foi a do peso mexicano, das dez moedas a mais dependente do comércio com os Estados Unidos.

O gráfico da Folha é interessante pela comparação exibida e também pela comparação evocada. O real foi uma das moedas mais valorizadas, talvez a campeã, quando o dólar inundou os mercados internacionais nos últimos anos. Desde o agravamento da crise financeira, em 2008, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) emitiu enormes volumes de dinheiro, numa tentativa de estimular o crédito e a reativação da economia. Boa parte dessa emissão vazou para o mercado internacional. Uma das consequências foi a valorização de muitas outras moedas.

O ministro Guido Mantega, da Fazenda, acusou os americanos de promover uma guerra cambial para baratear suas exportações e encarecer as de outros países. A presidente Dilma Rousseff endossou essa tese e lançou a expressão “tsunami monetário”. A acusação poderia ser mais genérica, porque também houve grandes emissões de libras, euros e, mais tarde, de ienes. Em todos os casos, o objetivo primário foi certamente aquele declarado pelas autoridades monetárias, estimular o crédito e facilitar o enfrentamento da crise no setor financeiro. Mas o efeito secundário, nos mercados de câmbio, foi tão inegável quanto previsível.

Contas externas

Durante esse período, a valorização do real afetou os preços de exportação e de importação no Brasil. Outros fatores de competitividade, de caráter estrutural, podem ter sido mais importantes e continuam sem solução, como a ineficiência do sistema de transportes e a irracionalidade do sistema tributário. Mas o câmbio sempre esteve na lista de reclamações de alguns líderes empresariais e, certamente, no discurso oficial.

O Fed continua emitindo muita moeda, porque mantém, ninguém sabe por quanto tempo, o programa de compra de até US$ 85 bilhões mensais de títulos públicos em circulação no mercado e de papéis lastreados em hipotecas. Mas, apesar disso, o dólar vem subindo em todo o mundo, por autoridades americanas anunciaram a disposição de encerrar esse programa, se os indicadores econômicos dos Estados Unidos continuarem melhorando.

Nenhum prazo foi fixado, mas há quem aposte em mudança neste semestre, talvez já em setembro. Não será um enxugamento drástico, mas a reação dos mercados tem sido muito forte, com muita procura de moeda americana e de papéis denominados em dólar, como os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Esse movimento é em parte explicável por mudanças nos fundamentos, como o aumento do emprego, a expansão do investimento e a melhora das condições de consumo no mercado americano, mas também há um importante componente especulativo. Em julho, como noticiou o Valor na quinta-feira (15/8), as carteiras dos fundos de investimento em dólar foram as mais rentáveis. No ano, até 9 de agosto, o ganho chegou a 11,4%.

A cobertura seria enriquecida se as matérias fossem além dos movimentos do dia a dia e refletissem bem mais que as análises dos especialistas do setor financeiro. Valeria a pena levar em conta a enorme variação do real, para cima e para baixo, nas duas situações do mercado. Por que a moeda brasileira é tão vulnerável às oscilações do mercado internacional de câmbio?

Nas condições atuais, parte da resposta é óbvia e tem sido mencionada por analistas do mercado. O real se enfraquece também por causa da erosão das contas externas e da insegurança gerada pela política econômica.

Causas internas

Parte dessa explicação foi admitida também pelo ministro Guido Mantega. Em entrevista na sexta-feira I(18), ele mencionou a piora do saldo comercial, mas, como de costume, atribuiu a instabilidade cambial principalmente a fatores externos. Na mesma entrevista, divulgada em cima do fato pela Agência Estado, ele apontou os prováveis efeitos positivos da mudança do câmbio para as exportações e referiu-se à consolidação de um novo patamar para a relação entre o real e o dólar. A aceitação de um “novo patamar” pelo ministro foi apontada por economistas do setor financeiro como um estímulo adicional à compra de dólares.

De toda forma, os jornais se abstiveram, pelo menos até sábado, de examinar uma questão evidente e importante: por que o real variou mais que a maior parte das moedas tanto na valorização quanto na desvalorização? Por que outros emergentes foram menos afetados nas duas fases? O Brasil terá sido vítima de uma conspiração internacional ou as causas principais, agora como antes, são internas e incluem, por exemplo, a inflação e as características das políticas monetária e fiscal? Este parece um bom assunto para repórteres curiosos.

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Rolf Kuntz é jornalista

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