Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA NINJA

Não é livre, não é jornalismo, mas vai ficar

Por Mauro Malin em 20/08/2013 na edição 760

Por mais que se admirem os resultados do ativismo capaz de aproveitar, na revolta de junho, o barateamento do custo de transmissão de som e imagem em tempo real para mostrar o que a grande imprensa não tinha enxergado e não conseguia exibir, não é possível nem lícito ignorar problemas mais sérios do que a confusão entre narrativa e jornalismo, primeiro e elementar dissídio que a retórica ninja provoca.

Em âmbito conceitual, a simples narrativa feita por indivíduo participante de manifestação pública – tão importante quanto, numa democracia, a que fosse feita por alguém distante, alheio, ou mesmo contrário ao ato, porque o direito de votar de ambos é idêntico – não pode ser chamada de jornalismo.

O nome Ninja mistura as duas coisas (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação). A mídia jornalística, em parte vulnerável a tudo que é novidade, em parte consciente das lacunas e deficiências de seu próprio trabalho, deu ao coletivo de narradores-ativistas (ou seriam ativistas-narradores?) um destaque de fazer qualquer marqueteiro babar de inveja.

Isso decorreu, em grande medida, da magnitude e da importância dos acontecimentos e do ovo de Colombo posto em cima do asfalto pelos jovens ninjas. Não se trata, portanto, de criticar a acolhida dada ao Mídia Ninja, mas de pontuar que:

1. Os verdadeiros “heróis” de junho não foram os ninjas, mas os passe-livristas, ou emepelistas (do MPL, Movimento Passe Livre), que apareceram breve e reticentemente nos meios de comunicação (notadamente no Roda Viva, da TV Cultura);

2. Fenômeno mais antigo e mais importante do que o Ninja, seu berço, o Fora do Eixo, foi tardiamente para a berlinda.

Irracionalidade maniqueísta

Não cabe deixar sem reparos a saraivada de denúncias dos últimos dias, que não é uma conspiração, mas sim fruto, em parte, de uma irracionalidade maniqueísta entranhada nos espaços e tempos jornalísticos.

É maniqueísta: se o Mídia Ninja não é tudo que se via nele, passa a ser nada. Se não é A, é B. Se não é um lado, é o “outro lado”.

Pior: se os enamorados se frustraram com algumas características do objeto de tão súbita paixão, passam a odiar. Os ataques “com sangue nos olhos” são, portanto, duplamente criticáveis. Pelo maniqueísmo, pelo irracionalismo. Alberto Dines cravou: “Penso, logo brigo” (ver “A compulsão do arranca-rabo”).

O pior chato

Talvez a contribuição mais importante dada pelos Ninjas até aqui tenha sido operada por contraste. Mostraram-se capazes de estar no meio de uma irrupção vulcânica cuja vinda a mídia nem remotamente detectou. (E, não o fazendo, deixou a opinião pública, as autoridades, os intelectuais e tutti quanti desguarnecidos para lidar com ela.)

Os Ninjas pautaram o que outros não pautaram, viram o que outros não viram, narraram o que outros não narraram. E isso aconteceu porque são fruto da movimentação de uma rede de coletivos – movimentos sociais, políticos, culturais e artísticos – alheia aos circuitos convencionais, aos quais a mídia jornalística serve acriticamente (teria bastado ser um pouquinho crítica para dar mais atenção ao que está fora do sacramentado). Como se sabe, o pior chato é o que tem razão.

Não há como tentar entender algum fenômeno, seja de que natureza for, sem partir de uma descrição. E, por mais que se tenha escrito a respeito do Ninja, isso está fazendo falta. Para começar, a própria sequência dos fatos está fora do lugar.

Antes do Mídia Ninja, o que apareceu no cenário foi a Pós-TV, nascida na primeira transmissão em streaming feita por amadores, em maio de 2011, durante a 2a Marcha pela Liberdade, em São Paulo. Essa marcha foi uma espécie de comemoração da decisão do Supremo Tribunal Federal que garantiu o direito de manifestação a favor da legalização da maconha.

A 1a Marcha pela Liberdade – protesto contra a repressão brutal da PM-SP à Marcha da Maconha, dias antes – teve como objetivo pedir justamente a garantia de livre manifestação a favor de qualquer causa que não seja vedada na Constituição. Existem causas proibidas, libertário leitor. Veja abaixo um quadro que procura explicar isso.

A 2a Marcha pela Liberdade foi convocada para celebrar o êxito da 1a Marcha. Surge então a Pós-TV, que virá a ser o berço do Ninja, criado no contexto de uma reunião do Fórum Social Mundial realizada na Tunísia, no fim de março de 2013.

Ascensão espetacular

O Ninja sai espetacularmente de dentro do vulcão de junho. Ascensão triunfal em menos de três meses. Entretanto, o coletivo se vincula umbilicalmente ao Fora do Eixo (FdE), que nesta altura do campeonato dispensa apresentações (quem, entretanto, não sabe do que se trata pode navegar aqui).

O FdE é pelo menos sete anos mais velho do que o Ninja, mas a mídia jornalística inverteu a cronologia da vida e deu ao filhote grande destaque sem ter apresentado devidamente ao público o pai.

Esse reparo não é fruto de implicância e aplica-se a mim mesmo, na qualidade de observador da mídia. Acontece que é impossível entender como funciona o Mídia Ninja desconhecendo o FdE, que lhe fornece recursos financeiros e instalações (a redação do Ninja fica na Casa do FdE do Cambuci, em São Paulo).

Se o Ninja depende tanto do FdE, a respeito do qual recentemente foram reveladas conexões com poderes governamentais (federal, estaduais, municipais) e partidários (PT, PV, PSDB), não se aplica a suas narrativas o qualificativo de “independentes”. Não é uma “mídia livre”, se é que existe alguma.

Como também não se trata de “jornalismo”, embora se trate claramente de “ação”, a identidade do grupo tem que ser questionada. É o que está sendo feito, muito tardiamente e em tom de Fla-Flu, para variar, por Dona Imprensa.

Recomenda-se mais diálogo e menos vociferação. Mais colaboração e menos imprecação. De parte a parte, evidentemente. O Ninja, e o que mais vier compor o cenário midiático, não podem mais sair de cena. Nem devem.

O que a Constituição proíbe e o que permite reivindicar

>> A Carta de 1988 veda o anonimato, daí decorrendo, por analogia, que manifestantes mascarados cometem ilegalidade;

>> Só autoriza manifestações pacíficas e desarmadas;

>> Exige “prévio aviso à autoridade competente” para manifestações em locais abertos ao público, o que se compreende a partir da leitura da frase anterior: “desde que não frustrem [os manifestantes] outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local”;

>> Existem formas de associação ilícitas, e o texto constitucional proíbe expressamente as de “caráter paramilitar”, ou seja, é proibido manifestar-se pela criação, por exemplo, de um “Exército Popular de Libertação Nacional”, como fez o Partido Comunista Brasileiro (PCB) entre 1949 e 1954, depois do cancelamento de seu registro (1947) e da cassação dos mandatos de seus parlamentares (1948), quando, portanto, como durante a maior parte de sua existência, estava ilegal e optou pela clandestinidade;

>> São crimes “inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia” torturar, traficar ilicitamente entorpecentes e drogas afins, praticar terrorismo e os crimes definidos como hediondos; “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”;

>> Crença religiosa e convicção política ou filosófica podem resultar em privação de direitos caso sejam invocadas por alguém para “eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei”;

>> É proibido praticar racismo, ipso facto manifestar-se a favor dele;

>> A Carta menciona “dano material, moral ou à imagem”, do que se depreende ser permitido bradar “Fora Cabral!” (palavra de ordem cuja natureza eleitoreira é difícil ignorar, diga-se a bem da verdade), mas proibido, sob as penas da lei, insultar Cabral.

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