Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > ‘MÜNCHENER POST’

O jornal que Hitler odiava

Por Matías M. Molina em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido do Valor Econômico, 16/8/2013; A Cozinha Venenosa: Um Jornal Contra Hitler, de Silvia Bittencourt, 373 pp., Três Estrelas, 2013; R$ 49,90. Para Entender Hitler: A Busca das Origens do Mal, de Ron Rosenbaum, 641 pp., Editora Record, 5ª edição, 2011; R$ 62,90; intertítulos do OI

Não foram pesquisadores alemães, mas um jornalista americano, Ron Rosenbaum, quem primeiro percebeu e divulgou a importância da luta contra Hitler por um pequeno jornal de Munique, o Münchener Post, que os nazistas chamavam de “a cozinha venenosa”. Em seu livro Para Entender Hitler, Rosenbaum escreveu que a batalha “entre Hitler e os corajosos repórteres e editores do ‘Post’ é um dos grandes dramas nunca relatados da história do jornalismo”. Eles foram, disse, os primeiros a se ‘atracar’ com o líder nazista, os primeiros a ridicularizá-lo, os primeiros a investigá-lo, a denunciar o lado avesso e sujo de seu partido, o comportamento criminoso e homicida mascarado por suas pretensões a movimento político, e foram os primeiros a tentar alertar o mundo para a natureza da besta feroz que rastejava em direção a Berlim. Foi ainda a primeira publicação a escrever sobre “a solução final” para os judeus.

Rosenbaum acrescenta que a história do Post e de seus jornalistas “nunca foi contada de verdade, sequer na Alemanha, ou talvez especialmente na Alemanha, onde é mais consolador para a autoimagem nacional acreditar que ninguém realmente sabia quem era Hitler, até ser tarde demais”, mas “os redatores do Münchener Post sabiam, eles publicaram a verdade para quem estivesse disposto a vê-la”. Em 12 anos de luta, o jornal divulgou algumas das percepções mais agudas e penetrantes do caráter, dos métodos e da mente de Hitler.

Rosenbaum explica o significado de “cozinha venenosa”. “Venenoso” era uma expressão reservada por Hitler para aqueles a quem odiava mais profundamente, era o epíteto com que se referia aos judeus: “envenenadores”. É difícil encontrar em seu vocabulário outra palavra mais carregada de ódio e aversão.

Tentativa de ignorar o passado

Depois da primeira edição do livro de Rosenbaum, em 1998, alguns pesquisadores voltaram sua atenção para o Münchener Post. A também americana Sara Twogood escreveu um longo ensaio sobre o jornal e na França foi divulgado um documentário dez anos atrás, Le Münchener Post Contre Hitler.

Recentemente, foi publicado o primeiro livro sobre o Münchener Post, intitulado A Cozinha Venenosa. A autora é a jornalista brasileira Silvia Bittencourt, que mora na Alemanha há mais de 20 anos e trabalha na Universidade de Heidelberg. O livro é uma agradável surpresa. Quando o autor desta resenha fez uma pesquisa a respeito do Süddeutsche Zeitung (SZ), de Munique, o de maior circulação e o mais liberal dos diários alemães de qualidade, não encontrou nenhuma referência ao Münchener Post. Mencionou a existência do Münchener Neueste Nachrichten, o principal jornal de Munique e concorrente do Post. Depois da Segunda Guerra Mundial, suas instalações foram utilizadas pelo SZ, que também empregou vários de seus ex-jornalistas. Ao escrever sobre a fundação do Süddeutsche Zeitung, mencionou que seu editor-chefe, Edmund Goldschagg, tinha dirigido um jornal de Munique até 1933. O que não sabia, até ler A Cozinha Venenosa, é que esse jornal era precisamente o Münchener Post.

Mas ainda hoje é chocante a ignorância na Alemanha sobre o principal inimigo de Hitler na imprensa escrita. Tanto Rosenbaum como Silvia estiveram na Altheimer Eck, a rua de Munique onde o Post tinha a sede, e não encontraram nenhum resquício dele, sequer uma placa. Ninguém o conhecia. Silvia procurou os descendentes dos principais jornalistas do Post e percebeu que também eles pouco sabiam de sua luta contra Hitler. A produção sobre o jornal continua escassa, principalmente na Alemanha. Talvez, como diz Rosenbaum, uma tentativa de ignorar um passado pouco agradável.

Tratado imposto

O Münchener Post foi fundado em 1886 ou 1887. Era um semanário de quatro páginas de pequenas dimensões que logo ficou ligado ao Partido Social Democrático (Sozialdemokratische Partei Deutschlands – SPD). Em 1890, passou a circular diariamente, à tarde, com uma tiragem de 5 mil exemplares. Mais tarde, teria oficinas próprias e seis jornalistas fixos e bem pagos, que também eram ativistas políticos. Vários deles ocupariam altos cargos na administração pública. Tornou-se um importante formador de opinião da Baviera. Passou a tirar 30 mil cópias. Posteriormente, publicaria também o semanário Bayerisches Wochenblatt. Em 1914, escreveu contra a entrada da Alemanha numa eventual guerra, mas, quando esta começou, seguiu a linha do partido, mudou de orientação e prestou uma “valiosa colaboração patriótica”, segundo o Ministério da Guerra.

Derrotada, a Alemanha atravessou um período conturbado. Um dos principais jornalistas do Post, Kurt Eisner, chegou a ser, por um curto período, ministro-presidente (governador) e chanceler da República da Baviera. Morreu assassinado a tiros. Quando outro jornalista do Post e político do SPD, Erhard Auer, fazia uma oração fúnebre por Eisner, foi também baleado, mas sobreviveu. O poder na região foi ocupado pelo Partido Popular Bávaro, conservador, que cercearia repetidas vezes a circulação do Post.

Como praticamente toda a Alemanha, o jornal ficou indignado com as condições do Tratado de Versalhes, de 1919, imposto pelos vencedores, que declarava a Alemanha culpada pela guerra, tirava todas as suas colônias, reduzia seu exército, tomava-lhe uma parte do território e impunha pesadíssimas reparações. O rigor das medidas favoreceu a ascensão do nazismo.

Duvidosa homenagem no Mein Kampf

Em abril de 1920, o Post mencionou a existência do “partido da suástica” (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães); em maio, num texto com destaque, chamava a atenção para um personagem que fazia inflamados discursos nas cervejarias e emergia na cena política – era um austríaco, um pintor fracassado, antigo cabo do exército alemão: “Na terça-feira à noite, um senhor chamado Hitler falou sobre o programa desse ‘partido’. Ele soltou as mesmas palavras e disparou os mesmos clichês que somos obrigados a ouvir nos eventos de propaganda nacionalista. Caluniou a social-democracia por sua defesa da Internacional e pregou o antissemitismo nos moldes nacionalistas.”

O Post seria o único jornal de Munique a cobrir regularmente, e cada vez com maior intensidade, o movimento nazista e as atividades de Hitler. Como diz Silvia Bittencourt, as notas publicadas eram cada vez maiores, mais frequentes e mais afiadas, criticando principalmente o antissemitismo. Numa delas, escreveu que Hitler se comportara mais como um comediante e que sua palestra, “lembrando uma cantiga, trazia a cada três frases o refrão ‘a culpa é dos hebreus’. Não há infâmia ou porcaria que não seja atribuída aos judeus”.

As notas sobre Hitler se repetiram e ele passou a provocar os repórteres do jornal nos comícios. Numa ocasião, disse que o homem do Post deveria tirar sua pele de cordeiro e sairia, daí, um burro. Atacava o jornal em suas falas e nos artigos para o Völkischer Beobachter, jornal do partido nazista. Dizia que “não se passava um dia sequer sem que o Münchener Post, uma das publicações judaicas mais imundas, manchasse e sujasse pessoas corretas”; era o “sapo judaizante da Altheimer Eck”, um “jornal judeu e marxista” e “arremessador piolhento de lama”. Ele ficou furioso com um texto provocador: “Adolf Hitler traidor?”, mostrando o descontentamento de vários de seus correligionários e questionando a origem das finanças do partido e a vida de luxo do seu líder. A partir de então, o Post ficou na mira de Hitler, que lhe prestaria a duvidosa homenagem de mencioná-lo nominalmente em sua obra Mein Kampf.

Fim dos males

Num de seus discursos, Hitler disse, dirigindo-se ao editor responsável: “Senhor Auer! O senhor e sua injeção de veneno têm grande parte da culpa pela miséria que o povo alemão vive hoje. Senhor Auer! O senhor recebeu dinheiro dos judeus do gado, o senhor se vendeu para os judeus.”

O jornal que enfrentava Hitler publicava longos textos teóricos e ensaios; tinha boas páginas culturais, mas era extremamente intelectualizado para os trabalhadores e a maioria da massa do partido. Sua pequena equipe dividia o tempo com a política, dedicando menos atenção ao jornal. Seu editor era também líder do Partido Social-Democrata da Baviera. Apesar de sua coragem e sua contundência, talvez não fosse a arma mais apropriada para a batalha. Mas foi o mais aguerrido na luta. O Post foi fechado e censurado repetidas vezes, como toda a imprensa de esquerda, por um Poder Judiciário ultraconservador, e a polícia invadiu sua sede, numa ação movida por “traição à pátria”. Mas no começo dos anos 1920 alcançaria uma tiragem de 60 mil exemplares. Ante a opacidade das finanças do partido nazista e as ligações de Hitler com a burguesia industrial, que o financiava, o Post perguntava: “O que, exatamente, ele faz para ganhar a vida?” E mostrava “como Hitler vive”.

Hitler capitalizou habilmente as dificuldades enfrentadas pela Alemanha na República de Weimar: o desemprego, a ocupação da região do Reno pelas tropas francesas, a inflação galopante – o preço de uma passagem de ônibus chegou a custar 150 bilhões de marcos e um dólar era trocado por 4,2 trilhões de marcos. Ele prometeu acabar com os males do país, que atribuía aos judeus. O número de afiliados ao partido nazista cresceu exponencialmente, assim como a fama de seu líder.

Informações confidenciais e documentos secretos

Em 1923, Hitler superestimou sua força. Tentou dar um golpe de Estado, conhecido como o “putsch da cervejaria”, com lances de ópera bufa, e fracassou. Durante os tumultos, os nazistas invadiram e destruíram as instalações do Post, o que levou o Völkischer Beobachter a escrever: “A cozinha venenosa na Altheimer Eck foi demolida”.

Julgado por alta traição, num processo que o jornal católico Bayerische Kurier qualificou como uma “catástrofe jurídica” e o Post como “túmulo da Justiça bávara”, Hitler foi condenado a cinco anos de prisão, em condições que “lembravam mais um hotel do que uma penitenciária”, que ele aproveitou para escrever Mein Kampf. The New York Times, que fazia uma boa cobertura da Alemanha, acreditou que a carreira política de Hitler estava encerrada. Foi solto, pouco mais de um ano depois, por boa conduta, refundou o partido e retomou a ascensão política meteórica, apesar de sua condição de apátrida, pois perdera a nacionalidade austríaca em 1925 sem conseguir a alemã.

No fim dos anos 1920 e começo dos 30, o Post atravessou momentos difíceis. Atingido pela crise econômica, tinha uma existência precária, agravada pelas depredações e pela contínua atitude hostil do governo bávaro, que o proibia, com frequência, de circular; seus jornalistas sofriam represálias e agressões físicas ante a complacência da polícia. Foi obrigado a diminuir o número de páginas, a tiragem caiu. Isso não impediu que o jornal aumentasse a intensidade dos ataques a Hitler, aos nacional-socialistas da cruz suástica e a seu adversário, o Völkischer Beobachter, que fora relançado e contava com mais recursos. O Post mostrou ter um incrível acesso a informações confidenciais e documentos secretos dos nazistas. Atacou também os comunistas, responsabilizando-os igualmente pela violência no país.

Ciúme doentio

Quando os nazistas tiveram um revés nas eleições de 1930, o Post subestimou seu futuro político. Mas a depressão e o desemprego decorrentes do crash da bolsa de Nova York, em 1929, levaram um grande número de alemães a depositar suas esperanças nas promessas de Hitler. Nas eleições seguintes, seu partido aumentou o número de votos, assim como os comunistas.

Para deter o avanço nazista a qualquer custo, o Post lançou o que Silvia Bittencourt considerou “a campanha mais suja de sua história”, e “desonesta e ambígua”, mas que Rosenbaum qualifica como um mergulho no coração desagradável da cultura de chantagem do partido de Hitler. Tratava-se de uma carta de um consultor jurídico do partido, Eduard Meyer, a Ernest Röhm, o chefe das forças de choque, as “camisas-pardas”, do movimento hitlerista. Nela, Meyer contava em detalhes episódios da vida homossexual de Röhm, a quem chantageou. A carta foi entregue pela noiva de Meyer ao Post, que pagou por ela e a publicou com o título “A vida sexual no Terceiro Reich”. A repercussão foi extraordinária. Röhm alegou que a carta era falsa e processou o jornal, para mais tarde retirar a queixa e pagar as custas do processo, que foi arquivado. Meyer se matou e a noiva foi condenada a oito meses de prisão. Mas o escândalo não abalou a ascensão de Hitler.

A “cozinha venenosa” também explorou o suicídio da atraente meia-sobrinha de Hitler, Geli (Angela Maria) Raubal, que morava em sua casa; ele foi, talvez, o grande amor de sua vida, mas não há provas de que fossem amantes. O Post quis saber qual era o papel de Hitler, doentiamente ciumento. Foi tão intenso o ataque do Post que Hitler ameaçou com um processo e pensou em suicídio. Mas conseguiu a cidadania alemã; em novembro de 1932, seu partido foi o mais votado e em janeiro do ano seguinte ele foi indicado para o posto de chanceler (primeiro-ministro).

Memória preservada

Em março de 1933, os nazistas invadiram de novo as instalações do Post. A maioria, escreveu um jornalista, “tinha cara de menino”. Destruíram com fúria o que encontraram, máquinas de escrever, telefones, até as torneiras das pias dos toaletes, jogaram móveis pelas janelas, fizeram uma fogueira com documentos, arrasaram as oficinas. Dessa vez, acabariam com o jornal para sempre. Os jornalistas tiveram que se esconder. Seus ataques contra Hitler tinham sido implacáveis. Eles, segundo Rosenbaum, “tinham a ficha de Hitler, tinham enxergado dentro dele (…) Eles tinham visto o Hitler dentro de Hitler e, creio, Hitler sabia que eles sabiam”. Pagaram por isso. Foi o fim de uma luta que durou doze anos.

A obra de Silvia Bittencourt, resultado de árdua pesquisa, mereceria uma ampla divulgação, principalmente na Alemanha, onde o primeiro e mais persistente opositor de Hitler é ainda praticamente ignorado.

Ao livro podem ser feitas algumas observações. O New York Herald Tribune não estava, na época, ligado ao New York Times; a ligação se daria várias décadas mais tarde, com sua edição internacional, depois de desaparecer a edição de Nova York. O livro afirma que Edmund Goldschagg, ex-editor do Post, fez sozinho o projeto do Süddeutsche Zeitung em 1945. Na verdade, o lançamento foi obra de três pessoas: Goldschagg, diretor de redação; August Schwingenstein, publisher; e Franz-Joseph Schoeningh, editor cultural, aos quais se juntaram dois ex-executivos do Münchner Neueste Nachrichten; eles foram os acionistas do jornal. A autora menciona os artigos de Konrad Heiden, correspondente em Munique do Frankfurter Zeitung. Mas, preocupada em destacar a oposição do Post, talvez não tenha dado a importância devida à posição desse jornal contra Hitler, o mais influente da época e antecessor do atual Frankfurter Allgemeine Zeitung. Antes de ser tomado pelos nazistas, era um diário liberal, independente, “a voz da razão que emanava das províncias”, segundo Peter Gay. Para Hitler, era “um jornal-víbora judeu”.

Mas nada disso diminui a importância da “cozinha venenosa”. Ao destruir seu grande inimigo, em 1933, Hitler quase conseguiu também erradicar a memória sobre ele, que só agora está sendo resgatada.

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Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição

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