Terça-feira, 21 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 847

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA NINJA

Quem paga as contas do jornalista-cidadão?

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 20/08/2013 na edição 760

Semana passada, li duas reportagens importantes sobre a Mídia Ninja e o jornalismo independente feito por jornalistas-cidadãos. A primeira foi publicada no Último Segundo (16/08) e trata da adaptação da imprensa histórica aos novos meios de produzir e divulgar notícias. A matéria da repórter Bruna Carvalho, recheada de explicações de acadêmicos, especialistas e matérias de ambientação (matérias de cor, no jargão da imprensa), apresentou um panorama de comentários que apontam, em sua grande maioria, para a crise da imprensa “que perdeu o contato com as ruas”, ao mesmo tempo em que assinalou a importância fundamental do periodismo histórico para as mídias independentes:

“Mais do que conviver, Courtney Radsch, especialista em mídia no Oriente Médio, afirma que o chamado jornalismo cidadão, no qual a audiência não é parte passiva, mas ativa do processo de fazer notícia, relaciona-se com a mídia tradicional de forma simbiótica. Segundo ela, grande parte dos praticantes dessa modalidade jornalística deseja que suas questões e perspectivas ganhem atenção na corrente dominante da imprensa, que continua a ter maior impacto na opinião pública.”

Verdade irrefutável: cada jornalista-cidadão almeja conseguir o alcance e visibilidade daquilo que produz com a mesma força do material produzido pela imprensa tradicional. Mais que isto: o jornalista-cidadão, mesmo quando nega a realidade e desacredita a imprensa histórica, quer ser pago como qualquer trabalhador que precisa ganhar a vida com o suor de seu trabalho. Seja em dinheiro, moeda privada ou outro meio de pagamento alternativo. Mas o idealismo extremo de alguns os leva a ignorar a realidade econômica do mundo em que vivem. A crença absoluta nas possibilidades e novidades das novas mídias participativas pode conduzir a desvinculação da mídia independente da realidade econômica em que está inserida. E isto é um pesadelo para muitos professores de jornalismo: muitos jovens estudantes acreditam que podem viver do jornalismo-cidadão.

“Você também pode”

Isso ficou claro no outro o artigo que despertou minha atenção na semana que passou. A matéria veio do blog do Jornalismo nas Américas, (25/07) do Knight Center for Journalism in the Americas. O artigo trouxe algo que ficou de fora da matéria do Último Segundo: a crítica à atual precariedade da Mídia Ninja em alguns aspectos fundamentais da organização e a ilusão perigosa que muitos têm sobre a mídia independente e o jornalismo cidadão:

“Rafael Vilela, membro do coletivo que conseguiu – graças a colaborações espontâneas, segundo ele – ir ao Egito cobrir as manifestações, considera a Ninja um incentivo para quem busca novos caminhos dentro do jornalismo. Hoje nossos conteúdos têm um enorme potencial de repercussão. A coisa mais importante que o Ninja conseguiu foi dar visibilidade a uma outra via para o jornalismo que não a das grandes redações, e isso é um estímulo para as pessoas buscarem outras formas de viver do jornalismo. Eu já estou há (sic) dois anos vivendo disso.”

O discurso do rapaz é uma amostra cabal que muitos jovens pensam seriamente em viver de uma forma de jornalismo ainda embrionária, e que, pelo menos até o momento, não garante a sobrevivência econômica de nenhuma pessoa que viva dentro do marco capitalista de produção e consumo. Somos uma sociedade capitalista impregnada de crenças e valores burgueses. Negar o fato é negar a realidade concreta.

O trabalho dos ninjas faz parte do universo do jornalismo-cidadão, mas vai além dele, afirmou seu principal mentor:

“A Mídia Ninja parte do jornalismo-cidadão, mas acho que a tentativa de construir uma rede, aprofundar pautas fora da rua, se colocar como veículo, leva isso para um outro passo. Mas o jornalismo-cidadão é indissociável da Mídia Ninja. Até porque nossa principal mensagem para o público por enquanto é assim: ‘Você também pode’.”

Novos meios de produzir e distribuir notícias

Pode sim. Mas a que custo? Além da discussão sobre o trabalho do coletivo ser jornalismo ou não está a vida real, com seus compromissos: contas a pagar, impostos, taxas e famílias a formar e manter. E a coisa vai continuar assim, até que um haja condições para o surgimento e afirmação de outro sistema de crenças e valores alternativos ao credo burguês capitalista. Por isto a preocupação de alguns professores é justificável: a sobrevivência dentro do mundo capitalista a cada dia que passa torna-se mais difícil. Os jovens no mundo no século 21 é muito mais dura do que foi para nós, da geração do pós-guerra. As conquistas históricas dos trabalhadores foram diluídas pelo neoliberalismo, e o Estado de bem-estar social está em xeque em muitos países desenvolvidos.

Alguns jornalistas na Academia não são apenas professores. São pesquisadores. E como tal tendem a um vício muito comum a estes: apaixonam-se pelo objeto que estão a pesquisar, e comprometem os resultados de seus trabalhos como produtores de conhecimento. Ir além do jornalismo histórico é uma coisa. Extrapolar e borrar a linha que separa o periodismo histórico do jornalismo da informação bruta sem tratamento ou edição é outra. Torturra acredita que com o tempo as coisas se ajeitam. Que a verificação dos fatos será facilitada pelo jornalismo em rede, porque “o repórter será cobrado em tempo real porque ele verá as pessoas falando enquanto transmite”.

Ele acredita na interação entre a imprensa histórica e os novos meios de produzir e distribuir notícias. Eu também. Afinal, foi isso o que sempre defenderam os jornalistas que acreditam na mudança do jornalismo tradicional: jornalistas profissionais como curadores da informação produzida por colaboração cidadã. Ou não?

Apoio no trabalho não pago

Depois da histórica entrevista no programa Roda Viva (05/08), tudo mudou para a Mídia Ninja. Já não está claro se vai haver colaboração construtiva entre a mídia tradicional e os ninjas. Suspeitas não comprovadas sobre a origem dos recursos que suportam o coletivo colocaram em xeque as esperanças do principal mentor do grupo. Declarações não confirmadas foram publicadas no Facebook e em vários periódicos Brasil afora. O jornalismo declaratório, a praga maior do jornalismo brasileiro, fez mais um estrago. Não há nada provado contra a Mídia Ninja e seus líderes. Tudo o que li até agora foram denúncias graves que ainda carecem de verificação.

Em janeiro do ano passado, escrevi uma matéria para este Observatório sobre quanto recebiam os jornalistas cidadãos nos periódicos que ainda ofereciam algo em troca do trabalho dos colaboradores (ver “Quanto paga o jornalismo cidadão?“). Foi uma pequena pesquisa que fiz entre os alguns dos principais veículos de jornalismo cidadão no mundo a respeito de pagamentos feitos a jornalistas não-profissionais. A imensa maioria dos amadores que tentam e muitas vezes conseguem fazer bom jornalismo colaborativo trabalha de graça. Uns poucos recebem ninharias.

A Mídia Ninja, até o momento, faz jornalismo participativo e como tal e apoia-se no trabalho não pago de muitos colaboradores idealistas. Muitos são estudantes de jornalismo. É responsabilidade dela (e de todos os que têm algum tipo de compromisso sério com a profissão) procurar saber o que vai ser deles se a coisa não vingar, ou tomar um rumo que exclua muitos que sonharam um dia com jornalismo como profissão, ou meio de vida alternativo e sustentável financeiramente. O que será deles? Quem vai pagar suas contas?

******

Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA NINJA

Quem paga as contas do jornalista-cidadão?

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 20/08/2013 na edição 760

Semana passada, li duas reportagens importantes sobre a Mídia Ninja e o jornalismo independente feito por jornalistas-cidadãos. A primeira foi publicada no Último Segundo (16/08) e trata da adaptação da imprensa histórica aos novos meios de produzir e divulgar notícias. A matéria da repórter Bruna Carvalho, recheada de explicações de acadêmicos, especialistas e matérias de ambientação (matérias de cor, no jargão da imprensa), apresentou um panorama de comentários que apontam, em sua grande maioria, para a crise da imprensa “que perdeu o contato com as ruas”, ao mesmo tempo em que assinalou a importância fundamental do periodismo histórico para as mídias independentes:

“Mais do que conviver, Courtney Radsch, especialista em mídia no Oriente Médio, afirma que o chamado jornalismo cidadão, no qual a audiência não é parte passiva, mas ativa do processo de fazer notícia, relaciona-se com a mídia tradicional de forma simbiótica. Segundo ela, grande parte dos praticantes dessa modalidade jornalística deseja que suas questões e perspectivas ganhem atenção na corrente dominante da imprensa, que continua a ter maior impacto na opinião pública.”

Verdade irrefutável: cada jornalista-cidadão almeja conseguir o alcance e visibilidade daquilo que produz com a mesma força do material produzido pela imprensa tradicional. Mais que isto: o jornalista-cidadão, mesmo quando nega a realidade e desacredita a imprensa histórica, quer ser pago como qualquer trabalhador que precisa ganhar a vida com o suor de seu trabalho. Seja em dinheiro, moeda privada ou outro meio de pagamento alternativo. Mas o idealismo extremo de alguns os leva a ignorar a realidade econômica do mundo em que vivem. A crença absoluta nas possibilidades e novidades das novas mídias participativas pode conduzir a desvinculação da mídia independente da realidade econômica em que está inserida. E isto é um pesadelo para muitos professores de jornalismo: muitos jovens estudantes acreditam que podem viver do jornalismo-cidadão.

“Você também pode”

Isso ficou claro no outro o artigo que despertou minha atenção na semana que passou. A matéria veio do blog do Jornalismo nas Américas, (25/07) do Knight Center for Journalism in the Americas. O artigo trouxe algo que ficou de fora da matéria do Último Segundo: a crítica à atual precariedade da Mídia Ninja em alguns aspectos fundamentais da organização e a ilusão perigosa que muitos têm sobre a mídia independente e o jornalismo cidadão:

“Rafael Vilela, membro do coletivo que conseguiu – graças a colaborações espontâneas, segundo ele – ir ao Egito cobrir as manifestações, considera a Ninja um incentivo para quem busca novos caminhos dentro do jornalismo. Hoje nossos conteúdos têm um enorme potencial de repercussão. A coisa mais importante que o Ninja conseguiu foi dar visibilidade a uma outra via para o jornalismo que não a das grandes redações, e isso é um estímulo para as pessoas buscarem outras formas de viver do jornalismo. Eu já estou há (sic) dois anos vivendo disso.”

O discurso do rapaz é uma amostra cabal que muitos jovens pensam seriamente em viver de uma forma de jornalismo ainda embrionária, e que, pelo menos até o momento, não garante a sobrevivência econômica de nenhuma pessoa que viva dentro do marco capitalista de produção e consumo. Somos uma sociedade capitalista impregnada de crenças e valores burgueses. Negar o fato é negar a realidade concreta.

O trabalho dos ninjas faz parte do universo do jornalismo-cidadão, mas vai além dele, afirmou seu principal mentor:

“A Mídia Ninja parte do jornalismo-cidadão, mas acho que a tentativa de construir uma rede, aprofundar pautas fora da rua, se colocar como veículo, leva isso para um outro passo. Mas o jornalismo-cidadão é indissociável da Mídia Ninja. Até porque nossa principal mensagem para o público por enquanto é assim: ‘Você também pode’.”

Novos meios de produzir e distribuir notícias

Pode sim. Mas a que custo? Além da discussão sobre o trabalho do coletivo ser jornalismo ou não está a vida real, com seus compromissos: contas a pagar, impostos, taxas e famílias a formar e manter. E a coisa vai continuar assim, até que um haja condições para o surgimento e afirmação de outro sistema de crenças e valores alternativos ao credo burguês capitalista. Por isto a preocupação de alguns professores é justificável: a sobrevivência dentro do mundo capitalista a cada dia que passa torna-se mais difícil. Os jovens no mundo no século 21 é muito mais dura do que foi para nós, da geração do pós-guerra. As conquistas históricas dos trabalhadores foram diluídas pelo neoliberalismo, e o Estado de bem-estar social está em xeque em muitos países desenvolvidos.

Alguns jornalistas na Academia não são apenas professores. São pesquisadores. E como tal tendem a um vício muito comum a estes: apaixonam-se pelo objeto que estão a pesquisar, e comprometem os resultados de seus trabalhos como produtores de conhecimento. Ir além do jornalismo histórico é uma coisa. Extrapolar e borrar a linha que separa o periodismo histórico do jornalismo da informação bruta sem tratamento ou edição é outra. Torturra acredita que com o tempo as coisas se ajeitam. Que a verificação dos fatos será facilitada pelo jornalismo em rede, porque “o repórter será cobrado em tempo real porque ele verá as pessoas falando enquanto transmite”.

Ele acredita na interação entre a imprensa histórica e os novos meios de produzir e distribuir notícias. Eu também. Afinal, foi isso o que sempre defenderam os jornalistas que acreditam na mudança do jornalismo tradicional: jornalistas profissionais como curadores da informação produzida por colaboração cidadã. Ou não?

Apoio no trabalho não pago

Depois da histórica entrevista no programa Roda Viva (05/08), tudo mudou para a Mídia Ninja. Já não está claro se vai haver colaboração construtiva entre a mídia tradicional e os ninjas. Suspeitas não comprovadas sobre a origem dos recursos que suportam o coletivo colocaram em xeque as esperanças do principal mentor do grupo. Declarações não confirmadas foram publicadas no Facebook e em vários periódicos Brasil afora. O jornalismo declaratório, a praga maior do jornalismo brasileiro, fez mais um estrago. Não há nada provado contra a Mídia Ninja e seus líderes. Tudo o que li até agora foram denúncias graves que ainda carecem de verificação.

Em janeiro do ano passado, escrevi uma matéria para este Observatório sobre quanto recebiam os jornalistas cidadãos nos periódicos que ainda ofereciam algo em troca do trabalho dos colaboradores (ver “Quanto paga o jornalismo cidadão?“). Foi uma pequena pesquisa que fiz entre os alguns dos principais veículos de jornalismo cidadão no mundo a respeito de pagamentos feitos a jornalistas não-profissionais. A imensa maioria dos amadores que tentam e muitas vezes conseguem fazer bom jornalismo colaborativo trabalha de graça. Uns poucos recebem ninharias.

A Mídia Ninja, até o momento, faz jornalismo participativo e como tal e apoia-se no trabalho não pago de muitos colaboradores idealistas. Muitos são estudantes de jornalismo. É responsabilidade dela (e de todos os que têm algum tipo de compromisso sério com a profissão) procurar saber o que vai ser deles se a coisa não vingar, ou tomar um rumo que exclua muitos que sonharam um dia com jornalismo como profissão, ou meio de vida alternativo e sustentável financeiramente. O que será deles? Quem vai pagar suas contas?

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