Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Problemas e avanços do jornalismo da EBC

Por Priscila Crispi em 27/08/2013 na edição 761
Reproduzido da página do Conselho Curador da EBC, 26/08/2013; título original “Roteiro de Debates aponta problemas e avanços do jornalismo da EBC”

A última edição do Roteiro de Debates, promovido pelo Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), discutiu o Jornalismo da EBC e seus desafios. Como debatedores, foram convidados o jornalista e integrante do Coletivo Mídia NINJA, Luis Felipe Marques, e a pesquisadora em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Iluska Coutinho.

Os participantes sugeriram iniciativas que podem contribuir na construção de um modelo de jornalismo público, ainda em desenvolvimento na EBC e no Brasil. Entre as propostas, a definição de um prazo para criação do Comitê Editorial e para elaboração dos planos editoriais dos veículos da Empresa, previstos em seu Manual de Jornalismo; e projetos continuados de formação dos funcionários, como um programa de pós-graduação em comunicação pública, enquanto a criação da Escola Nacional de Comunicação Pública não é viabilizada. A Escola está prevista no Planejamento Estratégico da EBC para os próximos dez anos.

Também foram abordados pontos como a criação de uma política de parcerias com a sociedade civil, movimentos sociais e coletivos de comunicação, além da implementação de um sistema institucionalizado de autocrítica dentro das redações. “Se utilizamos os mesmo processos da mídia privada, provavelmente teremos um resultado muito parecido. É preciso criar processos internos de produção e de trabalho diferentes, para termos como resultado um jornalismo diferente”, afirmou a conselheira representante dos funcionários, Eliane Gonçalves.

Para Iluska Coutinho, esse jornalismo diverso é a característica marcante que define a comunicação pública. “Para qualificar o jornalismo da EBC, devemos fazê-lo a partir de sua diferença: as temáticas, a origem da produção e o espaço para o cidadão”, falou. A professora acredita que perpassam todo Manual de Jornalismo da Empresa duas perspectivas diferenciais, o estímulo ao espírito crítico e o valor ao público.

Eliane, porém, pontuou que há uma distância entre a teoria e a prática nos veículos públicos. “Na página 29 do nosso Manual, falamos sobre ousadia e inovação. Isso está muito distante do nosso fazer diário. E porque não fazemos? Uma das questões que mais aparecem nas nossas discussões é o medo. Nós temos medo”, disse.

A conselheira explicou que, antes do Roteiro, promoveu uma discussão interna entre os trabalhadores da EBC por meio de uma reunião com todas as praças e por e-mail para falar sobre o jornalismo e as condições de produção da Empresa. “Recebi e-mails de pessoas que diziam que tinham medo de falar sobre o seu trabalho e serem punidas por isso. Não estou dizendo que esse medo é imposto pela estrutura da Empresa, a autocensura também é muito presente em nós”. Para ela, a discussão de que a comunicação pública deve ser diferente em seus processos e resultados até acontece nas altas instâncias, mas tem pouca capilaridade dentro das redações.

José Martins, conselheiro e empresário, comentou que a EBC deve aprimorar um sistema de gestão participativa. “Dentro da minha empresa, uma das coisas que fazemos é a administração participativa. Quem define todo o sistema é o pessoal que fica na área de baixo, nós apenas damos o dinheiro pra eles. Não sou eu que vou dizer para o especialista o que ele deve fazer. Uma empresa onde as pessoas têm medo, elas não executam, não criam, não inovam, não diferenciam e aí, a empresa não progride. Pelo que eu entendi, esse medo inerente quase que faz parte da cultura da EBC e isso é muito mais grave. Dinheiro se consegue, agora, mudar a cultura de uma empresa, esse é o problema mais sério que nós temos”, disse.

Ana Fleck, presidenta do Conselho e jornalista, ressaltou que, para isso, a formação continuada das equipes deveria ser uma prioridade para a Empresa. Eliane pontuou, ainda, que formação não é simplesmente um curso, ela se faz com instâncias de participação e exercício democrático na discussão de cada pauta que se faz no cotidiano.

Manifestações e participação social

Para subsidiar o debate, a Câmara de Jornalismo e Esportes do colegiado realizou um estudo de caso sobre a cobertura feita pelos veículos da EBC durante as manifestações ocorridas no Brasil em junho deste ano. “Pudemos observar que a EBC não criminalizou os protestos, mas sempre focou nos conflitos entre manifestantes e polícia. Porém, precisamos reconhecer que houve o esforço de um trabalho diferenciado e que se buscou qualificar as pautas que estavam nas ruas durante a programação”, definiu a conselheira Rita Freire.

Rita afirmou que as manifestações foram um bom momento para se pensar em novos formatos que venham de novas culturas de mídia, trazidas pelas redes sociais. Para Luis Felipe, jornalista do Mídia NINJA, a internet assumiu papel preponderante na sociedade e compreender esse novo meio é essencial para entender o que acontece com o jornalismo e com o mundo. “Nós, do mídia livrismo, surgimos como um contraponto para o jornalismo tradicional e só aconteceu por causa das novas redes. Acreditamos em uma lógica de colaboração. Queremos conseguir formar uma rede que não tenha somente uma direção, onde o jornalismo público, estatal, o nosso, crie oportunidades múltiplas para o público”, explicou.

A conselheira Ana Veloso concordou: “é importante lembrar que uma comunicação plural, pautada pelo direito humano, não é responsabilidade exclusiva da rede de comunicação pública. Ela já está sendo feita por muitas instâncias, que se complementam”.

Luis Felipe acredita que os protestos apontaram para uma crise de representação não somente de partidos políticos, mas também de meios de comunicação. “As pessoas estavam reivindicando um jornalismo cidadão. Com as novas tecnologias, qualquer um pode passar informação. Não que qualquer um seja jornalista, mas todos podem pautar a mídia e é possível a partir de ferramentas simples”, disse Luis.

A professora Iluska Coutinho afirmou que, em pesquisa realizada pelo grupo de estudos que dirige na UFJF, foi possível observar um crescimento da participação cidadã na programação da TV Brasil. “Num primeiro momento, havia pouco espaço para sociedade civil organizada. Isso tem mudado, a participação da sociedade tem aumentado com a presença de pautas sociais e o estímulo à participação a partir do uso das redes sociais”, disse. Ela acredita que, uma vez que o jornalismo público é um direito que vai dar vazão a outros direitos, a participação cidadã deve ser presença constante em suas produções.

A Diretora de Jornalismo da EBC, Nereide Beirão, defendeu que uma preocupação da Empresa é trazer o público para as coberturas. “Precisamos ampliar nossa lista de colaboradores, porque realmente temos uma dificuldade de trazer o cidadão pra programação. Essa é uma preocupação nossa, porque no jornalismo público, o público tem que ser dono do jornalismo, participar ativamente”, disse.

Luis Felipe afirmou que a luta pela democratização da comunicação passa principalmente por garantir o espaço de fala para o maior número possível de representações sociais. “O que devemos fazer é assumir parcialidades e deixá-las claras para o consumidor da informação, ao invés de tentar assumir uma imparcialidade que não vai existir. O caminho é dar espaço para todas as parcialidades”.

Formatos e financiamento

Ana Veloso, conselheira, acompanhou a cobertura das manifestações pelas rádios e ponderou que essa se apresenta sempre “aguerrida e mais conectada com as ruas e os movimentos sociais”. Para Murilo Ramos, também conselheiro, a TV se apresenta mais superficial em suas abordagens. “Quando contrastamos a cobertura do rádio com a da TV podemos ver que a TV Brasil é tímida. É um jornalismo de políticas públicas, muito bem comportado, bem feito, mas que precisa ter mais agressividade. Uma agressividade que ilumina as questões e nos faz pensar. Isso tem a ver com o formato da televisão também. O rádio sempre foi ‘mídia ninja’. Podemos aprender lições com ele”, analisou.

Para Murilo, outro ponto essencial para garantia de um jornalismo autônomo é o modelo institucional da Empresa. “É preciso descolar a EBC cada vez mais da relação com o poder Executivo. O pessoal da Secretaria-Geral da Presidência enxerga a EBC e a NBR como se fosse a mesma coisa”, apontou. O colega, Daniel Aarão, concordou, dizendo que há uma contradição entre o caráter público e estatal da EBC e os interesses do governo que está no poder. “Nós temos que lutar mais e melhor para que as fontes de recursos da EBC sejam inteiramente independentes das vontades dos governos eventuais que essa república tenha”. O conselheiro apresentou ainda a necessidade de se firmar parcerias internacionais com outros grupos que produzem comunicação pública, como o Mídia NINJA e outros coletivos que tem se estruturado no Brasil.

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Priscila Crispi é jornalista da Secretaria Executiva do Conselho Curador da EBC

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