Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DO ‘VALOR ECONÔMICO’

‘Tribuna da Imprensa’, Lacerda e as críticas à Petrobras

Por Aloysio Castelo de Carvalho em 27/08/2013 na edição 761

Na resenha intitulada “Imprensa e política num jornal nascido para provocar polêmica“, publicada no jornal Valor Econômico (16/7/2013), o jornalista Matías M. Molina apresentou o livro O Caso Última Hora e o cerco da imprensa ao governo Vargas, de minha autoria, e levantou algumas questões. Uma delas seria em relação às posições dos jornais O Globo, O Jornal e Tribuna da Imprensa diante da polêmica em torno da criação da Petrobras durante o governo Vargas. Diz o jornalista:

“A respeito da criação da Petrobras, tanto O Globo como O Jornal se manifestaram contra o monopólio estatal. Mas, diferentemente do que diz o autor, a Tribuna da Imprensa não apenas não se opôs ao monopólio estatal como o defendeu desde o começo. No mesmo mês, dezembro de 1951, em que o governo divulgou o projeto inicial, que previa a participação do governo estrangeiro na Petrobras, o jornal escreveu que isso significava entregar ‘aos ‘trustes’ o controle da indústria sem risco nem despesa’. Foi o primeiro de vários artigos da Tribuna, alguns escritos por Lacerda, a favor do monopólio.”

A criação da Petrobras foi uma das principais bandeiras do governo Vargas. Foi o assunto que mais mobilizou a opinião pública e contou com a intensa participação de grupos nacionalistas de esquerda. Iniciada a partir de 1947, a Campanha do Petróleo adquiriu maior intensidade e importância após a volta de Vargas ao poder. Conciliando a participação estatal e os interesses privados, Vargas enviou ao Congresso, em dezembro de 1951, um projeto de lei para a criação da Petrobras, cujo capital seria misto e com o governo controlando a maioria das ações.

“Contradição flagrante”

Enquanto os aliados de Vargas, defensores do monopólio estatal, criticaram no projeto a participação do capital privado e a possibilidade de penetração dos grupos econômicos monopolistas de natureza estrangeira, a UDN, caracterizada por suas posições liberais, assumiu nessa questão uma nova identidade. Quando se iniciaram os debates sobre o projeto na Câmara, em junho de 1952, o deputado Bilac Pinto, da UDN defendeu a “instituição do monopólio do Estado para a pesquisa, a lavra, a refinação e o transporte do petróleo, por navios e condutos” e propôs a constituição de uma empresa estatal que tivesse “a mesma flexibilidade das empresas privadas, para executar aquele programa”. Diante de um assunto que vinha alcançando grande repercussão na opinião pública, a UDN vislumbrou um só caminho para se firmar no papel de oposição: submeter-se ao campo ideológico nacionalista apoiando uma proposição à esquerda que ocupasse o espaço deixado pelo projeto governamental. Além de pretender responder às demandas dos que associavam a questão do Petróleo à soberania nacional, A UDN, representada pelo deputado Bilac Pinto, cobrou do presidente fidelidade com relação ao seu programa de governo. Denunciou que o “Presidente da República, durante campanha política, sustentou a tese que conta com o apoio da opinião pública brasileira e, uma vez, eleito, mudou sua posição a respeito do problema do petróleo. “Essa evolução, sim, é da maior gravidade” (COHN, Gabriel. Petróleo e nacionalismo. SP, Difel, 1968.). Dessa forma, o deputado também rebateu as críticas à nova posição da UDN veiculadas pela imprensa antigetulista, como a Tribuna da Imprensa, O Jornal e O Globo. De acordo com Bilac Pinto, a UDN não teria traído seu passado liberal. O fato de o programa do partido não ser explícito quanto à questão do capital estrangeiro deixaria o campo livre para deliberação.

Que tipos de críticas O Globo, O Jornal e a Tribuna da Imprensa divulgaram sobre a UDN no âmbito do debate sobre a criação da Petrobras?

O Globo não concordou com a posição tomada pela UDN nos debates em torno do projeto da Petrobras. O jornal perguntou por que a UDN se unia ao que denominava de inimigos da iniciativa privada em favor do monopólio. Considerava essa posição uma “contradição tão flagrante” no pensamento do partido, cujos intelectuais no Congresso “têm representado o espírito legalista, o sentido de severidade na vida pública, o predomínio do jurídico sobre o econômico, do doutrinário sobre o pragmático, do liberalismo sobre o dirigismo” (“O petróleo e as falsas injunções da popularidade”. RJ, O Globo, 8 de maio de 1952).

“Banda de Música” e os “Chapas Brancas”

Na mesma linha editorial seguiu O Jornal. Para Assis Chateaubriand, a UDN vivia uma crise de identidade, uma vez que seu propósito era imitar Vargas quanto ao conteúdo das suas propostas políticas e o seu modo de relacionamento com as massas, numa disputa para “ver quem cede mais ao outro no terreno da paixão popular”. Ele nota que desde 1951 a UDN não tem bandeira. “Sua bandeira é a do sr. Getúlio Vargas.” Observa ainda que os condutores do partido assumiram “que o melhor caminho para entrar em competição com o sr. Getúlio Vargas é tirar-lhe algumas beiradas e entrar no mesmo terreno da conquista das massas com as teses nacionalistas.” Cita o caso do projeto da Petrobras e sustenta que a UDN “adotou o estilo da extrema esquerda, dominada pela ambição de ganhar popularidade”. O partido, argumenta o artigo, pratica “política de demagogia, política de esquerdismo”, afastando-se do seu papel, de sua missão, do seu destino de “partido de média burguesia”, cuja função “deveria ser antes educativa”. (CHATEAUBRIAND, Assis. Navegando com a bússola soviética. RJ, O Jornal, 22 de novembro de 1952)

Desde os primeiros dias do governo Vargas, a Tribuna da Imprensa apresentou críticas à UDN, mais ao modo de ação do partido de oposição.

Nos textos da Tribuna da Imprensa, os partidos são representados por meio de um discurso que ressalta sua falta de credibilidade, a começar pela UDN, contra a qual o jornal apontava erros táticos e de composições, além de omissões, vazio ideológico e indefinições políticas (LACERDA, Carlos. A função nacional da oposição. RJ, Tribuna da Imprensa, 24 de janeiro de 1951). O apoio dado pela UDN ao governo Vargas é visto como colaboracionismo, na medida em que proporcionaria a maioria e a base legalpara a instauração do que classifica de ditadura constitucional. Ao classificar de colaboracionista a atuação da UDN, a Tribuna da Imprensa conferia uma conotação negativa ao seu papel de oposição. Há, portanto, um apelo para que a UDN se negue a cooperar diretamente com o governo. É preciso notar que o governo Vargas buscou no plano institucional implementar uma política de cooptação e neutralização da oposição, como revela a composição do seu primeiro gabinete ministerial, que incluiu representantes do PSD, PTB e a própria UDN. A atitude do governo refletiu-se no interior da UDN, de onde emergiam duas posições em disputa pela direção do partido. De um lado, o grupo denominado “Banda de Música”, caracterizado por uma atuação mais autônoma, e de outro os “Chapas Brancas”, considerados adesistas, mais dispostos a uma aproximação com o governo. A Tribuna da Imprensa fazia críticas aos “Chapas Brancas” fundamentada na ideia de que a política de adesão ao governo, ampliando sua base parlamentar, proporcionaria maiores condições de uma subversão da ordem republicana, pela ausência de vigilância, de crítica e, sobretudo, pela impossibilidade de se proceder a uma legítima e necessária divisão das forças políticas do país, considerada fator determinante para a existência do sistema democrático (LACERDA, Carlos. “A pátria e os ‘chapa branca’.” RJ, Tribuna da Imprensa, 22 de julho de 1952).

Um engodo, uma mentira

Após o envio do projeto governamental de petróleo ao Congresso, quando a UDN deu os primeiros passos para um novo posicionamento, o jornal prosseguiu com as críticas ao partido. No âmbito do debate sobre o projeto da Petrobras, a Tribuna da Imprensa publicou artigo intitulado “Balanço do ano político” de 31 de dezembro de 1951, no qual Carlos Lacerda reiterou sua visão sobre a UDN:

“Da UDN o que existe é uma bancada parlamentar, pois no mais esse partido de questões sistematicamente abertas não tem existência real…”

As críticas estão de acordo com os ataques ao projeto governamental de capital misto manifestados nos artigos de Carlos Lacerda. A Tribuna da Imprensa e Carlos Lacerda imaginavam uma UDN mais combativa, em confronto com o governo. As críticas do jornal à UDN são um claro indicador não só de que o partido ainda vivia o dilema da indefinição diante do projeto do petróleo, mas, sobretudo, sinaliza para a liderança do jornal no posicionamento de oposição, com o intuito de pressionar nessa questão o partido para o confronto com Vargas.

Logo após a divulgação do projeto governamental, nos primeiros momentos na polêmica em torno da criação da Petrobras, os artigos de Carlos Lacerda procuraram estabelecer uma ponte entre a posição política adotada pela Tribuna da Imprensa e o programa doutrinário dos representantes liberais. A posição política se manifestou nos ataques ao projeto governamental do petróleo que aparecem associados às denúncias do capital estrangeiro. O objetivo era desmistificar o nacionalismo de Vargas e deslegitimar o governo. O projeto governamental era visto pelo jornal como uma traição do governo ao público no sentido de que conflitava com a proposta divulgada durante a campanha do “Petróleo é nosso”, já que permitia a participação do capital estrangeiro sem risco financeiro. Dessa perspectiva, o projeto governamental era considerado um engodo, uma mentira, uma mistificação e foi tratado como um escândalo político, resultado de uma crise moral e traição aos valores que o próprio governo difundiu para se eleger e encaminhar os debates em torno da campanha para a criação da Petrobras (Lacerda, Carlos. “Fórmula Vargas: Petróleo para o truste com dinheiro do povo”, 7 de dezembro de 1951; Lacerda, Carlos. “O projeto híbrido do petróleo”, 12 de dezembro de 1951; Lacerda, Carlos. “Vargas responde a Rômulo”, 13 de dezembro de 1951).

“Medo farisaico”

Já a posição doutrinária se manifestou na permanência da defesa do capital estrangeiro. Ao mesmo tempo em que combateu o projeto governamental, associando-o às denúncias de que o petróleo brasileiro seria entregue “ao truste com dinheiro do povo”, Carlos Lacerda apresentou a defesa do capital estrangeiro:

“Mas éramos – e somos – a favor da participação do capital estrangeiro na pesquisa e exploração do petróleo no Brasil” (Lacerda, Carlos. “O projeto híbrido do petróleo”, 12 de dezembro de 1951).

Houve mais continuidade do que ruptura no posicionamento dos artigos de Lacerda. O posicionamento político continuou a ser o de confronto com o governo Vargas, acrescido, após a divulgação do projeto governamental, de um tom nacionalista, que deve ser entendido como uma ação política. No artigo intitulado “O projeto híbrido do petróleo”, de 12 de dezembro de 1951, Carlos Lacerda assume que o ataque ao projeto governamental é uma política de oposição.

“No entanto, só porque o projeto permite a pessoas jurídicas estrangeiras serem acionistas da companhia Vargas, dizemos, por espírito de oposição que ele abre a porta aos grupos estrangeiros da indústria petrolífera. Haverá incongruência nisto?”

De fato, os artigos argumentam que a proposta governamental significava entregar aos trustes o controle da indústria sem risco nem despesa. Ao mesmo tempo, Lacerda combateu o projeto governamental com o argumento de que a indústria petrolífera a ser criada no Brasil sofreria de escassez de capital estrangeiro. No artigo intitulado “Quanto mais cruzeiro mais dólar”, de 2-3 de fevereiro de 1952, o jornalista sustenta:

“Por isto é que a nosso ver o capital estrangeiro deve ser chamado a participar da indústria do petróleo. Em que condições é o que veremos no correr desse debate.

“Em vez de obter os dólares que se vão tornar indispensáveis para custear, nesses cinco anos, a formação da indústria do petróleo, o projeto Rômulo de Almeida prescinde dos dólares e pede às grandes organizações petrolíferas mundiais que participem com quatro milhões de cruzeiros no máximo.

“Estará convidando a Standard e a Shell para uma indústria do petróleo ou para uma quermesse?

“A puerilidade desse ardil… Nestes cinco anos, a indústria do petróleo, se vier, já vem bastante tarde. Estamos perdendo os melhores anos para a sua instalação. Somos ainda uma nação insuficientemente desenvolvida e carente de capitais para criar rapidamente uma indústria de tão grandes investimentos e riscos (na parte da pesquisa), e ao mesmo tempo já somos uma nação suficientemente progredida e apta a desprezar os temores de que nos engulam, o medo do bicho-papão, o pavor do imperialismo, que é, em grande parte, um medo farisaico e grotesco.

“No fundo, o projeto é uma impostura…”

Luz sobre a linha editorial

Como se observa, a denúncia dos “trustes” não significou o abandono da bandeira do capital estrangeiro. Ou seja, o tom nacionalista dos ataques ao projeto governamental não significou o abandono das posições doutrinárias. No artigo “Campanha nacional contra a demagogia”, de 26 de dezembro de 1951, Carlos Lacerda discute a presença da demagogia nos diversos campos da atividade social. A campanha do “Petróleo é nosso” é tratada como demagogia e considerada uma linguagem política que se opõe à verdade. O artigo vê na campanha do “Petróleo é nosso” uma campanha do empobrecimento, que se contrapõe ao caminho da prosperidade manifestada no artigo “Moral e Petróleo”, de Carlos Lacerda, publicado em 14 de novembro de 1951, poucos dias antes do projeto governamental ser enviado ao Congresso. Os dois artigos de Carlos Lacerda tem o mesmo significado. A articulação com o capital estrangeiro representa para o jornal o caminho da prosperidade em oposição ao isolamento econômico que levaria o país ao empobrecimento. O artigo “Moral e Petróleo” de Carlos Lacerda defende a articulação econômica internacional, a entrada de capitais estrangeiros para suprir a escassez do país e alerta que é legítimo a desconfiança em relação do capital estrangeiro:

“O medo ao ‘trust’ é, até certo ponto, legítimo se em vez de medo for prudência.”

A mesma visão sobre a relação do Estado com o capital estrangeiro seria reiterada no artigo já citado, intitulado “Projeto híbrido do Petróleo”, publicado em 12 de dezembro de 1951, quando a Tribuna da Imprensa deu publicidade às denúncias dos “trustes”:

“Quem como nós considera que o capital estrangeiro deve ser chamado a colaborar no desenvolvimento nacional (…) afirma a necessidade de uma política vigilante mas corajosa em relação a esses capitais.”

De dezembro de 1951, quando o governo enviou ao Congresso o projeto da Petrobras, até meados de 1952, quando a UDN se definiu a favor do monopólio estatal, a Tribuna da Imprensa publicou diversos artigos assinados por Carlos Lacerda, considerados por este trabalho a fonte principal da pesquisa já que o alinhamento dos jornais da época às posições político-ideológicas devia-se, mais do que hoje, às concepções de seus proprietários. Os artigos de Carlos Lacerda são significativos no sentido de que jogam luz sobre a linha editorial adotada e esclarecem o posicionamento da Tribuna da Imprensa na questão da criação da Petrobras.

Via de penetração do comunismo

Os artigos de Carlos Lacerda citados contêm as seguintes argumentações: 1) O projeto governamental é uma mistificação já que “permite ao capital estrangeiro participar sem risco financeiro, sem grandes investimentos e, sem responsabilidades, da indústria petrolífera nacional”. 2) O “projeto é uma impostura” já que “prescinde dos dólares e pede às grandes organizações petrolíferas mundiais que participem com quatro milhões de cruzeiros no máximo”. As duas argumentações foram empregadas para atacar o projeto governamental. Qual então o fundamento para se afirmar que a Tribuna da Imprensa defendeu o monopólio estatal do petróleo? Se o debate situa-se no campo da linguagem, da análise dos significados dos textos, onde se encontram os indícios de uma argumentação favorável ao monopólio estatal? O que vemos, ao contrário, é uma declaração de oposição ao projeto de monopólio estatal:

“Não sou pela fórmula ortodoxa do monopólio estatal” (Lacerda, Carlos. “O projeto híbrido do petróleo”, 12 de dezembro de 1951).

A declaração de Carlos Lacerda torna-se mais reveladora e ganha mais expressão como um ato de afirmação de suas concepções sobre o papel do Estado no desenvolvimento econômico quando o artigo apresenta uma apreciação negativa da proposta de monopólio estatal e o qualifica como a fórmula “a mais lenta, a mais precária”, em comparação com um projeto que aceitasse de fato a colaboração com capital estrangeiro, valorizado positivamente como a fórmula “a mais rápida e eficaz”.

“A posição… em que nos colocamos diante do projeto Rômulo é muito clara. Ou ele deveria cortar a cooperação estrangeira e ser coerente com a tese do monopólio de Estado, que é uma das formas, a mais lenta, a mais precária…ou deveria chamar essa cooperação abertamente, francamente, cercando de garantias o controle nacional e proporcionando a esse capital estrangeiro a participação em volume apreciável e com responsabilidade. Esta seria, digamos, a fórmula mais perigosa, mas a mais rápida e eficaz de se construir a indústria petrolífera no Brasil” (Lacerda, Carlos. “O projeto híbrido do petróleo”, 12 de dezembro 1951).

Não há evidências nos artigos escritos por Carlos Lacerda para se afirmar que houve a defesa do monopólio estatal, embora ele tenha combatido a proposta governamental de empresa com capital misto. Os artigos de Carlos Lacerda promoveram um ataque aos autores e aos diversos artigos do projeto governamental sem apresentar, no entanto, qualquer tipo de desdobramento, no sentido de desenvolver a proposição em defesa do monopólio estatal para a indústria do petróleo. Não há nos artigos de Carlos Lacerda uma narrativa favorável ao monopólio estatal, proposição no campo da política econômica dominada ideologicamente pelos setores de esquerda, alvo central do discurso da Tribuna da Imprensa que se dedicou junto com a UDN a denunciar que o estatismo era a via de penetração do comunismo.

Projeto solapado

Embora a imprensa fosse visivelmente partidária nos anos 50 e Carlos Lacerda desempenhasse um duplo papel, o de proprietário de jornal e liderança partidária, não houve um alinhamento entre a Tribuna da Imprensa e a UDN no sentido de que os dois atores fecharam o discurso em torno da defesa do monopólio estatal. Os artigos de Carlos Lacerda sinalizam que a Tribuna da Imprensa não assumiu no plano discursivo a defesa do monopólio estatal do petróleo, não abandonou a bandeira do capital estrangeiro, nem tampouco deixou exercer a crítica sobre a UDN. Todavia, no desenrolar do debate, os artigos de Carlos Lacerda tomaram um novo rumo. Os artigos do jornalista mais reveladores da posição da Tribuna da Imprensa, que abandonam a abordagem de ataques ao projeto governamental e assumem uma proposição alternativa, não tomaram o sentido de defesa do monopólio estatal e sim o de defesa do Estatuto do Petróleo, cuja formulação foi atribuída a Juarez Távora. No artigo intitulado “A recente lei peruana sobre o petróleo”, de 22-23 de março de 1952, Carlos Lacerda afirma:

“A lei promulgada… tem muita semelhança com o Estatuto do Petróleo, cujo projeto o governo Dutra mandou ao Congresso, onde está sendo substituído pelo inconveniente e sofisticado projeto da “Petrobras”, engendrado pelos Lourival Boys para acender uma veia ao capital americano e outra à ideologia russa.”

No artigo do dia seguinte, intitulado “A lei peruana sobre petróleo”, de 24 de março de 1952, Carlos Lacerda reitera sua posição:

“Aqui encontramos muita semelhança com o projeto do Estatuto do Petróleo impatrioticamente abandonado pelo novo governo brasileiro para perfilhar o monstrengo nascido do conluio do entreguismo com o totalitarismo.

“Quem conhece o Projeto do Estatuto do Petróleo, conhecido como projeto Juarez Távora, perceberá facilmente as analogias entre a lei peruana e o Estatuto.(…) No Brasil os comunistas e afins torpedeavam o projeto Juarez Távora.”

Estatuto do Petróleo

Filiado à UDN e com um histórico de atuação política que tem início nas revoltas tenentistas, passa pela Revolução de 1930 e chega até as articulações políticas que levaram ao golpe contra Vargas em 1945 e 1954 e contra Goulart em 1964, o general Juarez Távora foi membro da comissão responsável pela elaboração do anteprojeto do Estatuto do Petróleo.Em conferência sobre o Estatuto do Petróleo, realizada no Clube Naval em 1947, Távora defendeu a participação do capital estrangeiro, sobretudo o americano, na exploração do petróleo:

“Os nossos irmãos do continente – especialmente os norte-americanos, dispondo de amplos recursos e interessados, como nós mesmos, nesse reforço da segurança continental – devem ajudar-nos em nossas necessidades iniciais, proporcionando-nos, sem preocupações de imperialismo ou de monopólio, os capitais, os equipamentos de que necessitamos, para cumprir, com oportunidade e eficiência, a tarefa nacional e continental que nos cabe” (TÁVORA, Juarez. Petróleo para o Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955).

Ao reconhecer o nome de Juarez Távora como formulador do Estatuto do Petróleo, Lacerda buscava legitimidade para uma questão que estava alcançando grande repercussão nas Forças Armadas. Após ser divulgada pela Tribuna da Imprensa, em maio de 1952, a definição da UDN favorável ao monopólio estatal, Carlos Lacerda publicou, em 25 de junho, o artigo intitulado “Petróleo de ninguém”, no qual revela um posicionamento mais explícito em relação aos projetos em debate e também sobre a posição da UDN. O Estatuto do Petróleo é defendido com mais ênfase como uma proposição alternativa aos projetos do governo de capital misto e do monopólio estatal:

“Há nas gavetas da Câmara o Estatuto do Petróleo. Elaborado por uma comissão de homens sabedores, estudado e aprovado pelos Estados Maiores e submetido ao exame público, o Estatuto traduzia uma política de prudência e ao mesmo tempo, ou por isso mesmo, de urgência para a instituição da indústria petrolífera no Brasil.

“O Estatuto previa todas as soluções possíveis. Dava ao governo o poder de pesquisar e explorar petróleo por sua conta; de dar em concessão esses privilégios; de chamar à colaboração o capital privado nacional e o estrangeiro. Previa todas as hipóteses. Cercava por todos os lados o problema da criação da indústria do petróleo, com todos os recursos disponíveis, os do Estado, os da iniciativa privada nacional e estrangeira e o da combinação desses três elementos.”

“A explorar o petróleo, patrimônio nacional, estaria o Estado sempre que possível. O particular nacional sempre que necessário. O particular estrangeiro sempre que indispensável. Eis a fórmula do Estatuto do Petróleo.”

A crítica ao monopólio estatal

Após afirmar no artigo que o Estatuto do Petróleo foi atacado pelos “nacionalistas bem intencionados” e pelo Partido Comunista, Lacerda ataca a tese do monopólio estatal, incorporada pela UDN.

“Em vez de solução, propõe-nos a UDN o ‘petróleo é nosso’, seguindo os passos dos srs. Bernades e Prestes.”

“Estamos em face de dois erros: o monopólio estatal que um projeto oficioso instituiu e a Petrobras que é a dinamização desse erro, no projeto oficial. O monopólio é o erro maciço que não institui sequer a responsabilidade deste ou de outro governo. O responsável pelo malogro do petróleo brasileiro será indefinido.”

O projeto de monopólio estatal do petróleo, segundo o artigo de Lacerda, teria repercussão não só no plano das decisões do Estado nessa área econômica, dificultando seu controle pelos setores da oposição, mas também na evolução da UDN, uma vez que o partido perdia sua identidade ao se afastar do espírito liberal, motivado pela busca de popularidade, além de sofrer uma divisão interna que o comprometeria na votação dos projetos.

“…graças à desfiguração do problema pela demagogia, a confusão é tamanha que vemos a União Democrática Nacional oferecer ao país o espetáculo da sua capitulação, apostando a tese do ‘Petróleo é nosso’. Essa posição de tardia e inútil caça à popularidade nem sequer é coerente. Ao fechar a questão em torno do ‘petróleo é nosso’, esse partido de questões abertas deixou de lado de fora a maioria de seus deputados. Veremos, então, o espetáculo da UDN ter sua posição oficial contrariada pela maioria de sua própria bancada, na votação dos projetos sobre o petróleo.”

Assim, observamos três momentos na exposição dos artigos de Carlos Lacerda. Inicialmente, os ataques ao projeto governamental de capital misto não foram acompanhados de uma nova proposta para a indústria do petróleo no Brasil. Em seguida, os artigos resgataram o Estatuto do Petróleo como alternativa ao projeto governamental de capital misto. Finalmente, Lacerda reafirmou sua oposição ao projeto de monopólio estatal, com críticas à definição política da UDN. Nesse ponto, o artigo de Carlos Lacerda tem nítida semelhança com o posicionamento adotado pelos jornais O Globo e O Jornal. Se aceitarmos o fato de que os artigos de Carlos Lacerda representam o principal espaço de manifestação editorial da Tribuna da Imprensa, então os três jornais cariocas antigetulistas fecharam os discursos em torno das críticas ao projeto de monopólio estatal elaborado na criação da Petrobras e adotado pela UDN.

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Aloysio Castelo de Carvalho é professor na Universidade Federal Fluminense

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