Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > ANTIPETISMO DE 'VEJA'

Estranha tara senil

Por Mauro Malin em 03/09/2013 na edição 762

Tarado petista ou petista tarado? A Veja, em período de vacas magras que confere um ar melancólico à edição 2.337, datada de 4/9/2013 (veja abaixo “Dias de penúria”), escolhe a segunda opção para tratar do caso de Eduardo André Gaievski, acusado de “estupro de vulneráveis” – jargão jurídico para designar sexo com crianças menores de 14 anos – e crimes similares.

Em bom português, o cidadão é acusado de ser aquilo que se convencionou chamar de tarado. Um entre milhares, provavelmente centenas de milhares, talvez milhões de casos no Brasil. O diferencial é que Gaievski, ex-prefeito da cidade paranaense de Realeza, era funcionário da Casa Civil da Presidência da República. E petista.

Então, ele é apresentado como petista tarado, embora, caso verdadeiras as acusações de que é alvo, não passe de um tarado que vem a ser petista.

A Veja mostra o homem sorrindo com uma estrela do PT ao fundo. Pura apelação.

Sem nexo

Na verdade, a apelação começa com a transformação de um caso de polícia em noticiário de política. Não tem rigorosamente nada de política na história. Prefeitos envolvidos em pedofilia não faltam no Brasil, infelizmente. Alguns já foram julgados e condenados. Tempos atrás, numa cidade do interior paulista, o prefeito e meia-dúzia de vereadores foram acusados de manter uma rede de prostituição de adolescentes. Também não faltam nesse pelotão da espécie humana funcionários públicos de diferentes escalões. Nem empresários, padres, pastores, jornalistas, feirantes, you name it.

Subjaz na matéria uma insinuação nauseante: o PT é tão nefasto que abriga em suas fileiras gente assim. Roma decadente.

Veja já foi melhor. Muito melhor. Sob a ditadura, por exemplo, não costumava dar aos militares motivo de contentamento. É, Veja publicou naquela época algumas das matérias mais sérias de denúncia contra a violência do regime. Quem não acreditar pode consultar o Acervo digital da revista.

Pode-se supor que a compulsão de agredir e insultar o PT nasce de duas vertentes. A primeira é dos dias de hoje: a revista se enxerga e se comporta como ala direita da fracativa, trôpega oposição (PSDB e DEM) ao PT. Decorre, em parte, numa visão simplificada, da incompetência da putativa oposição, algo que estimula a imprensa a ir além de seus tamancos jornalísticos e panfletar.

A segunda é remota, quase subconsciente: o PT se apresentou, durante a maior parte de sua trajetória (mais precisamente, até a entrevista pós-mensalão de Lula ao Fantástico, realizada em Paris por uma jornalista que surgiu e desapareceu num átimo; a entrevista do “todo mundo faz”, dada em 2005), como encarnação incontaminada da virtude na relação com outras forças políticas e com a mídia.

Em 1989, praticamente recusou apoio de outras forças no segundo turno de Lula contra Fernando Collor. Ouvi de um querido e saudoso amigo, ao sugerir a possibilidade de Ulysses Guimarães reforçar o palanque lulista: “Não queremos. Chegamos até aqui sozinhos e vamos continuar sozinhos”.

Agitprop canhestra

O PT fez sucesso botando banca. A prepotência, péssima conselheira em política, durou pouco tempo após a primeira eleição de Lula. Deu no mensalão. Um pouco como a história da recatada moça de sociedade que um dia vai parar no bordel: assusta, pelo desvario, até as profissionais do sexo.

A bem da verdade, o PT do mensalão já nada tinha de “moça da sociedade”. Vide denúncias de Paulo de Tarso Venceslau em 1994 a respeito da empresa Cpem (Consultoria para Empresas e Municípios), de Roberto Teixeira, fraternal amigo de Lula. Vide assassinatos dos prefeitos de Campinas, Toninho do PT (setembro de 2001) e de Santo André, Celso Daniel (janeiro de 2001).

A Veja, na tentativa de ter uma opinião forte (posição defendida por Roberto Civita – 1936-2013 – em entrevista ao Valor), e encharcada de má vontade em face da empáfia petista, embolou tudo e começou a praticar um jornalismo raivoso, como o que levaria Carlos Lacerda a criar, em 1953, o Clube da Lanterna. Ficou caricata, praticante de uma agitprop canhestra. Cada vez mais tendente à irrelevância.

Dias de penúria

A Veja, hoje, do ponto de vista de sua sobrevivência empresarial, inspira consternação. A edição em que se estampa a matéria sobre o funcionário da Casa Civil tem esquálidas 112 páginas. Até aí, nada. Na mesma época do ano, primeira semana de setembro, o número de páginas da revista sofreu oscilações desde 2003. Eis uma sequência de dez anos:

 

Número de páginas das edições da Veja na primeira semana de setembro, 2003-12

2012 168
2011 172
2010 156
2009 146
2008 136
2007 136
2006 140
2005 128
2004 116
2003 124

 

O número de páginas atual indica retração do mercado, que atinge todas as mídias (excetuada a TV Globo, espécie de aspirador gigante de verbas publicitárias). Na tabela abaixo, baseada em dados do Projeto Inter-Meios, da Meio & Mensagem, verifica-se que o faturamento bruto do meio Revista voltou ao que era há dez anos.

 

Faturamento bruto do meio Revista, anos selecionados entre 2003 e 2013. Em R$

Mês e ano Faturamento no mês Acumulado no ano
Setembro 2003 104,0 milhões 696,1 milhões
Setembro 2004 119,9 milhões 784,2 milhões
Setembro 2008 196,9 milhões 1.278,9 milhões
Setembro 2009 177,0 milhões 1.156,0 milhões
Setembro 2012 177,7 milhões 1.354,2 milhões
Junho 2013 (*) 154,3 milhões 789,6 milhões 
(*) Dado mais recente disponível

 

Como o bolo publicitário cresceu (até mais do que o PIB), constata-se que a participação das revistas diminuiu.

Mas o caso específico da Veja indica uma encrenca maior. Das 112 páginas da edição 2.337, apenas o equivalente a 28 são ocupadas por anúncios, dos quais três “da casa” (a própria Veja, Editora Abril etc.). A proporção de 25 em 112 – 22,3% – é baixíssima. Evidentemente, não se pode tomar o pulso de uma publicação por apenas uma de suas edições. A anterior, de 128 páginas, tinha 52 páginas de anúncios, o correspondente à saudável proporção de 40% (embora 11 deles, compondo uma campanha da TV Globo relativa à Copa de 2014, possam ter sido vendidos a preço camarada, em pacote).

Toda essa sopa de números não interessa ao leitor. A primeira sensação dele é simplesmente tátil: pega a revista, sopesa-a e constata-lhe a magreza. É frequente haver encartes (grampeados) em papel de maior gramatura. Evitam essa impressão sensorial de miserê.

Mais reportagem, menos gogó

Mais uma volta no parafuso e constata-se que o problema da Veja nem é de natureza essencialmente comercial, mas sim jornalística. A edição correspondente da Época (797, datada de 2/9) tem menos páginas ainda do que a da Veja: 108. O número de páginas ocupadas por anúncios é bem maior, 41, mas seis são “da casa”: a proporção de 32,4% não chega a ser comercialmente brilhante. E há algo de bizarro, porque um anúncio do frigorífico Friboi, com o simpático Tony Ramos, saiu duas vezes (páginas 13 e 91), mas dificilmente terá sido vendido e será pago duas vezes.

A sensação tátil não é melhor. Mas o leitor encontra na Época duas excelentes reportagens sobre a questão da saúde pública, tema que vai encerrando sua passagem pelo picadeiro do circo e logo cederá lugar para alguma outra atração. A primeira matéria fala sobre as deficiências do ensino médico (“As faculdades na UTI”). Seus autores são Flavia Tavares, Graziele Oliveira, Murilo Ramos, Hudson Corrêa, Marcelo Rocha, Ana Luísa Cardoso e Leandro Loyola.

A segunda, “Ideologia faz mal à saúde”, assinada por Vinicius Gorczeski e Leopoldo Mateus, fez algo elementar, meu caro Watson: checou o resultado da atuação de médicos cubanos na Venezuela.

O resultado é ambíguo. Foram muito bem no que dependeu menos das estruturas locais de saúde pública. Por exemplo: caiu a mortalidade infantil. O médico, aí, salvo casos excepcionais, se apoia menos em recursos materiais. E os cubanos sabem fazer o que os brasileiros desaprenderam: diagnosticar e tratar sem recorrer a exames caros, prestados por serviços congestionados. Por outro lado, fracassaram em reduzir a mortalidade materna e em aumentar a expectativa de vida ao nascer da população.

Saúde da Família

Conclusão que corrobora artigo de Adib Jatene (ex-ministro da Saúde) e José da Silva Guedes (ex-secretário de Saúde do estado de São Paulo), ambos grandes incentivadores do programa de Saúde da Família, no Estado de S. Paulo (“Medicina tumultuada“, 20/8). Depois de dissecar com a esperada propriedade problemas gravíssimos da formação médica, os autores focam problemas de estrutura:

“Temos hoje perto de 30 mil equipes de Saúde da Família e cerca de 200 mil agentes comunitários. Precisamos do dobro. E não temos equipes de especialistas em condições de receber referência e fazer a contrarreferência, bem como os hospitais relacionados com as equipes”.

A reportagem da Época mostra honestamente como no estado de Tocantins médicos cubanos obtiveram ótimos resultados, porque o governo estadual (de Siqueira Campos – dinossauro da política goiana, então no PFL, hoje no PSDB, novamente governador) garantiu a estrutura (foi no início da década passada; depois, o programa morreu).

O título da matéria da Época bem serviria para diagnosticar um dos males da Veja: ideologia (pior ainda, de pacotilha) faz mal ao jornalismo. Reportagem honesta faz bem.

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