Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > COBERTURA POLÍTICA

Alguns fatores de desnorteamento

Por Mauro Malin em 17/09/2013 na edição 764

Um dos problemas com a narrativa dos fatos políticos recentes é o fato de que os jornalistas encarregados de cobri-los têm uma vivência difícil, que dificulta a obtenção de clareza política. Sem querer ser passadista, é preciso explicar que o repertório político dos jornalistas foi estreitado por uma espécie de infantilização geral decorrente da involução do discurso das principais forças político-partidárias do país.

Permito-me um relato em primeira pessoa. Totalmente “impressionista”, ou “jornalístico”, como gostavam de dizer colegas de trabalho que tive como pesquisador em história na FGV carioca. Mas talvez sirva ao argumento.

Ditadura pautou opções

Em 1966, quando entrei na redação da Tribuna da Imprensa, as questões tinham sido brutalmente colocadas pelo regime militar. Se alguém tivesse chegado ali sem informação, sem conhecimento, sem ideologia, sem parti pris, os fatos que encontrava na rua e as conversas dos colegas mais velhos (menos jovens, para ser mais exato) se encarregariam de formá-lo rapidamente.

Em 1968, no Jornal do Brasil, em plena Avenida Rio Branco, os acontecimentos desfilavam a no máximo algumas centenas de metros da sede. Uma das passeatas estudantis, quando o processo dos 100 Mil começou a se estreitar, chegou a estupidamente hostilizar o próprio JB. Marchou na contramão e parou na porta do jornal para espinafrá-lo.

Quem podia ignorar o processo que se vivia quando se constatava que no primeiro semestre de 1969 Fernando Gabeira, chefe do Departamento de Pesquisa, tinha sumido sem avisar ninguém? Se não estava doente, não tirara férias, não pedira licença, todo mundo sabia por quê. Tinha entrado na clandestinidade, como se dizia então.

A realidade da censura estava patente ou latente em cada página de jornal ou revista que se fazia então.

Lula no ABC, Diretas Já

Quem foi cobrir o Atentado do Riocentro, na noite de 30 de abril de 1981, poderia ter feito menos de um ano antes a cobertura do assassinato de Lyda Monteiro da Silva por uma carta-bomba. Lyda era secretária do presidente da OAB do Rio de Janeiro, Eduardo Seabra Fagundes. Esses repórteres liam no jornal, todo dia, notícias do movimento dos operários do ABC paulista liderados por Luiz Inácio da Silva.

Cobriram depois as eleições diretas para governador de 1982, consagração popular de três adversários irredutíveis da ditadura, Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, Franco Montoro, em São Paulo, e Tancredo Neves, em Minas Gerais. Participaram em 1984 da campanha das Diretas Já. Participaram: era praticamente impossível encontrar um repórter que se limitasse a testemunhar o que estava ocorrendo. Como cidadãos, apoiavam a campanha.

As redações choraram com a morte de Tancredo, compadeceram-se de José Sarney e, alternadamente, o xingaram. O “petismo das redações” não obnubilou a percepção de que tudo aquilo era, ao fim e ao cabo, a maneira como o país estava deixando para trás a ditadura. A promulgação da Constituição de 1988 foi uma apoteose.

Novidade collorida

Havia divisão ideológica nas redações antes e durante a ditadura. Entre direita e esquerda. Entre apoiadores do regime e opositores. E muitas outras nuances, como na sociedade. Mas para as gerações que entraram na profissão quando se encerrava o domínio militar um momento mais agudo talvez tenha sido o advento de Fernando Collor. Muitos jornalistas aderiram ao entusiasmo com que seus patrões acolheram a novidade collorida, embora soubessem como a campanha dele tinha sido financiada.

As redações voltaram a ser perpassadas por um sentimento de grandeza histórica com os caras-pintadas que ajudaram a derrubar Collor, o Plano Real, a eleição de Lula. Já havia sido plantada, porém, a semente de uma desconfiança medular no processo político do país: decorreu da maneira como Fernando Henrique Cardoso obteve em 1997 a vitória da emenda constitucional da reeleição.

Mensalão, a pá de cal

A pá de cal no otimismo cívico dos jornalistas foi o mensalão. Mais precisamente, a maneira como Lula, o maior líder popular da história brasileira, reagiu à denúncia feita por Roberto Jefferson. As redações sabiam e sabem que era tudo verdade, talvez apenas uma parte da verdade, diga-se en passant.

O primeiro jornalista a denunciar o esquema de mesada no Congresso Nacional foi Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa, em fevereiro de 2004 (a entrevista de Jefferson a Renata Lo Prete foi publicada na Folha de S. Paulo em junho de 2005). Chagas mencionava um personagem pouco conhecido do público, mas chegado a expoentes do PSDB de Minas Gerais e a dirigentes nacionais do PT: Marcos Valério Fernandes de Souza.

Em setembro de 2004, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) denunciou formalmente a prática corruptora. O então presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP), posteriormente um dos condenados no Supremo Tribunal Federal, “mandou apurar”. Em outubro, informou que a investigação não constatara nenhum delito.

Anestesiamento

O impacto negativo do mensalão – não da denúncia, é claro, e sim da prática denunciada – foi, é e será muito maior do que condescendentemente supomos hoje. O ponto crítico é a reação do então presidente Lula. Teve três fases: primeira, de reconhecimento autocrítico; segunda, de relativização do delito (“todo mundo faz”, entrevista dada em Paris e transmitida pelo Fantástico, da TV Globo); terceira, trata-se de uma ofensiva persecutória contra o PT.

Não se pode saber até que ponto a fase três foi decisiva para moldar consciências, mas o fato é que Lula depois disso foi reeleito, elegeu Dilma Rousseff (2010) e Fernando Haddad (2012), derrotando, nos dois casos, um político calejado do PSDB, José Serra. Não pode haver método mais categórico para constatar que as ambições políticas do ex-presidente e de seu partido não sofrem algum tipo de embargo do eleitor majoritário por tributo à moralidade.

É preciso reconhecer que adversários e acusadores de Lula e do PT com muita frequência e grande intensidade são pilhados fazendo igual ou pior. Tome-se como caso lapidar a trajetória do então senador Demóstenes Torres. Por certo não se pode atribuir aos personagens do mensalão responsabilidade pela união espúria entre Demóstenes e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Entre adversários e acusadores inclua-se a grande mídia jornalística, sempre pronta a trocar apuração por alarido, isenção por engajamento mal disfarçado, busca da verdade por editorialização do noticiário. Em modos e proporções diferentes. Não tem cabimento generalizar, vezo tão usual de, por exemplo, arautos do combate ao Partido da Imprensa Golpista, eles mesmos incapazes de enxergar o próprio rabo e perceber quanto são integrantes do Partido da Imprensa Governista.

Rose em segundo plano

Imagine-se qual teria sido o efeito na opinião pública do caso Rose, Rosemary Noronha, ex-encarregada do escritório da Presidência da República em São Paulo (gestões Lula e Dilma), caso não tivesse havido o mensalão.

O caso Rose serve como demonstração do anestesiamento da opinião pública, com a devida colaboração da mídia jornalística.

O fato é que após o mensalão, com os antecedentes referidos, um processo de indiferenciação se instalou. Ficou claro que as principais forças políticas se igualavam no recurso a métodos sem grandeza de fazer política: financiamentos lautamente retribuídos, marqueteiros, assessorias, currais eleitorais e alianças para lá de espúrias.

Esse processo influiu de alguma maneira na formação política dos jornalistas. Há um encadeamento de lacunas e debilidades de percepção que chega às instâncias tomadoras de decisões nas redações.

Agora mesmo, quando a polêmica em torno dos médicos (e não de todos os problemas relevantes da saúde pública) estava maior do que o embate pró-Ninja versus anti-Ninja, nova atração surgiu no picadeiro: o voto do ministro do Supremo Celso de Mello. Mais uma oportunidade, que a mídia jornalística não tem perdido, de trocar o essencial pelo acessório e o relevante pelo bombástico.

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