Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / CAFÉ LINDENBERG

Empresas jornalísticas como turbinas de informação

Por Abdo Filho em 17/09/2013 na edição 764
Reproduzido de A Gazeta (Vitória, ES), 8/9/2013; título original “‘As empresas jornalísticas sérias estão se transformando numa turbina de informação’”

Aos 47 anos, Carlos Fernando Monteiro Lindenberg Neto, o Café, é o comandante da Rede Gazeta, empresa que completa 85 anos na próxima quarta-feira, dia 11 de setembro. Há 12 anos no cargo de diretor-geral, ele tem a responsabilidade de tocar a maior empresa jornalística do Espírito Santo. Neste bate-papo, Café, que há um ano também ocupa a presidência da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), resgata a história do grupo, relembra os momentos complicados e gratificantes, e reafirma os valores de A Gazeta. “Transcendem a empresa, vêm de família”.

Qual é tamanho da responsabilidade de tocar o jornal que foi comprado pelo seu avô, Carlos Lindenberg, que cresceu pelas mãos de seu pai, Carlos Lindenberg Filho, o Cariê, e que agora chega aos 85 anos de idade?

Café Lindenberg – É uma responsabilidade imensa, tem toda uma história por trás deste grupo, que começou com o jornal. Estou aqui desde 1988, desde 2001 como diretor-geral, e o grupo só tem crescido nesses anos todos. Então, diante dos desafios que a indústria de mídia está vivendo, eu diria que a responsabilidade de continuar essa história de sucesso por mais, não sei, muitas décadas, é muito grande. A velocidade de mudanças no nosso ambiente aumentou muito, a concorrência extrapolou veículos semelhantes aos nossos e isso na internet é algo muito selvagem. As empresas de mídia ainda estão tentando lidar com isso, estão tendo que aumentar muito a velocidade de transformação e isso gera uma pressão gerencial muito grande. É um desafio imenso, mas acho que ele, por outro lado, acaba sendo um estímulo muito grande para trabalharmos e inovarmos.

Fale um pouco de sua trajetória dentro da Rede Gazeta.

C.L. – Não tive muitos postos, mas foram postos estratégicos. Quando entrei (em 1988, aos 22 anos), fiquei por um período assessorando o meu pai, isso me deu condições de conhecer um pouco de cada área da empresa. Depois de algum tempo, assumi alguns papéis, não sei se por intuição, mas eram áreas que achava que tinham lacunas aqui na Gazeta, áreas que as pessoas que tocavam a empresa na época não se preocupavam muito com elas, mas que tinham problemas. Eram problemas pequenos, então, acabei assumindo postos nessas áreas e isso me deu uma experiência gerencial muito importante. O primeiro trabalho foi nas rádios. Era um negócio pequeno, ou seja, um erro ali não seria tão catastrófico para a empresa. Foi um aprendizado muito grande. Quando assumi, tínhamos duas emissoras de rádio, as duas com problemas de audiência e resultado. Hoje, temos uma rede com nove emissoras, um negócio grande e que emprega mu ita gente. Depois, a empresa passou por mudanças de estratégia e fui passando por alguns cargos, até que, numa das mudanças, dividimos a Gazeta em unidades de negócio, meu pai ficou com a unidade jornal e eu com a TV. Depois, fui para a área de operações, com responsabilidades sobre todos os negócios. Em 2001, por iniciativa do meu pai, ele se afastou do dia a dia dos negócios e foi criado este cargo de diretor-geral onde estou até hoje.

Seu pai comandou A Gazetapor quase 40 anos, como foi o processo de sucessão?

C.L. – Meu pai construiu a base que hoje sustenta os nossos pilares. Ele é uma pessoa muito carismática, empreendedora, que fez essa dinâmica importante para o crescimento da empresa. Em quase todas as sucessões há um atrito ali, outro aqui, mas que são de fácil administração. Quando as pessoas têm boa índole, estão imbuídas do espírito de preservar a empresa e as relações, isso é mais fácil de fazer, e o nosso caso foi muito nesta linha. Eu vim me preparando dentro da empresa, conquistando liderança, porque liderar não é ser guindado a determinado cargo, sentar na cadeira e começar a mandar, sem legitimidade. Isso, em geral, não dá certo. A coisa aconteceu muito naturalmente, meu pai foi, paulatinamente, abrindo espaços para a minha atuação, acho que não cometi nenhuma grande besteira neste período (risos). Aí, aí sim de maneira um pouco mais abrupta, apesar dele ter anunciado que sairia e ter m e convocado para assumir o lugar num determinado dia de 2001, ele saiu, mas acabou sendo algo um pouco precipitado da parte dele. Por razões pessoais, ele resolveu tomar essa decisão, na época, inclusive, eu não me julgava pronto para assumir essas responsabilidades. Apesar de na parte de operação da empresa me julgar capacitado, esse cargo de diretor-geral tem outra dimensão de atuação, envolve a linha editorial do grupo, relacionamento institucional, e eu não tinha vivência nessa área, era uma área que ele sempre tratava e sempre tratou muito bem. Papai sempre foi muito hábil nessas coisas. Na época, eu não me julgava capaz de assumir, cheguei a cogitar com ele a possibilidade de colocarmos alguém enquanto me preparava neste sentido, mas ele não admitia essa possibilidade e acabei assumindo, mais por força dele do que por vontade minha.

Lá se vão 12 anos, qual foi o momento mais difícil?

C.L. – Foram vários. O dia a dia de uma empresa de mídia com a relevância de A Gazeta é cheio de armadilhas. Mas, pela pouca experiência que tinha na ocasião de lidar com esses temas institucionais mais graves, toda a convivência com o final daquele governo desastroso de José Ignácio (1999 a 2002), a era Gratz (o ex-deputado José Carlos Gratz, que presidiu a Assembleia Legislativa entre 1997 e 2002), todas as ações contra a Rede Gazeta por parte da Assembleia e do governo do Estado (A GAZETA fez as principais denúncias), a gente tendo que resistir àquilo de maneira muito brava, quase que solitária num primeiro momento, por tudo isso, esse foi o momento mais complicado. O desafio de atravessar o governo José Ignácio e a era Gratz, e eu assumindo a empresa, sem tanta experiência, com uma redação ainda sem confiança nessa troca de comando, o que é normal, ter que lidar com ações muito fortes do governo e d a Assembleia, colocando em risco a sobrevivência da empresa, enfim, fui colocado à prova com pouco tempo de cadeira. Meu pai me ajudou muito nos momentos de angústia e de desespero total, fiquei muito angustiado, tive problemas de saúde. Também passei por uma separação, ou seja, juntou muita coisa num curto espaço de tempo. Foi, sem dúvida, o momento mais difícil que eu vivi.

E o mais gratificante?

C.L. – Olha, eu tive muitos bons momentos nestes 12 anos à frente da empresa e nos quase 30 em que estou aqui dentro. Trabalhar numa empresa que tem o alcance que a gente tem nos possibilita vários bons momentos, a recompensa de ver o resultado do trabalho de maneira concreta. Não diria que é o mais, mas, só como exemplo de que quando você mantém firme suas crenças e suas determinações você acaba tendo resultados: a era que me gerou mais dificuldades um dia acabou e nós conseguimos virar uma página negra da história do Estado, que também foi uma página negra da história de A Gazeta. O importante é que nós tivemos uma ação muito importante para que isso acontecesse. No aspecto institucional, foi a maior realização. No campo profissional, tenho orgulho de muitas coisas. As TVs do interior, por exemplo, Norte (Linhares) e Noroeste (Colatina), foram implantadas já na minha gestão, assim como várias emisso ras de rádio que entraram na nossa Rede. Além do patamar de profissionalização que a Rede Gazeta conseguiu atingir, isso me deixa muito feliz. Também me dá orgulho a relação da minha família com a empresa. Aqui convivo com minha avó (Maria Antonieta), meu pai, minha irmã (Letícia) e minha mãe (Maria Alice). Uma convivência familiar muito agradável. No nosso caso, a empresa é um fator de união.

Com a massificação da internet e de suas ferramentas, caso das redes sociais, a indústria de mídia passa por uma verdadeira metamorfose. Além de diretor-geral de A Gazeta, o senhor também é presidente da Associação Nacional de Jornais. Como é estar à frente de todo esse processo? Onde é que isso vai parar?

C.L. – Parar não vai parar. Esse é um processo que começou há uns 20 anos, com a entrada da internet na vida das empresas e, depois, na vida das pessoas. As empresas de mídia foram muito pioneiras na internet, se lançaram logo cedo para divulgar seus produtos, só que houve o erro, não sei se um erro original, da gente não ter pensado muito em de que maneira transformaríamos isso num negócio rentável, como são os nossos negócios no mundo analógico. Hoje, nós pagamos o preço de não termos dado a devida importância ao fenômeno da internet, isso fez com que outros players, que não existiam no mundo de então, conseguissem se posicionar em áreas importantes da internet, ganhando relevância mundial. Estou falando de Google, Facebook, Apple, empresas que aproveitaram essa oportunidade. Acho que isso esteve nas mãos das empresas de mídia, só que tínhamos negócios que funcionavam bem, davam retorno, por isso, nunca fomos de peito abraçar essas oportunidades. Hoje, estamos correndo atrás disso aí, acompanhamos a mudança de hábito das pessoas, nossos anunciantes têm outras alternativas muito eficazes também, então, estamos tendo que correr atrás de um negócio que já anda em alta velocidade. Estamos numa corrida de recuperação (risos). Já há uma consciência nos jornais de que precisamos nos abraçar neste momento e fazer algo para a indústria, colocando os interesses individuais em segundo plano. Só isso nos trará de volta ao jogo. Temos conseguido muita coisa dentro da ANJ, estou tão ou mais desafiado de que quando assumi a Rede Gazeta, espero sair de lá honrando a foto que tem na parede.

Trata-se de uma crise ou os analistas estão sendo fatalistas demais?

C.L. – Hoje, setembro de 2013, nós vivemos uma combinação de coisas. Temos um mercado publicitário que não está espetacularmente vigoroso, muito por conta das atuais condições econômicas. Mas por isso já passamos várias vezes. Vivemos outro drama, drama por conta da velocidade imposta, que é a transformação do negócio provocada pelas plataformas digitais. No mercado americano e na Europa, os jornais certamente passam por uma crise, a mais avassaladora que já houve até hoje. Na Ásia, muitos veículos têm crescido. No nosso caso, é crise do modelo de negócio, não é da indústria. Se considerarmos a audiência das empresas jornalísticas hoje, não estou falando apenas do impresso, nunca tivemos tanta audiência, só que isso está dividido entre papel e internet, e na internet a gente ainda não sabe a fórmula, não temos o toque de Midas que remunere os investimentos que precisam ser feitos. É preciso m udar o patamar do digital para conseguir que isso, lá na frente, volte a ser um modelo de negócio muito sólido e que permita que essas empresas continuem prestando o serviço que elas têm de prestar, que é fornecer informação adequada, confiável e com independência.

Como A Gazetaestá se preparando para essas mudanças?

C.L. A Gazeta sempre foi muito pioneira. Tem 85 anos porque teve essa capacidade de aproveitar as oportunidades trazidas pelo desenvolvimento e soube tirar energia disso aí para se renovar. Estamos na internet de maneira muito contundente, nossa operação de internet é muito antiga (o Gazeta Online entrou no ar em 1996), a experiência acumulada é grande, mas a velocidade com que a coisa tem mudado tem dado uma pressão muito grande, gerencialmente falando, em cima da nossa empresa. Estamos passando por processos de profundas mudanças na nossa operação. A empresa que não enxergou isso ou está morrendo ou foi vendida ou morrerá brevemente. Segunda-feira (amanhã), começamos um amplo trabalho de revisão de processos produtivos. Ao final desse trabalho, a primeira fase termina no fim deste ano, teremos uma das redações mais modernas do Brasil.

Qual é o futuro do jornal impresso?

C.L. – O papel vai continuar por muito tempo. Hoje, esse debate já não é mais tão produtivo. Vários visionários previram o fim do papel e ele não acabou, nem vai acabar. No Brasil, a circulação de impresso cresceu nos últimos anos. As empresas jornalísticas sérias estão se transformando no que chamam de “turbina de informação”. São centros de captação, edição e distribuição, isso pode ser por TV, papel, internet, mobile, pelo mecanismo que for, até por telepatia, se um dia isso for inventado. Nosso papel é fazer essa curadoria e entregar da melhor maneira possível, como nosso cliente quiser.

Jeff Bezos, o homem que revolucionou o comércio via internet (dono da Amazon), acaba de comprar o Washington Post, um dos ícones mundiais da mídia impressa. A aposta que alguma coisa boa pode sair daí é alta. O que o senhor espera de Bezos à frente do Post?

C.L. – Sou muito otimista, não tenho nenhum motivo para acreditar que ele está mal intencionado. Me surpreendeu negativamente o valor que ele pagou por esse ícone do jornalismo (US$ 250 milhões). Não sabia que com esse valor poderíamos comprar um jornal com essa relevância (risos). Acho que isso pode ser muito bom para o Washington Post e também para a indústria jornalística. No âmbito da ANJ temos discutido o que precisamos fazer para estarmos competitivos neste mundo da informação, e precisamos de muita coisa que a Amazon tem. Toda essa parte de análise de comportamento do consumidor, as ferramentas de relacionamento comercial, coisas que só uma empresa de escala mundial desenvolve. Podemos tirar muitas lições, isso, claro, partindo do pressuposto de que Bezos manterá todos os fundamentos do Post. Sem isso, não adiantam nada as ferramentas.

Diretor-geral da Rede Gazeta, presidente da ANJ, seu dia a dia é bem atribulado. O que o senhor gosta de fazer nas horas de descanso?

C.L. – Já fui workaholic (viciado em trabalho), hoje, tenho uma rotina mais civilizada. Claro, tem muitas coisas, cerimônias a que preciso ir, mas não sou muito de sair e isso não deixa de ser um sacrifício para mim. Gosto de cozinhar, lavo os pratos, divido muitas tarefas com minha esposa, meus filhos passam o final de semana comigo, enfim, gosto de uma vida normal, festa não é muito comigo. Também adoro viajar. Viajo com minha mulher, filhos, viajo para pescar, para caçar, é algo de que gosto muito. Acho que numa loucura de quem se aproxima dos 50 anos (risos), eu comprei uma moto. Gosto muito de andar de moto, mas sem loucuras. Procuro não ser escravo do trabalho.

Qual o recado que o senhor deixa para os nossos leitores? O que eles devem esperar de A Gazeta?

C.L. – Nestes 85 anos, principalmente nos últimos 40, consolidamos valores muito importantes para uma empresa de mídia, ligados ao desenvolvimento da sociedade, às causas sociais, à busca por mais qualidade de vida das pessoas, isso levou A Gazeta a uma posição de protagonismo no Estado. A gente goza de respeito público, tanto dos nossos consumidores como dos que governam o Espírito Santo. Temos esse respeito porque demonstramos ao longo de todos esses anos que somos uma empresa engajada a esses valores, princípios e objetivos comuns a toda a sociedade. Podem esperar que manteremos esses valores. Eles transcendem a empresa, vêm de família, são coisas que estão quase que gravadas em pedra, e, enquanto estivermos à frente do grupo, teremos esse compromisso de maneira muito sólida. Trabalhamos de maneira muito determinada para dar respostas a essas mudanças de mercado, e, aos poucos, isso se transformará em melhores serviços. São mudanças essenciais para que fiquemos em forma, para que sejamos eternos enquanto durarmos (risos).

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Abdo Filho, de A Gazeta

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