Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Imprensa esnoba o setor mais dinâmico

Por Rolf Kuntz em 17/09/2013 na edição 764

Com novo recorde na produção de grãos, estimada em 187,09 milhões de toneladas, e superávit comercial de US$ 57,75 bilhões até agosto, o agronegócio confirma sua condição de setor mais dinâmico e mais eficiente da economia nacional, mas continua esnobado pela maior parte da imprensa. Os editores mais avessos às coisas do campo e menos informados sobre o assunto poderiam, com um pouco mais de atenção, ter notado a posição da agropecuária nas contas nacionais divulgadas em 30 de agosto. A agropecuária cresceu 7,4% em quatro trimestres, enquanto a indústria avançou apenas 0,1% e os serviços, 1,9%. A taxa de 1,9% foi também a do crescimento do produto interno bruto (PIB).

A importância da produção rural vai muito além dos números de plantio, colheita e exportação. Os produtores do campo são importantes investidores. Boa parte da expansão do investimento no primeiro semestre correspondeu às compras de máquinas agrícolas e de caminhões para o transporte da safra. Essa informação foi divulgada tanto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) quanto pela associação da indústria automotiva, mas parece ter atraído pouca atenção nas redações. Além disso, boa safra e bons ganhos na agropecuária normalmente resultam em aumento do consumo no interior, como podem confirmar os dirigentes de grandes cadeias de varejo.

Ao lado desses fatores, é bom levar em conta a relevância do agronegócio para a segurança externa da economia. Neste ano, a exportação do setor rendeu US$ 69,04 bilhões até agosto, 10,3% mais que em igual período do ano passado, e o resultado foi um superávit comercial 11,3% maior que o de um ano antes. Sem isso, o saldo comercial do Brasil até o mês passado teria sido muitíssimo pior que o déficit de US$ 3,76 bilhões acumulado em oito meses.

Embrapa vive

O bom resultado obtido pelos exportadores de soja, farelo, carnes, café, açúcar e outros produtos do setor foi obtido apesar da redução de algumas cotações e das enormes dificuldades logísticas. Pelo menos as filas quilométricas de caminhões a caminho dos portos foram mostradas pela TV.

O pouco interesse em relação à atividade rural deve ser explicável, em parte, por um erro de concepção. Produtos agrícolas são classificados como primários, e primário deve significar, para muita gente, algo produzido com baixa adição de valor e escassa tecnologia. Mas o Brasil é hoje um dos maiores produtores mundiais de soja, uma planta originária de regiões temperadas, quase frias. Um dado como esse deveria ser suficiente para criar alguma dúvida quanto à ideia de simplicidade tecnológica. Nem seria necessário muito conhecimento especializado para avaliar a fantástica transformação do Cerrado em uma das principais zonas agrícolas do mundo.

Além disso, em todas as principais culturas a produção vem crescendo, há mais de duas décadas, muito mais que a área ocupada pelas lavouras. Produtividade é consequência da combinação de uma porção de fatores e um dos mais importantes é a tecnologia.

Não por acaso a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é respeitada internacionalmente entre profissionais do ramo. A empresa quase foi destruída, há alguns anos, por uma tentativa de aparelhamento e de revisão política de objetivos, mas isso foi impedido pela reação pesquisadores da academia e de centros tecnológicos.

Saldo devedor

O Valor tem-se diferenciado na cobertura do agronegócio, de modo geral, e particularmente da produção rural. O jornal saiu na frente, mais uma vez, ao cuidar do plantio da próxima safra de verão. A edição de quarta-feira (11/9) chamou a atenção para a distância entre os preços da soja e do milho na Bolsa de Chicago, a mais ampla em quatro anos, e para os efeitos disso nas decisões de plantio. Outros jornais noticiam no dia a dia a evolução das cotações nas principais bolsas de mercadorias, mas raramente vão além de uma informação pouco elaborada. O Valor deu um bom passo a mais que os concorrentes.

Na edição de sexta-feira (13) houve outro avanço, com uma longa matéria – toda a última página do caderno de Empresas – sobre a antecipação do plantio de soja em Mato Grosso. A história inclui, além de detalhes da lavoura e de informações sobre custos e preços, uma pequena retranca para lembrar os persistentes problemas de logística, um dos pesadelos dos produtores e exportadores.

No sábado (14), no Estado de S. Paulo, a coluna de Celso Ming apresentou um belo material sobre a produção de grãos na temporada 2012/2013, a situação dos preços e as perspectivas de plantio da safra 2013/2014.

No domingo (15/9), o Estadão apresentou uma reportagem especial, de duas páginas, sobre a ocupação agrícola, os problemas e as perspectivas do vale do Araguaia, no nordeste de Mato Grosso. Foi um bom material. Mas o melhor de qualquer jornal deve ser a cobertura do dia a dia, quando se mostra o empenho efetivo no acompanhamento de cada assunto. Em relação à agropecuária, a maioria continua devendo.

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Rolf Kuntz é jornalista

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