Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Engarrafamento em via dupla

Por Felipe A. P. L. Costa em 24/09/2013 na edição 765

Alguns erros parecem ser incorrigíveis. Um dos casos mais comuns que conheço é a confusão que se faz entre “ave” e “pássaro”. Exemplo recente pode ser visto na matéria “São Paulo tem 400 espécies de aves; veja quais são e onde encontrá-las“, de Letícia Mori, publicada na Folha de S.Paulo (21/7/2013). O problema fica ainda mais evidente no título dado à galeria de 24 ilustrações que acompanha o corpo da matéria: “Os pássaros”. (Também sou de opinião que a manchete deveria deixar claro que a notícia se refere à cidade de São Paulo, e não ao estado. Uma alternativa apropriada seria “Paulistanos convivem com 400 espécies de aves; veja onde encontrá-las”. O estado de São Paulo, como a jornalista deve ter descoberto, possui registros de ocorrência de mais de 700 espécies de aves.)

Ave ou pássaro?

Para nos referirmos a toda e qualquer espécie vivente de vertebrado emplumado, a palavra certa a usar é “ave”, e não “pássaro”. Essa afirmativa também vale para textos traduzidos. A tradução mais apropriada da palavra inglesa bird, por exemplo, é “ave”. Nesse sentido, penso que um erro histórico foi cometido pelos tradutores do renomado filme do diretor inglês Alfred Hitchcock (1889-1980), originalmente intitulado The birds. Em português, o filme deveria se chamar As aves, e não Os pássaros.

Nunca é demais insistir: todos os pássaros são aves, mas nem todas as aves são pássaros. Arapaçus, bem-te-vis, sabiás e saíras são exemplos de pássaros, mas corujas, gaviões, papagaios e pica-paus não são. Os primeiros exemplificam grupos de espécies de quatro diferentes famílias da ordem Passeriformes (Dendrocolaptidae, Tyrannidae, Turdidae, Thraupidae), enquanto os últimos ilustram grupos de quatro outras ordens da classe Aves (Strigiformes, Accipitriformes, Psittaciformes, Piciformes).

Nessa mesma linha de raciocínio, há uma rica e variada lista de outros termos que são rotineiramente mal-empregados. Três dos exemplos mais comuns que conheço são “ambiente”, “cobra” e “veneno”. Em artigo anterior, publicado neste Observatório (ver “Dissonâncias conceituais em nossa mídia“, tive chance de comentar um pouco mais a respeito de alguns desses termos.

O caso do “código genético”

Existem casos um pouco mais complexos, como os que envolvem o uso de expressões constituídas de pares de palavras (substantivo + adjetivo). É o caso de “código genético” e “carga genética”, duas expressões que quase sempre são usadas de modo inadequado. Quando se pensa no material genético de uma célula ou de um indivíduo, estamos pensando em genoma, não em carga genética nem em código genético. Tratar essas expressões (genoma, carga genética, código genético) como se fossem sinônimos é um erro grave e grosseiro – para mais comentários, ver, neste Observatório, “Imprecisão e licença científica, o retorno“.

O curioso, no caso específico da confusão entre genoma e código genético, é que a falta de precisão conceitual pode impedir o reconhecimento de uma novidade verdadeiramente interessante. Penso que foi exatamente isso o que aconteceu entre nós algumas semanas atrás. A matéria “Pesquisadores portugueses alteram código genético de um fungo“, de Gilberto Costa, publicada pela Agência Brasil (25/6/2013), informava que o código genético de um organismo experimental havia sido alterado.

Embora se trate de uma notícia verdadeiramente relevante, não percebi qualquer repercussão mais significativa na mídia brasileira. Como explicar tamanha displicência? Não tenho uma resposta pronta, mas arrisco um palpite: ao se depararem com uma manchete falando em “código genético”, repórteres e editores devem ter pensado que se tratava apenas e tão-somente de mais uma matéria relatando alterações no genoma. Dessa vez, no entanto, a expressão “código genético” estava sendo usada de modo preciso, e não como sinônimo de “genoma”. E todos nós perdemos…

Precisão conceitual não é uma exigência descabida, mesmo em se tratando de matérias jornalísticas. A falta de precisão, por sua vez, nos leva a uma situação que se parece muito com um engarrafamento em uma via de mão dupla: de um lado, induz o leitor a erros e mal-entendidos; de outro, impede que o jornalista perceba exatamente o que se passa diante dele.

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Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor; autor, entre outros, de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

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