Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Interesse e ignorância: passando dos limites

Por Cátia Guimarães em 08/10/2013 na edição 767

Vamos resumir assim: a polícia cometeu excessos, policiais isolados chegaram a forjar flagrantes, mas o uso geral da força se explica pela ação repetitiva e destruidora dos Black Blocs, que se infiltraram na manifestação dos professores do Rio de Janeiro, tornando o centro da cidade uma praça de guerra. Diferente dos mascarados, os professores se manifestavam pacificamente, mas, sabendo da situação da cidade e da predisposição dos vândalos de aproveitar qualquer oportunidade para destruir o patrimônio público e privado, bem que poderiam ter insistido em outra forma de negociação, menos radical, que levasse a um consenso mais seguro para o conjunto da população. Um pouco menos de intransigência nas demandas do Plano de Cargos, Carreiras e Salários também teria ajudado a evitar as cenas de horror que a cidade viveu. Os milhares de professores em greve, que têm lotado as assembleias em espaço público da categoria e, naquele dia fatídico, estavam lá, certamente teriam aceitado um desfecho pacífico como esse, bem no enredo de uma novela das seis. Isso só não foi possível porque eles se tornaram massa de manobra de partidos políticos (PSOL e PSTU) que comandam o Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe-RJ) com o único objetivo eleitoreiro de desestabilizar o prefeito Eduardo Paes.

Pronto, leitor. Se você não teve o desprazer de ler a edição de quarta-feira (2/10) do Globo, poupe sua inteligência. No parágrafo acima estão resumidas as cinco páginas do jornal impresso e as diversas combinações de chamadas mal-intencionadas que a sua versão online fez durante o dia. Mas não só: resume também a abordagem que, numa coerência assustadora, os telejornais da Globo e da Globo News assumiram.

Acima dos partidos

Como resultado de uma combinação entre os interesses do grupo empresarial e a ignorância arrogante dos seus jornalistas, as Organizações Globo arriscaram tudo na cobertura da violência que os governos estadual e municipal do Rio de Janeiro provocaram contra professores e a população em geral. Dessa vez, foi mais do que uma inflexão conservadora ou uma oscilação indecisa: foi a tentativa explícita e vulgar, manipuladora a um ponto que poucas vezes se vê, de submeter os fatos a uma leitura editorial produzida a portas fechadas e legitimada pelo senso comum dos jornalistas que têm se prestado a isso. Registre-se, inclusive, que nenhuma matéria do jornal impresso foi assinada, constando apenas, num cantinho, o nome de uma tropa de jornalistas que teriam participado da “cobertura”.

Difícil é entender por que se precisou de tanta gente, já que o resultado foi uma ficção editorialmente montada muito longe da realidade dos fatos. Afinal, para saber a hora em que as bombas estouraram, o nome das ruas fechadas ao trânsito, o número de feridos e presos (mal apurado, diga-se de passagem), únicas informações objetivas em cinco páginas de matérias, não era necessário estar lá. Tampouco era preciso se arriscar em meio a bombas e “populares” para “descobrir” que alguns dirigentes do Sepe-RJ, como de quase todos os sindicatos e movimentos sociais organizados, têm relações com partidos de esquerda. Essa “denúncia”, um verdadeiro furo de reportagem do mau jornalismo do Globo, seria facilmente verificada remotamente, já que, enquanto a filiação partidária não é considerada crime, não se trata de informações confidenciais.

Na sua guerra contra qualquer tipo de organização de setores da sociedade, o Globo nos faz acreditar – e o que é pior, convence seus próprios jornalistas – que só existem interesses particulares (e escusos) quando há partido político e, mesmo assim, com filiação formal. Pela sua lógica, o Sepe-RJ deveria ser composto apenas por quadros “técnicos” da educação. Curioso é não haver questionamento sobre o caráter técnico de uma secretária de Educação formada em Administração Pública, que veio importada de São Paulo para gerir a educação do Rio. O fato de ter fortes relações com o PSDB – chegou a ministra de Estado, substituindo Bresser Pereira no governo Fernando Henrique e foi secretária de Cultura do governo Alckmin – e hoje compor um governo do PMDB apoiado pelo PT só mostra que, em alguns grupos, que não precisam ir para as ruas e tomar bomba ou bala de borracha para serem ouvidos – os interesses estão organizados acima dos partidos.

Falso equilíbrio

No mais, as palavras escolhidas e repetidas na cobertura do jornal impresso e dos telejornais não deixam dúvidas. Quando trabalhadores apanhavam e eram escorraçados pela polícia, havia “confusão” ou “confronto” entre policiais e manifestantes, uma descrição falsamente “equilibrada”, que iguala os dois lados da balança, na força e na razão; quando bancos e instalações públicas eram quebrados ou lixeiras queimadas, as palavras ganhavam contornos mais claros: tratava-se de “vândalos” fazendo “baderna” e “arruaça”.

Na Globo News, seria constrangedor, se não fosse revoltante, ver uma sempre despreparada Leilane Neubarth praticamente pedir, ao vivo, que o repórter do Globocop encontrasse um Black Bloc. Ela insistia em perguntar se, mesmo com pouca luz e àquela distância, o jornalista não conseguia ver se havia mascarados. Constrangedoramente, ele não viu. Mas passaram apenas alguns minutos o repórter voltou para dar a informação que, nas suas palavras, ele tinha ficado “devendo”. Encontrados os Black Blocs, a âncora da Globo News desfiou todo o rosário de conservadorismo, ignorância e, principalmente, mau jornalismo, deixando evidente para qualquer um que os fatos ali não tinham a menor importância – a narrativa já estava montada.

No Globo online, chegou-se ao cúmulo de dar destaque na página inicial à informação de que Eduardo Paes havia chamado a polícia para investigar o boato sobre a morte de uma professora. O texto era do blog de Ancelmo Gois e chegava ao cúmulo de dizer que o prefeito tinha recebido muitos xingamentos e passara a noite em claro!

Não comungo com a crença ingênua de uma parte da esquerda de que existe um Grande Irmão ou um Grande Editor definindo todas as estratégias de manipulação das matérias da grande imprensa. Questão muito mais complexa, o papel desempenhado pela grande mídia informativa conta com a passiva contribuição dos jornalistas, que são produtores, mas também produto desse senso comum que, por definição, é conservador e serve à manutenção dos interesses dominantes. Como não se trata de adesão voluntária e consciente, não se pode condenar os jornalistas de pronto, mas quero defender que, num momento como esse, é preciso pelo menos julgá-los.

Primeiro, porque em situações extremas a ingenuidade passiva precisa ter limites. Segundo, porque parte da afirmação desse senso comum é resultado da arrogância de profissionais que se acham ilustrados, mais bem formados e informados do que a média, envaidecidos pela presença pública e pelos privilégios que o crachá de um grande jornal garante e, consequentemente, crentes no seu papel de defensores da democracia através da informação.

Tenho certeza de que a maioria dos jornalistas das Organizações Globo, e falo aqui de jornalista médio, condena a violência contra professores. Mas, embebidos do senso comum que iguala todas as indignações nessa falsa crença na imparcialidade, condenam também a dos Black Blocs, a reação de manifestantes à polícia, a tática de ocupação de casas como a Câmara como forma de pressão e, quem sabe, também a organização em partidos políticos e movimentos sociais combativos. Não percebem que o resultado desse falso equilíbrio não tem nada de imparcial.

Mas, se é verdade que o dia a dia das redações não é marcado pela figura do Grande Editor, em tempos de crise os grandes veículos de comunicação, integrantes de grandes grupos empresariais, abrem mão inclusive dos princípios que, em tempos normais, garantem a sua hegemonia.

“Festa da democracia”

Narrando em livro sua experiência na construção de um projeto alternativo de comunicação no Chile durante o governo de Salvador Allende, o pesquisador Armand Mattelart nos mostra como, diante de uma ameaça concreta e estrutural aos seus interesses, os grandes meios de comunicação, aparelhos privados de hegemonia que são, abrem mão inclusive da aparência de imparcialidade. Essa parece uma explicação mais coerente para o apoio das Organizações Globo à ditadura brasileira, que mereceu um mea culpa recente.

Mas e hoje? Não se trata de supervalorizar o movimento das ruas como o prenúncio de uma revolução. Mas é preciso considerar que a recente greve e mobilização dos professores do Rio de Janeiro traz pelo menos duas novidades em relação às manifestações que têm tomado o país desde junho, fazendo com que a linha editorial do(a) Globo não tenha mais qualquer vacilação. A primeira é que ataca um governo cujo projeto de cidade e de educação, no caso específico de que tratamos, atende muito bem aos interesses do grande capital. Sergio Cabral foi os anéis; Eduardo Paes já alcança os dedos. A segunda, e mais importante porque mais genérica, é que não se trata mais de um movimento difuso, cujas pautas podem ser facilmente simplificadas a questões pouco estruturantes, como o fim da corrupção.

Agora, tomou as ruas e a simpatia da população um movimento organizado de trabalhadores que tem muita clareza sobre a sua pauta de reivindicação. Que, mais do que grandes emblemas, tem propostas concretas de aumento salarial, criação de carreira e melhoria das condições de trabalho para os profissionais e de aprendizado para os alunos. Trata-se, portanto, de um movimento organizado que, para defender os interesses dos trabalhadores – não só da educação –, tensiona a governabilidade e os consensos estabelecidos. Só que essa parte da “festa da democracia”, tão anunciada na cobertura do povo na rua, precisa ser cancelada.

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Cátia Guimarães é jornalista e doutoranda em serviço social

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