Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Jornalista paraense, um remador de galé

Por Lúcio Flávio Pinto em 08/10/2013 na edição 767

Assis Chateaubriand encomendou um editorial para a Sexta-feira Santa sobre Jesus Cristo. Antes de começar a escrever, o editorialista achou mais prudente consultar o chefe, que era o Roberto Marinho da época, a década de 1950. Queria saber se era para escrever a favor ou contra o personagem.

Alguns juram que o episódio é verdadeiro. Ainda que seja lenda, exemplifica muito bem o poder de mando que o dono de uma empresa jornalística exerce. Não há poder igual em qualquer outra empresa. A voz de um dono de jornal ou emissora de televisão tonitrua sem oposição. Para quem reage ou se opõe à ordem, a pena costuma ser sumária: a demissão.

A posição editorial do veículo de comunicação muda conforme sopram os ventos dos interesses do proprietário, ainda que o negócio de um jornal seja a informação pública e a televisão seja uma concessão da sociedade (embora através dos meandros do governo).

Os jornalistas paraenses entraram em greve, mas a opinião pública não sabe. Não foi a primeira vez. Lembro que a primeira experiência grevista numa redação teve o mesmo destino. Quando fomos à Assembleia Legislativa por uma segunda vez, para pedir o apoio dos parlamentares, um deles disse que não ia mais se manifestar. Seu pronunciamento não saíra na imprensa.

Até então, apenas gráfico fazia greve e, às vezes, era bem sucedido. Ele trabalhava no coração do jornal: a oficina e suas extensões no processo produtivo. Paralisações nas redações eram inúteis: o dono contava com um exército de reserva de mão de obra para substituir os faltosos, mesmo que com uma mercadoria inferior do ponto de vista estritamente profissional. Os colaboradores ansiavam por ver seus nomes impressos na publicação e agradar o todo-poderoso empresário.

Ao contrário

Uma das nossas principais bandeiras era reduzir a quantidade e a natureza da colaboração editorial ao necessário e desejável. A função propriamente jornalística, relativa à cobertura periódica dos acontecimentos, só devia ser feita por profissionais com relação de emprego com a empresa. A participação do colaborador devia se restringir a matérias científicas e culturais, em espaços reservados, em edições limitadas.

Essa reivindicação foi manipulada e deturpada quando o governo militar, em 1969, impôs a exigência do diploma do curso de Comunicação Social para o exercício da profissão de jornalista. Por trás dos espelhinhos, miçangas e paetês, vinha o controle da formação do jornalista nas máquinas de enlatar teorias das universidades. Mas essa é outra história.

O domínio autocrata do proprietário sobre os veículos de comunicação aprisiona o seu contratado. Ele pode noticiar a greve de todas as categorias profissionais, menos a sua. Pode servir de condutor para o protesto de trabalhadores superexplorados por seus patrões, desde que não inclua o seu, que paira em espaço criado, acima do bem e do mal.

As condições de trabalho dos jornalistas nas redações da imprensa paraense são semelhantes às das antigas galés, para usar uma feliz expressão de Nelson Rodrigues. Mesmo porque os jornalistas paraenses são autênticos remadores de galés, sob um regime de trabalho que guarda alguma semelhança com o da escravidão que eles periodicamente noticiam, a partir de descobertas feitas nos rincões das frentes de expansão nacional, que sangram o interior da Amazônia.

O caso mais grave é o do Diário do Pará. O jornal conseguiu a façanha de desbancar da liderança de jornais o seu inimigo, O Liberal, que chegou a ter 85% da leitura dos belenenses, índice sem equivalente em qualquer outra capital brasileira. Mas o aumento da vendagem e a criação de uma nova imagem, à custa de muito marketing, foram vitórias não partilhadas com os jornalistas. Eles continuaram a receber salários aviltantes e ter condições de trabalho desestimulantes. A formação e qualificação foram descuradas, e o resultado pode ser avaliado todos os dias na qualidade editorial sofrível.

Apesar de tudo isso, que depõe contra uma empresa que assumiu a liderança no segmento mais importante do mercado, a reação do patrão à justa reivindicação dos seus mais importantes empregados, por serem aqueles que lidam diretamente com a matéria prima a ser manufaturada e apresentada ao público, é autoritária e intolerante. Um jornal que apregoa ser defensor da democracia, da justiça e da igualdade, internamente procede exatamente como aqueles que critica. A verdade só serve da redação para fora. Para dentro, prevalece o sistema de exploração de remadores de galés.

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Reverso

Está na hora de o Diário do Pará instituir a figura do ombudsman, o ouvidor do jornal. Talvez ele alertasse para o mau gosto e o efeito contrário ao pretendido na campanha que desencadeou contra o seu adversário, O Liberal. Tecnicamente, as peças publicitárias são primárias e grotescas: um pé que vai esmagar uma barata, um tubarão a engolir um peixinho e um rato aprisionado por um gato. O jogo de sombras sugere comparação com as peças nazistas. E talvez provoque mais repulsa do que aprovação.

O jornal dos Barbalho parece empenhado em não permitir que os veículos da família Maiorana se destruam por dentro, em implosão. Cada vez que inicia uma ofensiva contra eles, os fortalece. Ou, ao menos, deixa de enfraquecê-los, ao contrário do que pretende.

Chatice

O grupo Liberal podia inscrever seus intermináveis editoriais sobre o corrupto Jader Barbalho no Guiness, o livro dos recordes, como os textos mais chatos da imprensa mundial. Vão acabar canonizando, por efeito reverso, o senador do PMDB.

Novidade

Preciosa contribuição da imprensa paraense à história mundial do jornalismo: um “informe publicitário” de motel, o Mykonos, saiu em página inteira na edição dominical do Amazônia, domingo passado. Há coerência com as fotos nuas no jornal

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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